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A consolidação da urbanização brasileira ocorreu em meados da década de 1970, contemporânea à formação das primeiras metrópoles e expansão das cidades médias. O censo do IBGE, divulgado no início daquela década, demonstrava em números o acréscimo significativo da massa populacional que dava nova forma e função a esses centros urbanos. No horizonte das iniciativas e projetos de futuro para um Brasil moderno, a urbanização era um passo necessário. Rumo estabelecido em promessa política com a alcunha de nacional desenvolvimentismo, rumo este que, em paralelo a industrialização, se fazia enquanto um sinônimo da realização do progresso. Neste processo, trabalhadores pobres, de diferentes origens, se concentravam nas franjas dos grandes centros urbanos industrializados, como Rio de Janeiro e São Paulo. Motivados por promessas de um futuro melhor, alguns deles sucediam verdadeiras peregrinações, vindos de diferentes estados do nordeste, com o objetivo de se fixar nas áreas em que a diversificação e dinamização da economia oferecia, ao menos em tese, melhores condições de sobrevivência. Cenário este já retratado em 1933 por Tarsila do Amaral, em seu quadro “Operários”.

A questão urbana no Brasil permanece presente. Urbano sem dúvidas, ele se tornou. Mas a custo de que? De quantos? 50 anos depois, a cidade, emergente, é o lugar comum, cotidiano, em que vemos e vivemos a desigualdade. Nas encostas dos morros, estampado nos jornais, a cor e o sangue da desigualdade. Brasil dos nossos dias. Que um dia sonhou ser um país de todos, mas esqueceu, ou escolheu esquecer, o seu passado, suas origens. O processo de urbanização, a formação das cidades, acompanhou os ímpetos da modernidade. Esta, por sua vez, foi a esperança infantil de se alcançar intencionalmente um novo lugar no tempo. Abandonar suas raízes agrárias. Distanciar-se do latifúndio, da lavoura arcaica. O futuro, viria às pressas. Então na espera do progresso, foi estampado na bandeira. Projeto de um novo Brasil. Mas como? A custo de que? De quantos?

Indústria e cidades são simbiontes. Para crescer, uma precisa da outra. E estas das gentes que vivem e produzem. A custa das vidas, de muitas delas, a cidade entrelaça o trabalho à produção racionalizada, moderna. Ela faz surgir o progresso, enquanto anseios humanos. Demasiadamente humana, é como esta surge. E não apenas por uma única razão. Se falamos em pares, fica mais fácil a compreensão. A desigualdade tem sua origem na ganância. A ganância, no dinheiro. O dinheiro que é poder. Com ele, se compra e se vende. Se compra o trabalho, que se vende, e o futuro. Se rende, é só para alguns, poucos. E talvez esses nem conheçam a cidade que deve ser vista. No Brasil, a industrialização foi financiada com dinheiro dos cafeicultores. Herdeiros da riqueza gerada com a escravidão. Os herdeiros da escravidão, descendentes, nem a terra tiveram direito. Ficaram nas encostas.

O Brasil é um país continental. Mas a terra sempre foi o seu problema. Terra onde estão fincadas suas raízes. Raízes que persistem em se aprofundar. Desta terra, com tantas riquezas, se extraiu ouro branco, amarelo e o negro. E para isso se fez transbordar o sangue das gentes. Por terra, se fez guerra, por terra se conquistou. A nobreza se fez por terra, e através da guerra no passado nos governou. Herdamos da colonização uma sociedade hierarquizada. Sociedade que considerava o trabalho manual um defeito mecânico. A raiz da desigualdade, era, portanto, a mesma da riqueza. O trabalho. Proveito de uns. Direito herdado. Pensão vitalícia. Exploração feita através da terra, da propriedade, e da segregação. Esta indústria arcaica, a lavoura, deu forma às primeiras vilas, aos primeiros núcleos de poder, que dariam origem às cidades. Historicamente, foi através da cidade que se governou o interior, se conquistou as gentes e se fez a colonização, por generais de milícias.

Tempos se passaram, aproximadamente quatro séculos, até que abolida a propriedade sobre corpos negros, os escravizados, enraizados nessa terra, livres, ficaram a ver navios. Não mais em negreiros em que se fez o tráfico para o cativeiro. O novo cativeiro, era o social. O poder não se rendia, a terra herdada não se dividia. A República foi proclamada. Reação provável à abolição. Sem um plano de reforma da estrutura fundiária, muitos deles permaneceram nas fazendas, trabalhando para seus antigos senhores. Outros se amontoavam nas encostas, formando as periferias. Criminalizados por seus hábitos, suas culturas, ficaram em zonas de exclusão, onde a segregação e o preconceito eram sintetizados pela cor da pele.

Lembram-se dos sonhos de modernidade e progresso? Já estavam se realizando. Com eles o Brasil se tornaria uma nova sociedade. Era a esperança que vinha a navio, importando o branqueamento. Imigrantes europeus ocupavam as cidades, que rapidamente cresceram e se encheram dos mais diferentes tipos de gente. No fundo, permanecia o poder das oligarquias, dos grandes proprietários de terra, industriais. A hierarquia do campo moldava a cidade, e o processo de urbanização. A mestiçagem, vista como positiva, essência do povo brasileiro,, era glorificada como a evidência de que vivíamos em uma democracia. As ruas das cidades aos poucos adquiriam bem aos poucos um tom popular. Ocupavam as ruas os movimentos de massa. Suas festas. O carnaval. A cidade se enchia de cor. A rua, o espaço urbano movimentado, dava novos sentidos ao Brasil. Tempos se passaram, até que esses sinais pudessem se inverter. Aparentemente abandonando o seu passado rural, mas ainda arraigado a ele, surgiam as estradas de rodagem, o automóvel e o confinamento urbano. O sonho da capital. Neste novo solo, mais concreto, a raiz das desigualdades estava encoberta.

Eis aqui este novo lugar no tempo. Feito no improviso. O Brasil delirou, enquanto os campos se esvaziavam e as cidades se enchiam, em se tornar uma potência. E foi, sendo, tornando-se foi através da exclusão social e da segregação. Formas de se manter os princípios e os valores de uma sociedade hierarquizada. Dos inumeráveis golpes militares que sofreu, o último, até então, que durou 21 anos, foi reação ao mesmo tempo reação às propostas de reforma agrária e ímpeto modernizante. Uma nova raiz para um novo tipo de sociedade, uma nova forma de exclusão social. A crise urbana foi a própria urbanização sem planejamento, desigual, propositalmente. Periferias e conjuntos habitacionais para os mais pobres, beiras de praia e condomínios de luxo para classe média. Jardins para a elite. Foi este o progresso atingido pelo golpe. Pela força da desigualdade histórica. Pelo amor ao poder e à força.

Em meio a Ditadura Militar, milhares de brasileiros passavam fome, não tinham casa. Eram torturados, física e psicologicamente. Tolhidos de seus direitos políticos fundamentais atuavam na resistência indireta. Outros partiram para a luta armada. Os artistas se engajaram na luta democrática. Narraram as ruas, levaram às ruas a voz que precisava ser ouvida. Nem todos eram conhecidos. Muitos permaneceram anônimos, como a cidade faz acontecer quando se está junto à multidão. Alguns deles usavam os muros da cidade para expressar sua revolta. Outros a música, o teatro, o cinema. “Gota D'água”, peça de teatro de Chico Buarque e Paulo Pontes, narra a história de Joana, mãe pobre abandonada num conjunto habitacional, de uma cidade que a faz anônima. Mãe, que retira forças de sua dor, para anunciar o fim, a gota que falta, a maré que se retrai e impulsiona a ressaca. E em único ato reverte o curso da história. Se juntaram ao coro democrático os movimentos sociais, as massas de trabalhadores industriais e os grevistas. Com eles as ruas se juntaram nas manifestações das diretas. Com eles nas ruas a democracia venceu.

Herdamos esse passado. Herdamos essa democracia. Hoje, fazemos as cidades, e damos novos sentidos a ela. E mesmo que alguns façam apologia aos crimes históricos dos militares, nas ruas o movimento de oposição se articula. Mostrando que as cidades podem ser reinventadas. E elas impulsionam a transformação. O meio urbano reflete a vida humana como um prisma. No dia 24 de Junho de 2021, manifestantes incendiaram a estátua de Borba Gato, bandeirante conhecido como um dos símbolos da fundação de São Paulo.

Hoje as ruas mostram a recusa do povo em relação a este passado, mandando um sinal para o futuro. Prova de que a cidade como a história é cheia de encruzilhadas que oferecem caminhos possíveis para serem trilhados. Os passados são presentes. E a luta é dura. Hoje vemos o regresso conservador se manifestar na política institucional e no cotidiano. As opiniões dos tiozões de padaria se tornaram argumentos políticos viáveis. Enquanto uns defendem o progresso predatório a qualquer custo. No passar da boiada. Os mesmos que defendem a eliminação das comunidades indígenas e dos seus territórios. A PL. 490 é mais uma expressão desse passado arcaico insolúvel. Grilagem em terras indígenas, as queimadas na Amazônia e no Pantanal, acompanham um movimento de segregação nas cidades, com os novos planos urbanísticos sendo votados pelas prefeituras a fim de favorecer a especulação imobiliária. Estamos diante de um impasse. Enquanto rangem no fundo da sala as ameaças de golpe por parte de Bolsonaro e seus Generais Aliados, o passado se faz presente. Deseja romper o tecido do tempo. E nós, sabendo que o presente é autor do passado e do futuro, devemos agir. É preciso imaginação para se compreender o tempo e mais ainda para criá-lo.

Disseram certa vez que a catástrofe dá início ou põe fim a um tempo. Pergunto se hoje vivemos um princípio de futuro ou se já rompemos com o passado. De qualquer forma, o que existe é um novo desafio, um novo mundo, um “novo normal”, novas possibilidades, outros caminhos, cidades ainda mais anônimas. Sem rumo. E cada vez mais como James Joyce vejo que a história é um pesadelo ao qual estou tentando acordar.


Por Ademas Pereira

 
 
 

Fala MeNÓzada, cheguei com pé na porta. O título já mostra que, como me falaram uma vez nestas lives da vida (redundâncias tecnológicas), eu seria como o Coach do Caos… 

Ironia, a mais fina flor da crítica, é fundamental para minha postura. Com um sorrisinho de canto de boca, inicio o meu debate sobre educação questionando seu fim. Oras, eu sou o colunista de educação, e já implodirei a minha própria coluna? Sim, meus caros, no momento em que escrevo, todo processo no qual estamos acostumados, desde a socialização, o processo de interação, apreensão da realidade e aquilo que chamamos de realidade, não será nada mais como antes.

Não fui eu quem quis criar essa zorra toda, tampouco foi “do nada”. Mas, um fato histórico para que o velho edifício da educação formal implodisse de vez, foi a “pauta mundial, o megaevento” : a pandemia global da COVID-19.

É óbvio que nada estava bom, mas com as medidas de isolamento social, vimos que o modelo tradicional, cartesiano (1), alinhadinho, todo quadradinho, não faz mais jus às atuais condições terrestres. O pensamento derivado de seu modelo analisa a nós, os seres humanos, como vasilhas vazias prontas para despejarmos todo tipo de conhecimento, este qual irá nos condicionar a tomar atitudes dentro daquilo que nos foi ensinado.

Pois é, meu nobre, este tipo de modelo ainda é dominante em nossa sociedade. E tem gente que ainda acredita que funciona. Mas, a pandemia… Voltamos ao debate.

A pandemia institucionalizou, em uma escala global, a mediação tecnológica como mecanismo de manutenção do ensino e da aprendizagem. Se antes o ato de ensinar era basicamente transmitir todo tipo de conhecimento para outra pessoa, este tipo de construção já não nos é suficiente. E se aprender basicamente significa o ato de adquirir conhecimento e mudar nosso tipo de comportamento ou atitude perante uma situação (antes aprender a dirigir, por exemplo, nós apenas sabemos gritar, e depois, aprendemos a gritar com o sujeito que nos está a frente, atrapalhando nosso caminho), percebemos que existem diversos outros tipos de aprendizagem. Mas que há, de certa forma, um limite nas formas atuais de aprender.

Ou seja, a pandemia foi a cereja do bolo para mostrar a crise da educação que vivemos. No Brasil, além desta crise existencial, todos os problemas de estrutura da educação, desde os níveis familiares, vicinais, comunitários e os institucionais – tendo a escola como referência principal – tiveram rupturas definitivas.

Eu, como educador há mais de dez anos, e aprendiz desde quando me conheço como gente, já percebia as fragilidades existentes desde sempre. Mas, como pensador, refletir sobre o modo de educação atual é fundamental para a gente repensar e refletir (2) sobre que futuro queremos para nós e para nossos descendentes.

E aí entra a tecnologia… Muitos pensam que ela é a solução de todos os problemas da educação. Mas é apenas uma ilusão achar que a tecnologia é um mero instrumento de aperfeiçoamento das nossas capacidades. Ela também é uma serpente chocada de um ovo mais perverso. A tecnologia também é um meio político de controle, manipulando nossos pensamentos e condicionando nossos modos de pensar, a partir de esquemas computacionais construídos e desenhados para determinado tipo de estímulo e resposta. Ou seja, nós entramos em “tubos” bem desenhados e muito atraentes, mas nem sabemos para onde ele vai realmente nos levar e tampouco quem construiu já previu todos os caminhos possíveis. Vivemos afogados em um maremoto de informações, a dizer, uma infodemia.

Ao invés de libertar, a educação (3) numa perspectiva tecnocrata, otimista demais, relega o problema atual das fake news, da desinformação e do negacionismo como meros ônus a “libertação tecnológica”, e que nós, seres civilizados, conseguiremos superar isso usando as ferramentas digitais com organização política, diálogo e esclarecimento.

Mas, como disse no começo, não creio que apenas com o uso “bem intencionado” conseguiremos nos desvencilhar destes “grilhões que nos forjava da perfídia astuto ardil…” (4). Muitos pensadores contemporâneos nos sinalizam que devemos ir, além da mera denúncia, mas da apropriação e da construção de alternativas. Isto de fato é aprender no atual contexto que vivemos. É saber usar, a poiesis (5), a arte de saber-fazer e (des ou re)construir caminhos verdadeiramente libertadores para nós e para a Educação como um todo.

A partir desta reflexão que tentarei trilhar esta coluna. A educação que conhecemos, de fato está em extrema unção. Basta desligar os aparelhos – literalmente – e enterrá-los. Mas a educação é uma condição singular de nós, seres humanos. Somente somos o que realmente somos devido sermos educados para ser. Então, nesta perspectiva multidimensional da Educação é que iniciamos nosso novo caminho. Como Hermes, para a Filosofia Grega; ou então como Exu, para a Cosmologia Afro Brasileira, mostrarei caminhos, encruzilhadas, desvios e possibilidades. A escolha de seguirmos por tais caminhos que, com certeza traz medo, insegurança e outros sentimentos de dúvida, pois tudo é novidade, é nossa. De livre escolha.

Vamos cumprimentar o Mr. Mayhem (6) e tomar um café com ele.

Antessala do Hades, março de 2021.


Por Robson Campanerut da Silva @sociocampa


Notas:

1 Cartesiano deriva de René Descartes, filósofo iluminista que construiu boa parte do arcabouço da forma de construção do conhecimento moderno. Sua frase mais conhecida é: Penso, logo existo

2 Refletir, aqui, uso no modo de “Diante do espelho” também, naquilo que a Sociologia chama de reflexividade: momento de analisar o contexto em que vivemos, mas, também, o que nós somos e no que estamos nos tornando ao viver aquele contexto analisado.

3 Tecnocracia é um sistema de organização política e social fundado na supremacia dos técnicos, da tecnologia e dos sistemas derivados dela.

4 Trecho do nosso Hino da Independência. Quem conseguir de primeira entender os sentido deste verso, eu te dou um doce. Somos escravos da própria linguagem oficial.

5 Poíesis (do Grego Antigo: ποίησις), em português poíese, relacionado à técnica “poiética” (poética), indica a ideia de criar ou fazer. Poiesis tem um componente forte que é a criatividade e ressignificação humana. O brasileiro é tão bom em poíese que temos um termo próprio para isso: a gambiarra. Nas próximas edições poderemos aprofundar o significado e os usos da gambiarra.

6 Mayhem é um termo que significa caos, confusão, desordem. Na série “Sons of Anarchy”, os detratores da gangue de motociclistas eram, num eufemismo bem sarcástico, levados a conhecer o Mr. Mayhem.



 
 
 

Acordei tarde. O calor me fez revirar horas na cama sem conseguir aprofundar o sono, mas a prostração não me deixava acordar. O limbo. Fiquei nesse estado intermediário por um tempo que não consigo definir. Quando acordei doeu, no sentido literal. Os músculos estavam fatigados e o pescoço parecia ter torcido. Também sentia uma dor aguda no fundo da cabeça.

Ainda com os olhos embaçados, peguei meus óculos e levantei com o propósito de lavar o rosto. Minha filha pequena estava postada em frente ao computador engajada num desses jogos multiplayer da internet.

– Que horas você acordou? – perguntei preocupado, ainda zonzo.

– Já acordei faz um tempão – respondeu sem nem olhar para mim.

– O que é isso aí? – perguntei esfregando os olhos para limpar a remela e aproximando o rosto da tela para ver o que estava acontecendo.

– Você não pode ligar e entrar nesses jogos sozinha, minha filha. Tudo bem? Da próxima vez acorda o papai. Está bom?

Ela não falou nada, balançou levemente a cabeça e simplesmente continuou ali jogando. Fiquei um pouco constrangido, depois, irritado. Coloquei os óculos e avaliei que o jogo não constituía uma preocupação imediata. Era aquele jogo com o gráfico todo pixelizado em que o jogador constrói e interage num mundo virtual pela montagem de blocos, criação de itens e ambientes. Fiquei na dúvida se deveria repreendê-la sobre a pergunta que fiz.

– Papai! Olha a casa que eu construí!! – falou com aquela empolgação ingênua das crianças perante qualquer realização.

– Que linda minha filha, muito linda. – falei caminhando para a porta – Vou lavar o rosto e já volta, tá bom?

– Tá bom!

Tudo é lindo aos olhos dos pais. Os pais são o mundo dos filhos na infância. A rejeição é decisiva para tornar a criança um adulto inseguro. A aprovação deve ser vista como incentivo, afinal, estamos lidando com crianças, seres descobrindo seus gostos e talentos.

Lavei o rosto e escovei meus dentes. Não ia tomar banho agora. Voltei ao quarto.

– Quer seu café da manhã? – apenas o som da música ambiente do jogo ressoava como resposta – Hei! Está me ouvindo? – falei com a voz mais um pouco volumosa, mas sem chegar a gritar.

– Não quero – respondeu baixinho, com os olhos vidrados na tela.

– Minha filha, você está há muito tempo nesse computador – tentei uma voz terna.

– Não estou, papai. Acabei de entrar – virou olhando para mim de maneira suplicante – Não tem nada para fazer – concluiu, com uma constatação irrefutável.

Emudeci. Não tinha como inventar atividades mirabolantes o tempo todo. Era necessário cumprir os compromissos da casa e fazer meu home office. Porém, permitir que ela ficasse tanto tempo no computador não era recomendável. Na verdade, não sabia bem o que fazer. Virei as costas e fui preparar o café da manhã. Preparei o meu e o dela. Passei um café. Aquele cheiro de café fresco no ambiente espantou parte da minha dor de cabeça. Fui até o quarto e levei o café da manhã dela primeiro.

– Toma, sua refeição…

– Obrigado, pai – pegou e comeu, como se não tivesse recusado antes – Estava com muita fome.

– Come! Manda ver! – olhei para ela e soltei um pequeno sorriso no canto do rosto.

Liguei a televisão, a primeira coisa que fazia todos os dias da quarentena. Passava o jornal: pandemia se espalhando rapidamente pelo país, provável subnotificação, os governos estavam testando pouco, o governo federal atuava contra as medidas sanitárias, o número de mortos só crescia… Olhei para o lado e minha filha tinha virado a cadeira e olhava para a televisão roendo as unhas.

– Desliga um pouco o PC e vem comer do lado do papai.

– Não! não gosto de jornal – falou voltando-se para o computador.

– Tudo bem…

Não era fácil processar tudo aquilo. Parecia que tudo estava desmoronando lá fora. O número de casos só aumentava e nos hospitais se escolhia quem vivia e quem morria.

– Cadê a mamãe?

– Está trabalhando – engoli seco, engasguei com o café. Tossi, tossi.

– Daqui a pouco ela volta – falei com uma voz rouca, cheia de pigarro.

Ela trabalhava em dois empregos: num hospital de passagem e num asilo para idosos. Ela é assistente social, não estava trabalhando na linha de frente do combate ao vírus, mas tinha que se expor na rua. Qualquer trabalhador da saúde corria sério risco. Perdi a fome. Olhei para minha filha. Ela já tinha esquecido. Estava ali, brincando, alheia a todas as consequências. Vivendo o agora.

Continuei assistindo o telejornal. O programa apresentava uma realidade tão dura que me fez um homem cansado sem ter feito qualquer esforço. Levantei, levei os talheres para a pia. Com a TV ligada, sentei no computador para fazer as atividades diárias. Abre um programa outro, um link, outro, login, senha, escreve, copia e cola, marca a caixa, aperta o botão. Numa dança incessante, frenética, mas completamente estática.

A coluna doía, doía muito. Levantei, me espreguicei. Que horas eram? Voltei para olhar a hora… era hora do almoço, mas havia uma montanha de louça para enfrentar antes. Louça lavada, almoço feito, levei nossos pratos com o almoço para o quarto.

– Toma, seu almoço.

– Não quero alface – falou com uma voz muito baixa, quase inaudível.

– Mas tem que comer tudo! Vamos lá, pra ficar forte e saudável!

– Papai, pra ficar forte contra o vírus?

– É claro!

Começou a comer folhas de alface. Fiquei impressionado como a pandemia marcaria a vida dela, uma criança, submetida ao medo da infecção, sob quarentena, com a mãe que trabalha em hospital e os avós idosos. Era uma consequência óbvia, mas não se para pra pensar sobre isso. Meu coração se encheu de tristeza. O noticiário continuava o mantra diário com número de mortos, hospitalizados, curados, pesquisas sobre o vírus, de onde vem o vírus e a OMS. Desliguei a TV. Novamente não consegui comer.

– Papai, comi tudo! Vou ficar forte contra o vírus – olhou para mim esperando um elogio.

– Parabéns! Muito bem, vou te dar uma deliciosa sobremesa.

– Que sobremesa?? – respondeu, incrédula.

– Vou ver o que tem lá, está bom?

Ela balançou a cabeça em positivo, confiante de que eu resolveria a questão. Enquanto isso, a dor de cabeça explodia em ondas nas laterais do crânio. Respirei fundo, peguei uma garrafa d’água e bebi até a metade. Procurei uma dipirona e tomei com mais a outra metade da metade da garrafa de dois litros de água. Fechei os olhos por um curto período de tempo.

– Papai, você está bem? – ainda estava com os olhos fechados quando ela perguntou.

– Estou bem sim… – respondi percebendo que ela havia vindo atrás de mim na cozinha.

– Não parece… que remédio é esse? – falou olhando para a caixa do medicamento – Você está com o vírus?

– Não filha, só estou com um pouco de dor de cabeça – falei, vacilante – E o que você quer aqui?

– A minha sobremesa.

– Ah, sim! Claro! Vamos ver essa sobremesa. Agora volta lá pro quarto que o papai vai mexer no fogo, está bem?

– Tá bem!

Fiz um brigadeiro com chocolate em pó, leite condensado, uma panela e fogo. Coloquei o doce num prato e levei o prato para o freezer. Peguei a colher de pau que mexe o doce e levei para ela no quarto.

– Toma, vai lambendo a colher enquanto o brigadeiro esfria na geladeira.

– Eba! – virou-se para pegar a colher. Ela desligou o computador e sentou ao meu lado na cabeceira da cama. Eu folheava um livro que estava lendo no momento, num rito de pré-leitura muito particular.

– Papai, por que você lê?

– Porque eu preciso ler, é meu trabalho.

– Só por isso?

– Não, eu também gosto de ler. Gosto das histórias… Você não gosta de histórias?

– Gosto.

– O que mais você gosta?

– De brigadeiro – riu marota, com a boca toda lambuzada de chocolate.

– Que levada!! Peraí que eu vou pegar mais para você!

Deu um grito, levantou e saiu correndo pelo corredor em direção a cozinha. Fui atrás dela andando devagar.

– Será que já está bom? – perguntei retoricamente.

– Sim! Sim!

– Ok, já está frio, mas cuidado com o meio – falei enquanto entregava para ela o prato.

– Posso comer tudo??

– Não né, mas vou deixar você levar o pote todo.

– Eeeeêhhhh! Obrigada papai – virou-se toda faceira com o seu prêmio, um “pote de mel”.

Nesse momento, percebi que tinha descoberto algo que julgava saber. Uma coisa que é tão fácil de entender, mas tão difícil de perceber. A felicidade não constitui um estado no qual atingimos e, finalmente, estamos felizes. Não existe um estado de felicidade. A felicidade está nos pequenos e raros momentos. E, mesmo que a doença tenha colocado a humanidade frente-a-frente com a morte, o fim não é uma novidade. Todos morreremos, sabemos de nosso destino trágico e manifesto.

Talvez, além de ceifar a vida de tantos, o que de pior fez a doença foi embotar nossa visão desses eventos de felicidade que brilham e se apagam em nossas vidas. A felicidade sempre estará ali, nem mesmo todas as mazelas sanitárias, políticas, sociais poderiam tirá-la de lá. E, naquele momento, ela se apresentava para mim, no olhar de uma criança… Meu coração se encheu de esperança e meus olhos de lágrimas, então, a abracei rapidamente para que não percebesse meu choro.

Horas depois recebemos a mamãe e, no momento daquele abraço triplo, apertado, caloroso, sincero, tive a certeza de que éramos as pessoas mais felizes do mundo.


Por Carlos Douglas Martins

 
 
 
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