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Por Matheus Novaes

Participei de três ocupações estudantis, uma delas me marcou profundamente. Acontecimento político? Circunstância de aprendizado? Sim, por que não? Mas entre as sublimes nomenclaturas marciais – a “luta” honrada, nos discursos dos velhos “companheiros” – e as palavras adversas que nossos ouvidos toleravam – de todos os tipos, vindo de todos os grupos que se queira imaginar – vivia-se; Melhor, convivia-se. Alguns diriam que as personalidades de lá se encontravam sob uma causa comum. De todas as versões esta é, definitivamente, a única falsa. Parecia ser verdadeira ao ouvir o que se dizia, mas não ao ver o que se mostrava. Se me permitem, será útil que se exemplifique, posto que é da ordem das coisas múltiplas e irredutíveis que lidamos. Quando escrevo, forço meus dedos sobre meu lápis de um jeito. Caso eu o substitua, talvez meus dedos doam. Uma interação simples, entre o sensitivo e o pensado, não sendo nem um nem outro, que resulta, neste instante palpável – cujo manuseio é todo o instante – na minha escrita. Uma disposição de forças e dedos, e toda uma eteceteria capaz de enfurecer o platônico dedicado em seu ofício depurador. Este jeito se transmite ao se mostrar, não na generalização. Na nossa vida estamos repletos de “impurezas” empíricas de tal tipo, não somente as coisas definidas dos cadastros científicos mas em toda esta eteceteria – ou multiplicidade – nomeada de “gestos” e “comportamentos”, em que tais nomes indicam um significado idêntico, por conseguinte equívoco. Acredito que as ocupações são um Jeito, não um efeito de causas visíveis, não um lugar ou um acontecimento; e são, sobretudo, Meu jeito, meu jeito que vou, nos limites do que pode ser dito, tentar mostrar – sabendo, é claro, que isso é impossível não somente pela incapacidade inerente as palavras mas sobretudo porque não posso reviver o que vivi. Mostrando meu jeito, minha ocupação, almejo confessar que vivi – para que tal memória não se turve e desapareça brevemente.

A comunidade daquele lugar apenas na superfície se poderia crer na causa comum como, de fato, a causa suficiente. Haviam pautas ditas, repetidas e de valor acentuado e re-acentuado. Eram realmente importantes, precisamos dizer. A memória de um participante, muito próximo de alguns, falecido durante a ocupação, é inegavelmente um assunto para se tratar com cuidado. Tal como todas as pautas associadas ao triste ocorrido – em geral, a precarização da universidade, a permanência estudantil. Todavia, dispensa argumentos para dizer que não fomos, nem nos mantivemos lá por isso. Parte considerável dos interessados não ficou nem se manteve. Por que, então? A resposta a esta pergunta é a mesma que a seguinte: Por que me lembro tão intensamente desta ocupação? Aqui se inicia a matemática das coisas, quando os múltiplos, em conjunto, dançam infinitamente. Todos atuamos naquelas circunstâncias cênicas. Quando as luzes subitamente apagaram, e no breu temíamos a invasão policial ou algo pior, fizemos das geladeiras barricadas mais por inocência que por engenhosidade – um integrante mais velho ficou muito bravo ao ser impedido de fumar por causa dessa babaquice. E rimos como nunca rimos quando elaboramos minuciosamente um susto a um amigo – mais tarde este ficaria muito irritado por razões políticas e nunca mais nos falamos. Luzes apagadas no caminho do banheiro, na parte mais isolada do espaço, desligada no interruptor. Disseram ouvir coisas estranhas no banheiro e todos atuando um medo para induzi-lo a coragem. Certeiro, foi a vítima para sua auto comprovação. Checou o banheiro, muito cuidadoso, sem saber que era a volta o ápice de seu espetáculo e nossa catarse. Escondido no escuro eu segurava duas tampas de panelas. Quando ele passou ao meu lado sem me perceber eu bati os pratos ao pé de seu ouvido e as luzes se acenderam – nunca ouvi tanto grito, nunca vi tanto terror; Este mesmo banheiro era um pouco assustador e por isso um amigo meu pedia que eu o acompanhasse toda vez que ele precisava fazer algo lá a noite (2021, dispensem as brincadeiras). No isolamento desse banheiro fazíamos paródias de funk, em que substituímos alguns termos pelos nomes de integrantes ou organizações presentes – era uma crítica? Sim, mas a finalidade era rir, e ríamos muito; Tentei mostrar, mas não posso. Em que pese a dificuldade de descrever cenas engraçadas fora de seu contexto, perdoem-me, até porque não é de riso que estamos falando. Também havia amor e paranoia na comunidade dos estressados.

Um rapaz de quatro namoradas em sequência – alguma simultaneidade? Ignoro; casais complicados porque ninguém sabia se de fato eram casais. Casais possíveis, em que a tensão ora era um segredo, ora uma fofoca; um pedido insuspeito de carinho; um convite de dormir juntos dada a curta amplitude do espaço, acaso ou orquestra? Não se sabe além do que foi confessado, quando o réu em questão foi acusado pela testemunha, cujo diálogo não reproduziremos porque temos o direito de ficar calados. Mas nos reservamos também o direito ou o dever de acusar o silêncio, o silêncio das suspeitas, o silêncio daqueles que ouvem demais as próprias palavras silenciosas. A paranoia do roubo, da traição, da maquinação política, dos perseguidores de dentro e fora da ocupação, dos fardados ou à paisana. Quando a verdade escapa de sua frente para o interior dos outros, e você sabe que exigir esta verdade levará a destruição. Às vezes se indica, com cuidado, mas volta atrás porque, envergonhado, teme que se revelem as minúcias de seus temores obscuros, suas fraquezas correlatas. Nesse nível de tensão terríveis decisões são tomadas levando a novas e mais profundas tensões que além de seus presentes prejuízos tem a desvantagem de lembrar do acontecido e seus desdobramentos inexoráveis. Ódio profundo aos portadores do olhar maquinador, eles sabem não somente o que você não sabe, mas também: você não sabe o que há para saber. Todavia, não se sabe se foi nesse espírito que aquela moça me ofertou uma faca em troca de meu recuo, quando votamos a sua expulsão – e de muitos outros, alguns dos quais eu me arrependo.

Dúzias de personagens entrando e saindo do palco e da cena. Independentes de organizações, organizados, desorganizados também. Discutindo consigo, com suas organizações e com os amigos próximos os procedimentos conjunturais da economia política dos afetos. Afinal, não é fácil erguer fronteiras quando se dorme um ao lado do outro, naquele chão que nós mesmos limpamos um dia inteiro junto de mesas cuja poeira desenhava os objetos nela esquecidos desde o fechamento do Restaurante Universitário em questão. Meu corpo, desinfetante. Minha alma, estranha vontade de poder mostrar pra mim que eu era capaz. Capaz de espalhar do meu Ser para todo o território aquele insuportável cheiro de desinfetante apenas para dizer, mais para mim que aos outros: Não se preocupem, isso eu já resolvi. Um homem que vale por cinco faxineiros depois dormiu com a alma lavada – e fedorenta. Há um vínculo entre política e higiene e também entre culpa e ócio. Ver alguém andar é o bastante: Chega. A culpa te consome e você vai atrás de qualquer coisa para fazer, só que não havia fim. E nesse trabalho de Sísifo de alimentar centenas de estudantes gratuitamente, manter a limpeza e organizar a segurança estava lá, o parasita. Alguém, simplesmente, parado. E ele te olhava enquanto sua inércia persistia e nesse olhar uma língua circunstancial era estabelecida a qual ambos eram fluentes: o ressentimento. Muitas pequenas confusões e grandes inimizades nasciam de conversas desse gênero, como quando um pé tatuava sua sola no chão molhado. Homicídios não houveram, felizmente – se não na imaginação de gente ocupada. Para evitar mal entendidos, a melhor alternativa era a iniciativa. Um grande sistema de cobranças tácitas e respostas imediatas se criava em que o efeito de antecipar a causa era a força motriz.

Adequar-se a tais circunstâncias implicava na modulação dos hábitos e organizações corporais. As madrugadas de vigília, obrigatórias para a manutenção da segurança, resultaram em conversas silenciosas ou, no caso da extrapolação, em rodas de violão e debates espontâneos para o terror dos sonolentos. Naquelas madrugadas eu via pichadores grafando na noite veloz; os corredores da UERJ desabitados, escuros, brilhavam objetos não identificados; ouvi tiros e curioso, vi. Sobretudo conversei e, no dia seguinte, percebi que um grande esquema político havia manejado meu horário de dormir. O esquema era o seguinte. Eu e outro rapaz não estávamos disponíveis a cooptação e iríamos ficar de segurança. Outros dois que também ficariam estavam sem organização. Colocaram estes em melhores horários, acompanhados de moças da tal organização. Resultado: Ódio, ódio, ódio; ódio que só não poderia ser maior do que aquele que eu senti quando um moço dessa mesma organização me acordou na manhã seguinte. Multiplique cada tipo dessas experiências por mil, preveja o não-dito e você entenderá que a comunidade dos estressados faz jus ao seu nome. Sintonia comum, não causa comum. Sob chão duro estendemos colchões finos, trocando os últimos olhares com rostos proibidos. Você desaprende e reaprende a sonhar nessas circunstâncias. Sonhos oníricos, das canções políticas ocasionais, sonhos eufóricos, performados em nossos atos que somos inteiramente. Vivíamos na intimidade dos pequenos jeitos compartilhados, desafiando a divisão genérica entre Terror, Amor, Suspense, Ação. Os panfletos, nossos cartazes cinematográficos diziam se tratar de um filme político próximo do romance policial. Na verdade, a política era um minúsculo laço idêntico à função das vírgulas entre as palavras. Nossa história era híbrida, gênero etecétero. Uma rede manufaturada de experiências, inacabada, posto que até hoje seus participantes sentem este estranho vínculo, muito familiar, além da rememoração. A ocupação do Bandejão da UERJ foi um jeito, como o jeito de escrever ou costurar. Para transmitir só posso mostrar, dizer não basta; contanto, vou escrevendo para que este Jeito, que é meu jeito, mostre que só é meu porque sou resultado dessa costura coletiva, costura silenciosa e implícita por trás de nomes antigos. Restaurante universitário, ocupação estudantil, Matheus Novaes, etecetera.


Revista Menó, nº. 3/2021 (out/nov/dez).

 
 
 

Por Dimas


Como chegamos aqui? Não é uma questão a ser respondida. Pois já estamos onde estamos. A situação é esta, e está clara. Para nós, brasileiros, a quem escrevo, agora importa mais saber um endereço fixo, e seguro, para onde ir. Chegou a hora de olhar para o momento e refletir sobre a nossa direção. Não é assim que se diz? Importa mais saber para onde ir. E de repente, 2021 chegou ao fim. E com ele o primeiro ano da terceira década do terceiro milênio da era comum. Começamos em uma trilha de escombros, sobre corpos e sobre cinzas. Nada fácil, mas nos mantemos otimistas acreditando num próximo carnaval. E há de se ter otimismo mesmo no pandemônio já que ainda somos brasileiros vivos. Vai vendo...

O ano que não durou, foi muito pouco para quase nada do que podíamos fazer. Agora já passado, despercebido ou ignorado, conta no diário da tragédia os últimos segundos como somatório de corpos anônimos. Bem lentamente os dolorosos sussurros que carregamos nos primeiros dias desaparecem da memória. E nos acostumamos…

O caminho parece ser este dado até aqui. No trajeto, a tragédia tornou-se um costume macabro. Será que estamos muito cansados para se levantar e dizer “chega”? “Basta”? Não há uma gota d'água que transborde o curso dessa história em um movimento contrário? Me pergunto se a terceira década, este lugar no tempo aqui e agora onde estamos, teria começado muito antes. Vivemos num tempo que é sinônimo de crises, sanitária, climática, ambiental, econômica, humanitária e política. Se ele tem se mostrado assim, como não ver suas raízes se lançando sobre o passado? E como não ver hoje a presença desse passado que já anunciava com todos os indícios de um mal-estar generalizado?

Esse mal-estar se preenche com a crise moral e cotidiana que se sintetizou em meados de 2013. Os avisos vieram de todos os lados. Das ruas, as manifestações da juventude nas escolas e universidades, as ocupações, gritavam sobre a necessidade imediata de ao menos se ter coragem de mudar o rumo das coisas. O medo e o ódio mostraram a impossibilidade de se realizar uma conciliação democrática e a atmosfera letárgica foi adensada. E de lá em diante nos acostumamos a catar as migalhas de pão que nos levaram até esse caminho desconhecido.

Às vésperas de 2022, não há muitas dúvidas quanto à escolha entre esquerda, direita ou um terceiro sentido para o caminho até aqui traçado. Até lá devemos estar atentos para que a democracia vença! Precisamos superar a ideia de que “nada mais abala o brasileiro” cuja consequência é o mal-estar e a letargia. E durante esse caminho de superação precisamos manter a chama, da juventude sonhadora e rebelde, acesa…


Revista Menó, nº. 3/2021 (out/nov/dez).

 
 
 

Atualizado: 28 de dez. de 2021

De mansinho

Carregou seu nome

Nas etapas de sua vida

Garimpou na tempestade

Não restaram dúvidas

Só decisões

Mistérios

Trouxeram sonhos inevitáveis

Se fantasiou de hipérboles

Sem sair de cena

Já sabe quem a comove

Escolhe o hoje

Com os pés na terra

Pausa-se

E depois

Mergulha


Cláudia Nascimento

 
 
 
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