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O Capeta do Vilar: Jamall Dubeco e sua ressurreição como vilão do sistema.

Atualizado: 30 de mar.

Album Imorrivel Imortal de Jamall DuBeco

A primeira vez que ouvi o álbum “Proibidão do Bairro 13” do Zero Dollar, em 2014, lembro de me sentir incluído em algo. Eu não me via nos livros que lia na biblioteca do brizolão que estudei em São João de Meriti, o saudoso Ciep 175 José Lins do Rego, e muito menos nas músicas que ouvia. Ouvir um álbum como aquele me fez sentir que eu poderia fazer algo falando sobre minha vivência, sobre o meu local, as violências promovidas pelo estado e pela polícia a meus pares.

Vilar dos Teles, mais conhecido como Vilar, é um bairro de São João de Meriti e era um dos maiores centros comerciais da cidade e do estado. Nos anos 80 era conhecida como a Capital do Jeans por conta de diversas lojas que vendiam esse material a preço de fábrica. Atualmente é o local onde se encontra a Prefeitura de SJM, com sua grande Praça dos Três Poderes que recebe a juventude. Vilar é o local de moradia do Jamall Dubeco e do Braw ZD e onde se encontra o Bairro 13.

É Proibidão do Bairro 13, por ser proibido mesmo! Na Baixada Fluminense, especificamente no Vilar, a censura nem é disfarçada de democracia. Os “quebras” quebram. Então imagina um grupo de jovens negros soltarem um álbum de protesto contra a violência sofrida pela juventude meritiense pela polícia, milícias e tráficos de drogas em uma cidade que corrobora arduamente com o genocídio da população negra?

Zero Dollar foi um grupo que teve a coragem de expor os covardes que trituram os pobres e negros da baixada fluminense há anos. Jamall DuBeco, Braw ZD através de suas letras representam uma geração de jovens meritienses que sofreram na mão do estado de inúmeras maneiras. Censurados, presos, agredidos e humilhados.

Todas as sete faixas do Proibidão do Bairro 13 foram mixadas por Big Smile, exceto a faixa 02 Gravada mixada e masterizada na ABA Produções por Hermes Filho. É recheado por uma diversidade de boombap’s, com uma faixa de raggamuffin e funk. Faz muito tempo que eu queria falar do Zero Dollar, já tinha até feito um vídeo há muito tempo atrás, mas o assunto principal aqui nem é sobre o grupo em si, é sobre um membro Jamall Dubeco e seu single "Imorrível Imortal”.

Karl Marx, mais conhecido por Jamall DuBeco, é um artista ímpar na cena da Baixada Fluminense, especificamente Vilar dos Teles. Não só por seu nome ser o mesmo do pensador alemão, mas por ser uma das vozes e mentes que lutaram pelo direito da juventude meritiense viver, ter acesso à cultura, educação e até fumar um baseadinho - na praça para quem curte e longe das crianças.

Conheci Jamall em uma manifestação que a UME (União Meritiense dos Estudantes), entidade estudantil que eu fazia parte, fez em 2013. Que colocou mais de 30 mil pessoas na rua dando um basta à corrupção e a violência. Jamall puxou o Hino do Brasil e palavras de ordem no único carro de som da manifestação. Só depois descobri que era uma das vozes do Zero Dollar, grupo que já curtia o single “Na mira dos Covardes”, lançado antes do álbum.

Depois do álbum Zero Dollar em 2016 lançou mais uma música “O Crime é Nada a Vida é Tudo” que é um retrato de um jovem que está no tráfico de drogas. Um relato triste e revoltante. Uma música linda que vale muito a pena ouvir. No mesmo ano entraram em Hiato com o grupo. Em 2021 Jamall Dubeco renasceu com "Imorrível e Imortal'', lançado pelo selo SdCria.ent, surgindo como uma fênix no beat de "Crunk Aint Dead" do Duke Deuce.

Com referências desde Wilson Simonal ao grupo maiosta peruano Sendero Luminoso. Imorrivel Imortal é uma resposta bem dada a quem não cansa de ver pretos desistindo de seus sonhos. Jamall ressurge não só como artista, mas como homem, não esquecendo de seus erros e seus acertos. Não ressurgindo como uma vítima, mas sim como o vilão. Um manifesto de um homem negro que reencontrou seu amor pela vida.

Tive o prazer de entrevistar mais um amigo aqui na resenha do pivete, quem fala comigo hoje é o Jamall Dubeco:


Jamall em cena do clipe

Começo?

Tudo começou em 95 e 96, o Miami Bass estava forte aqui no Rio de Janeiro, e o pessoal explorou muito o som e criou várias paródias. Eu ”menorzão” ganhei uma fita da coleção “Rap Brasil”, desde então, eu quis começar a fazer música. Descobri um CD de rap americano em 2003. Em 2005, tive contato com SNJ, Racionais Mc 's e Rzo que faziam muito barulho na época. Resumindo, Rap e muito funk proibidão foram o que me inspiraram para fazer música. Dos 14 aos 17 anos comecei a compor as minhas músicas, aí que começou a nascer o Jamall DuBeco, quando comecei a criar minha própria identidade. Ficava assistindo o Funkeiro, Marechal, Mv Bill e a identidade deles. Geral naquela época gostava G - Unit - fundado pelo rapper 50 Cent -, Group Home, Rzo, Wu-Tang Clan, Black Star e diversos outros grupos. Comecei a pegar a visão e conheci os “menor” do Zero Dollar.


Zero Dollar

Começamos a nos apresentar nas festinhas de São João de Meriti, depois tivemos a oportunidade de abrir o show do Rapadura pelo P,10. Em 2014 veio o álbum Zero Dollar, eu e o Braw ZD, era para ser um ep. só, mas virou um álbum. Proibidão do Bairro 13, mixado e masterizado por Big Smile e Hermes Filho, tem o intuito de resgatar uma identidade Vilar dos Teles e ser underground. Dentro dele tem vários tipos de boombap e tem “Juventude Perdida pt 2” que tem raggamuffin e funk. O álbum tem o intuito de explanar a violência policial contra a juventude meritiense, no Vilar dos Teles, São João de Meriti, Baixada Fluminense.


Baixada Fluminense

É uma parada que teve muita influência no Sabotage, que sempre aparece em suas músicas falando da sua quebrada a Favela do Canão, Brooklin, zona sul de São Paulo. E a galera dos Estados Unidos também é assim, tu não vê o Kendrick Lamar não falando de Captom, Jay Z falando do Brooklin, Nas falando do Queens entre outros, tá ligado? E eu sou da Baixada mesmo.

Eu tinha necessidade de falar mais da minha área mesmo, meu medo em 2013 – 2014, se eu não falar de Vilar dos Teles, quem vai falar? Então tentamos colocar uma parada bem meritiense mesmo, falar da Automovel Club, dura no Prezunic, tá ligado? O sufoco que os amigos passam para fumar um baseado. Hoje em dia não é tanto a nossa realidade, mas antigamente para fumar um baseado você tinha risco de até morrer na mão dos “quebra”. Na mira dos covardes, Juventude Perdida Pt 1, Abordagem são todos sons que falam muito disso.


Vivências

Eu passei por uns momentos tensos em minha vida. Tive um princípio de overdose, eu não estava sentindo amor pela minha vida. Tendências suicidas e os “caralho”. Decidi parar por um tempo, principalmente por mim e pela galera que me acompanhava. Até hoje tem gente que forma a opinião a partir do que eu posto nas redes sociais, isso não é doideira? Tu que me viu começando na militância sem saber nada, falando até umas paradas pós modernas, imagina, uma galera que te orienta por uma parada que tu posta. Eu ouvi da boca dos outros, olha só a importância do bagulho. Agora eu estou blindado, mas antigamente não podia aguentar esse fardo. Minha mente não está de maneira autodestrutiva e me auto sabotando da maneira que eu fazia normalmente. É por isso que é Imorrível e Imortal.


Imorrível e Imortal

Eu renasci enquanto MC, enquanto homem negro. Várias vezes parei sozinho e pensei muito. Não quero fazer papel de vítima, a parada era eu fazer o papel de vilão mesmo. Que o sistema tenha medo e não pena de mim. Eu falo de sistema como sistema no geral mesmo, a sociedade mais racista do mundo. A elite vai ter que aturar um homem negro vivo, fazendo arte, sendo inteligente, sendo talentoso. Um homem negro em pé e vivo!


Funk

O funk carioca é um gênero de rap. Não sei tecnicamente, mas para mim ele é. Ele veio com a batida eletrônica e o verso em várias gerações.


Nova ou velha escola?

Estou no meio termo parceiro, ando com os coroas (Unir Versos Urbanos, Familia Al Capone, US NEGUIN Q Ñ SE CALA, Calote) e a minha tropa da Sd Cria que são mais novos (Gring, WL Vaz, Gandhi, Lil Dollyn, Brook), eu sou mais velho do que os “menor” que estão começando agora e mais novo do que os caras das antigas. Isso é foda, os caras da antiga me viram “bebel” emocionado atrás deles e agora já sou referência para os moleques mais novos. E não é que eu me intitulo, sai da boca dos caras e eu comecei a abraçar o papo.


Referência?

Os caras sempre me lembram disso e eu fico desesperado. Se eu não me importasse com o Rap, eu me acharia fodão. Mas como vejo o Rap como minha vida, fico desesperado e preocupado. Tem que levar no Blindão, saber o que falar e o que dizer. Muita responsabilidade. Eu achei que ia ser mais um cara do quadro, mas tu vê maior tropa te chamando de referência, não tem como ignorar.


E as Batalhas?

Nós começamos com a Batalha do Coreto em 2010, comecei a batalhar ali, eu não queria ser MC de Batalha, foi pressão de um amigo meu Wallace Miguel essa porra. Acabou que eu continuei, não ganhei nenhuma grande batalha do Rio, mas eu participei. Tive participações significativas, acredito que já ganhei mais de cem batalhas.


O som?

É muito importante dizer que tem o Duke Deuce "Crunk Aint Dead", da onde fiz o remix do som, que é muito foda e relíquia demais. Eu vim com a pegada do Imorrível e Imortal pela ideia de renascimento. Eu cito várias referências, como Di Melo* “Imorrivel”, Wilson Simonal*, minhas vivências e as coisas que eu leio, tipo, uma parte da letra “Eu sou Sendero Luminoso e vocês são PSL”, a galera pergunta o que é Sendero Luminoso, guerrilha rural, peruana, maioista. PSL é um partido de aluguel, antes do bolsonarismo, o PSL já era um partido de aluguel. Queria falar em 2018, mas não tive oportunidade, pois estava morrendo.


Projetos futuros?

Eu estou em um projeto muito foda com a produtora @filmejukebox de Coelho da Rocha em São João de Meriti, os caras lançaram Maverick, lançaram vários filmes underground da Baixada Fluminense. Nós fechamos uma colaboração para o meu próximo single, mas tem a Vale do Silício comigo e a WL Vaz, mas não sei qual vai sair primeiro. Para quem não tá ligado, nós temos o nosso selo a Sdcria.ent que fica em Vilar dos Teles e sempre lança uns clipes brabos. Então é certo que vai sair algo em 2022.


Wilson Simonal?

O racismo da esquerda mano, a esquerda é racista também, é um bando de branco que tem acesso ao conhecimento científico, mas tem medo de preto. Os pretos que os caras andam são tudo Carlton Banks da vida. Preto padrão, se tu não é, vão ter medo de você. Os caras são playboys, eu nasci em 92 e tu em 95, sabemos faz tempo que os caras não gostam de preto. Não é por que ele leu Karl Marx na adolescência que ele vai mudar, ele vai entender que temos uma mazela, tá ligado, mas é a luta material dentro do campo material, sou materialista, de luta de classe, entender que os negros estão incluídos nisso, não vão entender. Que somos parte da luta de classe, não só como massa, mas como liderança e disputa.


Glossário:

Di Melo é um músico, pintor, escultor, ator, escritor e poeta brasileiro. Seus álbuns são caracterizados pela variedade de gêneros musicais, incluindo a mistura de elementos da música soul e do funk com a psicodelia.

O Sendero Luminoso ("sendeiro luminoso" ou "caminho iluminado", em espanhol), oficialmente Partido Comunista del Perú (PCP), é uma organização de inspiração maoísta fundada na década de 1960 pelos corpos discentes e docentes de universidades do Peru (especialmente da província de Ayacucho).


Assista o clipe do Jamall Dubeco " Imorrível Imortal"









Revista Menó, nº.4/2022 (jan/fev/mar).

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