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  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • 20 de fev.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 21 de fev.


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Não foi em um dia qualquer.


Foi um processo de construção que atravessou três décadas.


Talvez eu ainda não me ame por completo, mas já me amo mais que ontem e menos que amanhã.


O caminho até aqui não foi terapêutico. Foi doloroso, foi impetuoso — não só para mim, mas também para aqueles que tentaram me amar. 


Quando percebi que já conseguia me amar, ao menos um pouco, foi revolucionário. Passei a me enxergar mais bonito, mais disposto a amar e ser amado.


Ressignifiquei meus sentimentos, mudei minha forma de amar. Ele se tornou um sopro de vida, o quente do sol, o nascer de uma borboleta.


A raiva, o medo e a tristeza ainda existem em mim, mas foram sobrepostos por uma vontade genuína de me ver com outros olhos, de aceitar quem sou.

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Quando entendi o que era amor.


Esqueci a violência que um dia presenciei — aquilo não era amor.


Compreendi que o desafio não é somente começar a amar, mas aprender como amar. Saber dosar a química que pode ser cura ou veneno.


Aprendi a distinguir o que é só desejo, o que é só paixão, e o que realmente é amor.


Em sua simplicidade ou complexidade, entre literaturas e experiências coletivas, em momentos em que ele se confunde com frustração, em dias em que meu coração mais dói do que bate.


Nunca gostei de amar. 


Sempre me senti vulnerável, preocupado demais. A ansiedade atacava, o ciúme batia como um sino ao meio-dia.


Eu não sabia o que era amor. Sabia o que era posse, sabia o que era insegurança.


Não sabia me libertar das amarras que nos colocam — desde fora, desde dentro.


Não somos frutos sadios. 


Alguns mais bem cuidados que outros. Será que te regaram o suficiente? Pegou bastante sol? Quais frutos você dará?


Meus pais me ensinaram um amor que teve sua beleza, mas em outros momentos foi cru.O que poderia ter sido? O que foi? Quem sou eu para julgar?


Só sei que amei acreditando amar. Mesmo sem saber como.


Amei acreditando.


E sei que todos os meus amores foram verdadeiros.


Sinceros, nos erros e nos acertos.


Sou a construção de quem me atravessou, de quem me estendeu a mão e me permitiu o íntimo.


Daquelas que me disponibilizaram a vulnerabilidade, a nudez, o sentimento.


Meus passos mais lentos, meus olhos marejados, meus abraços apertados, meu lábio úmido, meus pensamentos meio atrapalhados.


Tudo foi meu, mesmo sem saber meu lugar, mesmo sem entender meu papel, mesmo quando confundi, mesmo quando menti, mesmo quando fingi ou simplesmente omiti.


Eu tava lá.


Era eu.


Era o que eu acreditava ser amar.


Talvez tenha aprendido.


Ou talvez não.


Talvez seja algo que se reaprende diariamente.


Não tem fórmula exata.


É abstrato, lírico,da alma, do espírito.


Amar não é um código binário.


Não se ensina para máquinas.


Não se calcula em aulas de engenharia ou matemática. É subjetivo.


Tudo que sinto não pode ser medido por números.


Tem que ser estudado, interpretado e refletido.


Por isso é tão difícil.


Por isso tantos casos de violência, tantos términos, tantas brigas, tantos poemas, tweets, histórias mal contadas.

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Sempre achei essa parada de gostar de alguém bem complicada, sabe? 


É outro ser, com todos os seus vícios e virtudes, sua complexidade, um apanhado de construções que dão vida àquele sorriso lindo que mexe com a química do meu cérebro.


Mas, como diz bell hooks, o amor não é somente um sentimento — é uma escolha, uma ação consciente. 

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No seu livro Tudo Sobre o Amor: Novas Perspectivas(1999), ela critica a ideia romantizada que a sociedade impõe, argumentando que amar exige comprometimento, cuidado e respeito mútuo. Isso me faz pensar em quantas vezes confundimos desejo com amor, posse com cuidado, medo com zelo.


E volta e meia estamos diante desse quebra-cabeça, buscando entender qual a melhor combinação, tentando encontrar a forma certa para, enfim, ter um retrato do que te encanta, te fascina, te faz questionar seus sentimentos — que, com um olhar, faz você ganhar o dia.


Mas hooks nos lembra que amar não pode ser um jogo de peças encaixáveis, não é sobre encontrar a “metade da laranja”. 


Amar é compromisso, sim, mas não no sentido de aprisionamento, e sim como um pacto de crescimento conjunto.


Para ela, o amor verdadeiro só existe onde há equidade, onde ambos podem ser inteiros e livres na relação.


Um pouco socrático, outras vezes platônico, mas nunca um amor como fraqueza — e sim como ação.


Como em hooks, na forma de compromisso em construir algo a dois.


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Só que nem todos aprendemos assim. Em A vontade de mudar: Homens, masculinidades e amor (2004) — que ainda não terminei de ler, mas sobre o qual me arrisco a escrever —, bell hooks discute como o patriarcado ensina os homens a dissociarem o amor da vulnerabilidade, transformando-o em um campo de poder e dominação. 


Desde cedo, somos treinados para ver o amor como um risco, uma exposição perigosa.


O patriarcado nos ensina a ser duros, a esconder o que sentimos, a medir nosso valor pelo controle que exercemos, e não pela profundidade das nossas conexões.


E talvez por isso tantos homens amam mal.


Como me ensinaram a amar? Como aprendi a demonstrar afeto? Quantas vezes confundi paixão com posse, cuidado com ciúme, proteção com controle? hooks nos mostra que muitos de nós, homens, nunca fomos realmente ensinados a amar, apenas a desejar.



Por isso, para mim, o amor precisa ser um ato de desaprendizagem. 


Precisamos reaprender o que significa cuidar, compartilhar, confiar. hooks destaca que, para os homens negros, essa jornada é ainda mais complexa.


Somos atravessados não só pelo patriarcado, mas também pelo racismo, que historicamente nos desumaniza, nos rotula como violentos, hipersexualizados, incapazes de serem afetuosos.


E nessa armadilha, muitos de nós acabam reproduzindo um modelo de masculinidade que nos distância do amor real.


 Queremos ser fortes, inatingíveis, insensíveis — porque foi assim que nos disseram que um homem deve ser. 


Mas essa força que nos vendem é uma prisão. hooks nos desafia a rejeitar essa ideia, a buscar um amor que nos permita ser plenos, vulneráveis, verdadeiramente livres.


Sem rótulos ou com, mas sempre com respeito.


Um compromisso com o cuidado, ao serem dois seres que se tornam vulneráveis, expostos mutualmente, em busca de amor, de afeto.

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Amar é um ato que foge do convencional. 


Acredito que não seja só o que se vende na mídia ou o que se prega por aí.


É um sentimento com inúmeros significados, muitas vezes mal compreendido, que se torna uma arma se mal usado — que fere, que mata — mas que também cura, nos faz renascer.


Para hooks, a libertação dos homens negros passa pelo amor. 


Não o amor como posse, mas como um caminho de resgate emocional. 


Precisamos aprender a demonstrar afeto, expressar dor, pedir ajuda.


Precisamos desconstruir essa ideia de que o amor nos enfraquece. 


Pelo contrário: o amor é o que nos fortalece.


Repensar constantemente o ato de amar, gostar, se apaixonar — pode escolher — para mim, é um ato revolucionário. 


É movimento. 


É entender que não somos os mesmos de antes, que nossos limites mudam, nossas necessidades também, assim como o lugar onde estamos.


Por isso, não me apresso. 


Deixo estar. 


Não deixo mais me afobar. 


Será que o que sinto perpetuará? 


Difícil dizer, pois já não sinto o mesmo de dias atrás.


Mas talvez seja esse o segredo do amor: um eterno aprendizado, um constante recomeço. 


E, como hooks nos ensina, uma prática diária de liberdade.


 
 
 

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De dentro de uma kitnet em Jardim Primavera, Duque de Caxias, Leon Soares, ou simplesmente ondapesa, cozinhou sua música eletrônica marolenta com atitude punk. E não só na sonoridade, mas na postura: provocativa, contestadora, sem grilões, fora das caixinhas onde sempre tentam nos enfiar. 


Independente, marginal, vindo de um território negro e indígena, estourando caixas, mentes e fórmulas mercadológicas. Um álbum de sons que subvertem expectativas e reafirmam a Baixada Fluminense como um lugar de talentos indomáveis.


QUEM ASSINA A CAPA DO ALBUM É BRABA DA @carolineonbits
QUEM ASSINA A CAPA DO ALBUM É BRABA DA @carolineonbits
"Minhas canções são caóticas, igual minha mente (risos). Eu penso mil coisas por segundo! (...) decidi fazer músicas pra tremer todos os sistemas de som, porque talvez eu não tenha outra oportunidade de estar em determinados lugares. Quero fazer cada instante valer e, mesmo que não gostem, que fiquem marcados pela minha presença."

"ONDAPESA" abre oito faixas que te fazem viajar, sacudir e questionar o sistema. Repensar a estética que te vendem ou simplesmente rebolar, entrar na onda e deixar Leon te levar para onde você quiser. Sem falsa modéstia, o bagulho está insano. Acompanho esse artista desde "De Morreba à VSL" e fiz questão de trocar essa ideia com ele por esse trampo ser uma das coisas mais originais, inventivas e fora da caixa que ouvi recentemente.



"Música Eletrônica Marolenta Com Atitude Punk é algo que não consigo explicar sem que as pessoas ouçam. Acho que a gente pode interpretar a 'marolência' como foi a psicodelia nas décadas passadas: uma combinação de elementos que subvertem expectativas e fazem nossas mentes criarem novas conexões sobre o que é possível dentro dessa forma de arte.”

Não tento aqui explicar uma revolução em andamento. É preciso imergir. Ondapesa cria seu próprio gênero, seu ritmo. Como ele mesmo diz, até seus erros são parte da sua identidade. Suas letras são cutucadas na ferida, provocação pura. 


"Vilania" é um hino de revolta: desajustada, perigosa, "só bandido bolado, dando fuga na Blazer, girando a milhão, esperando quando essa porra vai mudar de vez".



Em "MAAFA", reafirma sua posição política. Denuncia um sistema que vilaniza e vitimiza ao mesmo tempo, enquanto vidas são descartadas e a memória enterrada. Tudo isso em cima de instrumentais insanos. Protesto que não se acomoda.



"Raasclat" é puro punk. Punk, como todo cria da Baixada. Punk com as desigualdades, com os lugares onde tentam nos enfiar. Aqui, nós ditamos as regras. Não é submissão, é afronta. A cidade tem sua trilha sonora, e essa cultura grita. Grita por um protagonismo que tentam negar, mas, no fundo, todo mundo sabe quem dá vida a essa porra de país.


"Tentaram entender os nossos motivos... Não, não, não."




"PNTRN CLCN DNT" é a potência de ondapesa em forma de som. Questiona até as sensações que a batida causa no corpo. Como dançar isso? Sei lá. Eu só me balanço, espero a festa, me jogo. Onda pesou, caixa vibrou, um caos harmônico no trenzinho, vendo "ela brotando pra baforar com os cria do movimento".



"BGLB" parece um respiro, mas não é. O olhar trocou. "Vamos falar de amor? Vou te fazer uma proposta, nóis mete o pé agora, vou fazer tu gozar antes de te tacar." Poesia marginal, de quem gosta de pesar na onda. Seja na braba ou só na água, de todas as formas você vai dançar, novinha. Talvez até querer transar também.


"Mó, bagulho bom poder fuder pensando em nada, na onda da braba."



"PRIDE MONTH" traz guitarra, poesia provocativa e um recado direto pra um otário qualquer. Psicodelia pura. Me seguro aqui para não resumir em "muito foda". Ondapesa expande a estética da Baixada Fluminense, mostrando que aqui a efervescência é maior que qualquer cartão postal.



"IP-98" fecha o álbum deixando aquele gosto de quero mais. Um aviso: cuidado com as ervas daninhas. A modernidade está aí, tudo mudou. "Nós não caímos no papo de sionista, nós apoiamos a Palestina." 



Punk como deve ser, marolento como tem que ser. Música eletrônica da Baixada. Leon. Ondapesa. Jardim Primavera. Duque de Caxias. O que tem na água desses crias?


"Nenhum produtor faria o que fiz, porque considero até meus erros parte da minha identidade sonora e da minha verdade. Não faz sentido ter uma faixa tecnicamente bem feita, mas sem vestígios da minha essência ali."

Se liga nessa entrevista braba que o Pivete fez com o ondapesa!


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Sobre o processo criativo e a identidade do álbum


  1. Como foi o processo de criar, produzir e finalizar esse álbum todo dentro de um kitnet em Jardim Primavera? Esse espaço influenciou o som e a estética do trampo?


Minhas canções são caóticas, igual minha mente (risos)


Eu penso mil coisas por segundo! Mas confesso que ser um artista do segundo distrito da minha cidade gera uma frustração, porque é mais difícil estar onde outras pessoas criativas circulam. E acho que a internet não gera conexões reais, é preciso convívio, olho no olho. Então, decidi fazer músicas pra tremer todos os sistemas de som, porque talvez eu não tenha outra oportunidade de estar em determinados lugares. Quero fazer cada instante valer e, mesmo que não gostem, que fiquem marcados pela minha presença.


  1. Você define o som como “música eletrônica marolenta com atitude punk”. O que significa essa mistura pra você? Quais referências te ajudaram a moldar essa identidade sonora?


Música Eletrônica Marolenta Com Atitude Punk é algo que não consigo explicar sem que as pessoas ouçam. Acho que a gente pode interpretar a "marolência" como foi a psicodelia nas décadas passadas: uma combinação de elementos que subvertem expectativas e fazem nossas mentes criarem novas conexões sobre o que é possível dentro dessa forma de arte.


A atitude punk é o espírito DIY, a crueza da mensagem e da entrega. “ONDAPESA I”(2025) não é sobre polimento ou sofisticação no sentido erudito. Fiz de um jeito que (espero) desperte nas pessoas a mesma chama que acendeu em mim quando pirei nos meus artistas favoritos.


  1. Tem algum som no álbum que você sente que traduz mais sua trajetória e seu corre na música? Qual e por quê?


Gente, posso dizer com tranquilidade que todas as faixas desse trabalho refletem exatamente o que foi a ondapesa nos últimos dois anos.



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Sobre a cena e as influências periféricas


  1. O álbum nasce na Baixada Fluminense, um espaço muitas vezes invisibilizado na cena musical. Como a quebrada atravessa seu som e seu corre?


Ser artista na Baixada Fluminense é um divisor de águas no meu trabalho, comparado a quem cai nessa caixinha da música alternativa. É um território negro e indígena, e até nisso tentam apagar nossa identidade e ancestralidade, tá ligado?


Um dos maiores instrumentos de letramento e organização é o Hip-Hop, e eu sou muito influenciado por esses atravessamentos. Quando tomei a segunda dose da vacina e comecei a me sentir mais confortável pra botar a cara na pista, tive a felicidade de ver muita coisa acontecendo na rua. Esse espírito agregador das festas e eventos abertos pra geral foi fundamental pra eu direcionar minha energia pra algo que refletisse também o espírito do meu tempo.


  1. O Point 25 aparece como um espaço importante na sua caminhada. Que papel esses espaços independentes têm pra artistas como você? Como vê a cena underground da Baixada hoje?


Salve pra Rebecca Nascimento, que teve essa ideia maluca de abrir um bar pra receber os amigos e apostar nas ideias de quem tava com vontade de fazer algo diferente do que já era ofertado na cidade. O Point 25 foi um oásis pra mim. Conheci várias pessoas que levo comigo até hoje. Sinto mó falta. Infelizmente acabou, e parece até um sonho quando olho pra trás.


Acho que não se trata de uma única cena, mas de CenaS. Temos circuitos de batalhas de rima, e todo ano surge alguém diferenciado, tanto nas MCs quanto na produção das rodas culturais. Temos videomakers, cineastas independentes, artistas visuais, artistas plásticos… Quando vejo tanta gente talentosa se reunindo e criando, sinto que estamos escrevendo um capítulo importante nesse território.


É até engraçado como quem não é da Baixada jura que somos um super grupo mega organizado e unificado, mas, na real, somos diversos. E ainda podemos ser mais! Ainda falta mais mulheres negras e pessoas trans em posições estratégicas. Um dia de cada vez.


  1. Seu primeiro show foi em 2023 e mudou tudo pra melhor. Como foi essa virada de chave? Qual foi o impacto disso no que você faz hoje?


Mano, foi o Jéz***, outra pessoa com uma ideia absurda de movimentar e fomentar a produção de arte na Baixada.


Eu tinha lançado Morreba à VSL e ainda não tinha feito nenhum show nessa nova fase. Foi ele quem abriu as portas pra eu dividir line com a Afrodite e a Xamy, acompanhado da banda dos sonhos de qualquer um. Três canções, duas autorais e um cover do Planet Hemp. Eu e Yargo vendo minha família e amigos reunidos, vibrando junto. Levei até meus avós, mané (risos), porque precisava mostrar pra eles que aquilo era história sendo escrita diante dos nossos olhos.


Dali em diante, não parei mais de fazer show. Fui destravando várias cidades na Baixada e até outras regiões da capital. Se hoje tô no radar de algumas pessoas enquanto ondapesa e não só como Leon, foi por causa dessa aposta. E espero poder fazer o mesmo por outra pessoa no futuro.


(***Nota do autor: Jéz é uma das figuras mais brabas da cultura da Baixada Fluminense, além de ser um exímio cantor de R&B, é um dos idealizadores do Baixadaincena, Prêmio Bic e o revolucionário EspaçoBic)

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Sobre o corre independente


  1. Você assina a produção, a mix, a master e ainda divide a produção executiva. Qual foi o maior desafio e a maior vitória de lançar esse álbum de forma independente?


Faço a produção, mix e master porque não tenho grana pra bancar uma produtora e precisava investigar meu som por conta própria. Nenhum produtor faria o que fiz, porque considero até meus erros parte da minha identidade sonora e da minha verdade. Não faz sentido ter uma faixa tecnicamente bem feita, mas sem vestígios da minha essência ali.


Na parte burocrática, eu e Yargo dividimos as tarefas. E é um trampo que precisa ser feito, senão a carreira não anda: ir atrás de lugar pra tocar, fazer contato com distribuidora pra entender por que algo não saiu como planejado, mandar e-mail, procurar artista pra capa, tirar do bolso pra pagar coisa X… Operamos como uma produtora caseira, e o ralo de dinheiro é a banda (risos).


Mas não reclamo. Tenho certeza de que, uma vez que dominarmos essa parte do trabalho, a ondapesa vai estar consolidada, organizada e saudável. Não acredito em vida de rockstar. Prefiro uma caminhada longa, que me recompense no futuro. Não comecei isso atrás de sucesso imediato, quero fazer disso o trabalho da minha vida. Então, o desafio é não perder o foco e não surtar. A maior vitória é ver que todo o esforço é recompensado pela resposta das pessoas.


  1. Agradecimentos como o da @vercosa_ mostram que até pagar a tarifa da distribuidora é um corre. Como é sustentar a própria arte e quais são as dificuldades de fazer música sem grandes estruturas por trás?


E estendo os agradecimentos ao Vinivask, que deixou a gente lindão nos teasers do álbum.

Mano, tudo em torno de um lançamento é um corre: gerar o ISRC do fonograma, registrar compositores e envolvidos, tentar contato pra pedir autorização de uso de imagem, sample, capella tirada da net… Tentar ser o mais ético e profissional possível. Independente não significa bagunçado.


Isso fica de visão pra quem tá começando: é melhor planejar os passos do que sair atirando pra todo lado e depois se frustrar porque não tinha estrutura pra segurar uma grande oportunidade. Ser artista da música é questão de teimosia. Se você não for obstinado e obcecado por essa forma de expressão, o ânimo vai passando e o encanto acaba.


Acho muito importante estudar maneiras de tornar o corre viável. Não tem fórmula, mas conhecimento e bons amigos pelo caminho dão alguma direção.


  1. O que você espera que esse álbum provoque em quem escuta? Que mensagem ou sensação quer deixar na pista?


Quero que as pessoas fiquem curiosas pra investigar o que tô falando ali. Tenho planos pra estender os debates que apresento ao longo das oito faixas.

E, claro, espero que esse trampo chegue em quem precisa ouvir. Sei que não é um som pra todo mundo, mas tomara que rode cada vez mais longe e me leve a conhecer mais gente pelas encruzilhadas da vida.




 
 
 
  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • 16 de fev.
  • 6 min de leitura

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Que mapa estão os meus pés?


Meus pés caminham entre Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro. No mapa, Espírito Santo, pequeno em território, grande em beleza. Meus pés, que seguem descobrindo essa terra abençoada, entre mares e montanhas.


Em outras andanças, agora em quatro rodas, ouvi de seus moradores, que carregam pessoas por aí, sobre um estado lindo, mas também cheio de contradições.


E eu, que sou do Rio, sei bem que as belezas também podem mascarar feiuras: contradições, desigualdade, marcas inevitáveis de um sistema que não se sustenta sem elas.

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Aviso também que uso a música "Que Mapa?" de Arthur Verocai, composta junto de Vitor Martins, presente no incrível álbum "Arthur Verocai" (1972), seu debut e um dos maiores da música brasileira.


Na época, tão revolucionário que flopou, mas foi redescoberto pela cultura hip-hop, pelos gringos, outro suposto "descobrimento" — como tantos outros que veremos por aqui.


O primeiro deles: o "descobrimento" de uma terra repleta de gente.

O Espírito Santo foi um dos primeiros estados colonizados pelos portugueses, numa história marcada por conflitos com os povos originários que já estavam aqui.


Meus pés, que pisaram nesses lugares de disputa sem ao menos saber, me guiaram por encontros e desencontros com vestígios de uma história antiga, mas ainda presente.

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É só olhar ao redor. Entre pesquisas, descubro cada vez mais.

Esse texto é sobre isso: voltar ao passado para entender melhor o presente e, quem sabe, vislumbrar um pouco do nosso futuro.


Começo lá longe, às vezes venho para perto, depois me afasto. Não quero seguir uma ordem. Quero que viajemos, mas também retornemos, sabendo que o passado diz muito sobre o presente.


E que, ao entender um pouco mais sobre como chegamos até aqui, podemos tentar guiar nossos passos para um futuro melhor.
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A praça, o povo, a fé.


No século XVI, os jesuítas liderados por São José de Anchieta tentaram catequizar os indígenas, especialmente os Tupiniquim e os Temiminó.


Houve resistência, e essa catequização, como sabemos, veio acompanhada de violência, escravização e deslocamento forçado desses povos.

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Até hoje, a luta dos indígenas no Espírito Santo continua. Tupiniquim e Guarani travam há décadas uma disputa pela demarcação de terras.


Uma das maiores polêmicas envolveu a Aracruz Celulose (atual Suzano), que ocupava territórios tradicionais indígenas para o cultivo de eucalipto.

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No site do Arquivo Nacional, no espaço Memórias Reveladas, encontrei uma notícia da Agência Pública que revela que a Aracruz Celulose teria se associado a governos locais e órgãos públicos na repressão a povos tradicionais e na compra de terras indígenas e quilombolas durante a ditadura militar.


Documentos e relatos apontam exploração, repressão de trabalhadores e prisões arbitrárias.
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Além disso, a empresa teria usado mão de obra indígena e quilombola na capina e preparação da terra para o eucalipto, submetendo essas pessoas à exploração e violação de direitos trabalhistas.


Sobre o lema da bandeira, azul, branca e rosa, nossos irmãos indígenas e quilombolas só puderam trabalhar, mas nunca confiar.

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"Trabalha e confia" vem de uma frase de São José de Anchieta: "Trabalha como se tudo dependesse de ti e confia como se tudo dependesse de Deus".


Uma filosofia de vida baseada no esforço e na fé.

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Mas esforço nem sempre é recompensado. Trabalho, mesmo com confiança, nem sempre gera resultado.

O Espírito Santo tem um PIB per capita elevado, mas grande parte da riqueza está concentrada em poucos setores e regiões.


Cidades como Vitória e Vila Velha têm um alto padrão de vida, enquanto municípios como São Mateus e Baixo Guandu enfrentam dificuldades econômicas.

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Mas nem tudo é tragédia.


Hoje, Vitória é a sexta capital melhor posicionada no ranking de desigualdade no Brasil, segundo o Instituto Cidades Sustentáveis (2024).

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A gente, o porto, o cais.


Fernando Domingos, em sua dissertação de mestrado em Geografia na UFES, escancara a desigualdade no acesso ao lazer em Vitória.


Seu estudo mostra como a cidade é rachada ao meio pelo Maciço Central, criando um abismo entre a orla Nordeste, cheia de grana e estrutura, e a orla Noroeste, onde a quebrada resiste no abandono e precariedade.


Saindo de casa para a escola onde leciono, vejo isso todos os dias.

Como um Uber me disse nessas andanças, a cidade é dividida ao meio: a parte rica e a parte pobre.


Isso fica explícito quando coloco meus pés na rua.
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A favela nunca para.


O estudo de Fernando Domingos também mostra como o povo se vira: ocupando, resistindo, reinventando espaços públicos na marra, fortalecendo o lazer e a convivência coletiva, mesmo sem apoio do governo


No fim, a pesquisa revela que, quando o assunto é lazer, a cidade ainda é feita para poucos.

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O medo, a vida, o revés.


Os bairros Nova Palestina e Resistência nasceram da luta de um povo preto, pobre e periférico por um lugar para chamar de seu.


Ocupações forjadas na necessidade, enfrentando desde o começo o descaso do Estado e a criminalização da pobreza.

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Nova Palestina surgiu nos anos 1980 e 1990, com famílias ocupando áreas alagadas próximas ao manguezal.


O nome já carrega um simbolismo forte: referência à luta palestina, ecoando a resistência de um povo que precisa disputar cada pedaço de terra para existir.



As dificuldades eram imensas: remoções, repressão, abandono.


No começo, não havia ruas asfaltadas, saneamento, infraestrutura.


Luz no "gato", água improvisada, lazer à base da criatividade.

Mas trabalharam, confiaram e construíram o bairro com as próprias mãos.

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Nos anos 2000, com muita mobilização popular, vieram algumas melhorias, mas sempre a passos lentos.


Vitória tem o maior manguezal da América Latina: a reserva do Lameirão, com 900 hectares.


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Esses manguezais são berçários de vida marinha e sustentam inúmeras famílias de pescadores.


Mas a cidade, rachada por desigualdades, trata esses territórios como problemas, não como riquezas.


E nada vai bem ou vai mal.


O Espírito Santo foi diretamente afetado pelo desastre de Mariana (2015).


Até hoje, pescadores e ribeirinhos enfrentam dificuldades para recuperar seus modos de vida.

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O Polo Industrial de Tubarão, em Vitória, é um dos maiores do Brasil, mas também um dos principais poluidores do estado.


O minério de ferro transformou a Praia de Camburi em um mar tóxico.

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Situação que permanece, mesmo com as autoridades dizendo o contrário.

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Mas o povo segue questionando, lutando e buscando melhorias.


Essa cidade linda me encantou.


Nesse texto, não busco somente expor contradições, mas mostrar que a história é construção. Vitória já conquistou meu coração.

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De lá para cá, muita coisa mudou. Espírito Santo virou um lugar onde me imagino morando até os fins dos meus dias.


Vitória dá de dez a zero no Rio, São Paulo e Minas Gerais em segurança, saúde e educação.


Uma terra de belezas únicas, de gente forte, de culinária incrível.

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Sabia que a moqueca daqui não leva dendê? Ou que feijão tropeiro e banana frita estão em quase todo canto, até no hambúrguer?


Eu amo morar aqui.


Também tem Vila Velha, com o Convento da Penha abençoando todo o estado lá do alto.

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Ou o Restaurante Agathe’s, funcionando desde 1992, um lugar onde me vi parte desse povo, canela verde.


Ou, do outro lado da ponte, onde estão os capixabas.

São três pontes que ligam e dividem essas cidades, o mar ao redor, mas também os manguezais que as cortam, suas “sinaleiras”, sua mistura: baianos, mineiros e cariocas.

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Seu amor pelo meu Flamengo, o samba do Bar da Zilda, seu carnaval e suas escolas de samba, que se confundem com a história do povo, da cidade, do estado, do nosso país.


Rua Sete, Jardim da Penha, Bento Ferreira, Santo Antônio, Cariacica, Jardim Camburi e tantos outros lugares que fazem esse estado ser santo — em espírito, em povo, em gente.


E que deixam explícitas suas contradições, porque é necessário. Faz parte de toda essa beleza falar muito do povo e do poder.

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Trabalhadores que confiam em seu estado, que trabalham pelo seu crescimento individual e coletivo.


O melhor café do mundo está aqui.


A moqueca que não leva dendê.


A maior frota de pescadores do Brasil.


Terra que encantou imperadores, que até governaram aqui por algumas horas e morreram de amores pelo Convento da Penha.

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Quem nunca foi, precisa se planejar para ir.


Eu amo morar nessa ilha, uma das três capitais-ilha do Brasil.


E por isso escrevo sobre ela sem romantizar, sem esconder suas chagas.

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É necessário amar com sinceridade, sem se alienar.


O amor tem que ser real, sem idealizações. I


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Isso é o verdadeiro ato de amar.


Vitória, decidi te amar.


Este é o mapa sob os meus pés.


 
 
 
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Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

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