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Por Elaine Lima da Silva


Meu bisavô materno se chamava Lúcio. Contam que ele costumava ficar "louco" vez ou outra, naquele tempo ainda não se tinham "caixinhas" onde se guardava que tipo de loucura era. Antes de chegar por ‘aquelas Lagens’, ele andava por Lagoa Vermelha no Rio Grande do Sul. Conta-se que quando não estava ‘louco’, era um homem gentil e generoso, com muitas habilidades. Qualquer que fosse a brabeza de um cavalo, ele amansava. Meu avô, seu genro, contava que ele amansava cavalos que ninguém dava jeito. Se “achegava” perto do animal e proferia algumas palavras, ao mesmo tempo em que o acariciava com as costas de um facão, sem machucá-lo. Depois disso, pra mostrar o serviço feito, ele entrava com o cavalo na casa de seu dono e pedia pro ‘bichano’ se deitar na cama e Lúcio provava, assim, a obediência do animal.

Certa feita, há uns 50 ou 60 anos mais ou menos, um filho dele deu pousada - como era costume dos mais antigos - para uma família de estranhos viajantes, vindo do Rio Grande do Sul. Papo vem, papo vai, entre um chimarrão e outro, eis que chegaram num denominador comum: o homem que estava viajando com sua família e meu tio-avô que os recebera no Planalto Catarinense, eram afinal irmãos, filhos de Lúcio. Pelo que se conta, Lúcio já era casado e fugiu do Rio Grande do Sul para as ‘bandas de Lages’ e se casou de novo com minha bisavó. Mas voltando a sua loucura, cada vez que esta o assombrava, a vizinhança toda em polvorosa, corria para contê-lo, não era fácil, ele estava sempre armado e era um homem grande e forte. Não podendo, os policiais, chamados de inspetores de quarteirão ou brigada, como dizia meu avô, eram chamados para ajudar. Até que um dia, Lúcio foi baleado e morto. Seu filho mais velho com 14 anos na época e meu tio-avô, chamado Lope, estava sentado em uma pedra que servia de escada para a cozinha, correu e amparou seu pai ferido. Antes de morrer suas últimas palavras foram: "não faça inimizades, não se iluda com formosura de mulher e troque a arma pelo rosário". Naquela época até mais ou menos a década de 1970 nos campos de Lages, com ou sem motivo, mas por via das dúvidas, todo mundo andava armado.


Revista Menó, nº. 3/2021 (out/nov/dez).


 
 
 

Por Camila Lopes


Era apenas um homem comum quando levantou de manhã prestes a calçar seus sapatos quase não convencido de que suas horas eram melhor aproveitadas garantindo sorrisos preenchidos de prazer que o dinheiro jamais poderia comprar. Ao pensar nos seus chefes, pensou em seu emprego, lembrou do cansaço que sentia e do crescimento notável que os donos da empresa se vangloriam, como se fosse deles o trabalho empregado para gerar tanta riqueza. “Ivan, os ricos tiram seu mérito do gerenciamento da exploração, nada mais!”. Dizia o seu avô quando ainda estava vivo, depois de contar alguma história do antigo emprego em uma indústria têxtil, que se localizava no Barreto, Niterói. Grande Rio de Janeiro! Palco de grandes revoltas e lamentações, todo bom carioca gosta de contar história.

Recordando-se da frase de seu avô e dos motivos que o levaram a tal recordação, perguntou-se: mas e a crise? Em casa não entra mais carne (apenas nos churrascos de domingo) porém meus patrões se gabam do crescimento anual? Bom, a anunciação foi feita sob festa, bebida liberada, banda, a Patrícia e o Cláudio (que são do mesmo setor) se beijando escondido no jardim do salão e um breve entretenimento silenciador de questões principais. A amnésia alcoólica do dia seguinte serviria a um grande expurgo mental que coloca qualquer síndrome de Burnout no chinelo, as pélvis frementes, a agitação das palavras soltas pelo ar, pessoas loucas e felizes, espontâneas, relaxando os corpos cansados liberando fluidos, soltando suas articulações enferrujadas de rotina. Tudo imerso na mais barata distração. Após entreterem-se, os funcionários vão para casa assistir ao jornal ouvindo falar dos problemas diários como se fossem distantes, como se tivessem em outro país, nada demais ou até mesmo muito relevantes para gerar uma revolta aprisionada curada em terapia ou postagens fora do tom nas redes sociais.

Não só o entretenimento era silencioso, mas os gestos, as formas, as intenções por trás das relações daquelas pessoas dentro do prédio. Tudo era motivo para se desconfiar, qualquer deslize em ambientes de trabalho pode virar seu fim, as fofocas têm que ser planificadas, seus movimentos calculados.

No dia 1° de maio, Ivan suicidou-se. Mas não temos com o que nos preocupar, porque doeu um pouco. Antes o entretenimento adormeceu-lhe, as drogas anestesiaram-lhe, e a rotina esvaziou seu poder de criação, tornando Ivan mais um receptáculo da alienação.


Revista Menó, nº. 3/2021 (out/nov/dez).

 
 
 

Por Roberto Brito


A cafeteira, em geral, reúne pessoas viciadas na substância cafeína. O mais engraçado (e contraditório) é que quase ninguém pensa na cafeína enquanto toma uma xícara de café. Na cafeteria, todos conversam entre si, para si, consigo mesmos, com pessoas estranhas (o que tem sido raro nos tempos de hoje), com seus pares. Os olhares se entrecruzam, pupilas dilatam sob o efeito do café. A música é alta o suficiente para distrair a conversa e mesmo para desconcentrar os que leem. Aqui, sinto a mesma desatenção que observo em bibliotecas: uma pena não servirem café nas bibliotecas. O clima dá sono, há um ruído na sala que ronda os ouvidos, faz a pele esfriar, dá aos ouvidos a mesma desatenção dada aos olhos, um vai-e-vem propício para a desatenção dos sentidos.

O primeiro efeito do café é a atenção forçada a algo completamente distinto no ambiente; o segundo efeito, é a desatenção de si; o terceiro é uma pequena cefaleia; o quarto é a sensação de obrigatoriedade para com as atividades propostas para serem realizadas neste recinto (pois qual seria o motivo de tomar café em uma cafeteria?). Os outros efeitos são mera consequência do efeito: um efeito rarefeito, misto de atenção forçada como aquela mesma desatenção de quando passa uma mulher exalando feromônio. Você vê, mas é um ver desatento. Você se propõe a ler, e acaba prestando atenção no cheiro doce da mulher ao seu lado. Você quer tomar café, mas na verdade queria mesmo é sentir o gosto amargo da boca daquela mulher que exala o cheiro doce; esse doce facilmente adocica esse gosto amargo do café na boca.

Um namorado fala suas besteiras de rotina. Ao seu lado, sua namorada come um bolo e ele discursa com um talento “impecável”. Ela olhava para ele como quem olhasse para um pedaço de torta de chocolate. Um outro casal, ao lado, toma um café gelado e permanecem calados, trocando olhares de introdução de conversa chata, típico momento de um casal desatento. Outras duas mulheres fofocam sobre aquela mulher da firma que ambas odeiam. Alguns estão isolados, concentrados em leituras desatentas, típicos personagens da cafeteria.

Enquanto todos esses personagens combinam esse “tipo ideal” de lugar, lá embaixo, os funcionários trabalham: torram o café, ferve o leite, esquentam os pães e as roscas, trabalham na cafeteria como se fossem funcionários de uma firma muito importante. Atendem-nos com uma educação deseducada, onde, se pudessem, ao invés de servirem o café educadamente, jogariam em nós e ririam ao prazer de nos ver queimar no café fervendo. Duvido muito que gostem de beber café. A cafeteria tem dessas coisas: pessoas em leitura “blasé”, um cheiro rançoso de café torrado, uns olhares entrecruzados e forçados. Nunca tinha parado para pensar o quão chato é o ambiente de uma cafeteria. Prefiro as praças nas tardes de sábado.


Revista Menó, nº. 3/2021 (out/nov/dez).

 
 
 
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