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Acho que tenho a necessidade de conversar com alguém.


Não qualquer conversa, mas aqueles papos íntimos que não cabem em qualquer roda de amigos. Há assuntos que transbordam na minha mente, e eu tento encontrar formas de não alagar tudo por aí. Mas está cada vez mais difícil encontrar recipientes para tanta atividade cerebral.


Fazer terapia é um caminho. Ter alguém pago para te ouvir, que tenta, no meio de tudo, não julgar, orientar sem apagar sua individualidade. Sempre foi confuso para mim, mas dá certo. Então seguimos.


Outros dias, simplesmente desejo ficar em silêncio. Ninguém por perto, sem papos furados, sem falsidade ou retórica. Só quero ocupar minha mente com qualquer coisa aleatória — alienação, comida, tragédia.


Mas, no fundo, queria ter alguém para trocar uma ideia. Não que eu não tenha amigos, família, contatinhos. Não que eu não seja requisitado boa parte do tempo. Não que as pessoas não queiram me ter por perto, e muito menos que eu tenha pouca coisa interessante para falar.


Eu queria encontrar alguém que não necessariamente queira um namoro ou algo sério. Alguém que queira uma relação, ou algo do tipo, sem precisar de um rótulo — ou que, se tiver, não seja o maior objetivo. Uma troca de ideias, observações, experimentações. Algo que, na maioria das vezes, só conseguimos compartilhar através da oralidade.

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Eu nem sei direito o que quero, mas sei que é vivo. Tem pele, calor, corpo, boca, sentimentos. No peito, há algo que bate; na cabeça, conexões que refletem, criam e gritam.


Eu nem sei o que quero, mas quero algo. Talvez amanhã. Mesmo que o sentimento tenha surgido hoje. Mesmo que eu já tenha encontrado, mas, por estar tão imerso, ainda não compreendo o fenômeno em que me encontro.


Uma vida inteira sem querer. Talvez eu ainda não tenha conhecido essa pessoa. Mas não acredito que ela não exista. São 8 bilhões de pessoas, tão diversas quanto dispersas. Em algum momento, aquilo que eu quero, eu vou ter.

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A solidão e a necessidade de reconhecimento


Lendo Fanon em Pele Negra, Máscaras Brancas, penso em como a construção racial afeta as relações interpessoais. Como ele, desejo uma troca autêntica, sem rótulos ou imposições externas. Buscamos uma subjetividade que possa existir sem ser enquadrada ou reduzida por normas sociais.


Fanon argumenta que o sujeito negro, em sociedades racializadas, frequentemente luta para ser reconhecido como humano além dos estereótipos impostos. Minha busca por um vínculo genuíno, e não apenas um reflexo do que esperam de mim, dialoga com essa ideia.


Somos forçados a seguir padrões para sermos vistos como parte da sociedade, mesmo quando nosso maior princípio é não querer se assemelhar a ela. Uma sociedade que nos limita dentro das fronteiras do que é bem visto ou não, certo ou errado, herói ou vilão.


Talvez até minhas afetividades sejam marginais. Não quero seguir uma fórmula pronta de como devo me relacionar, mesmo que, no final do dia, sinta falta de alguém para me acompanhar. Sei que minha solidão é temporária, pois o sistema das coisas precisa ser questionado.

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A fragmentação do eu e a alienação


A construção racial afeta as relações interpessoais. E eu sei que sempre bato nessa tecla. Meus textos são racializados em sua essência. Como sujeito social, não consigo me desvencilhar de quem eu sou, de onde eu vim.


No meu âmago há um desejo por uma troca autêntica, sem rótulos ou imposições externas. Mas como vou ter isso se sou, em parte, algo que não controlo? Algo que, antes mesmo de eu nascer, já decidiram que eu seria? Já me conduziram a ser, sem me deixar muitos espaços para a contradição.


Essa dificuldade de encontrar "recipientes" para os meus pensamentos transbordantes aproxima-me da ideia fanoniana de alienação. Como sujeito colonizado — ou oprimido de modo geral — fui muitas vezes forçado a existir em uma identidade fragmentada, sem um espaço legítimo para minha expressão plena. Aquela eterna sensação de não saber exatamente o que se quer, mas sentir que algo está faltando.


Eu adoto essa fragmentação. Desde que comecei a pensar identidade, questiono minhas inúmeras versões, que se confundem. Mas essa não é a mesma do meu íntimo. Eu sou muito mais do que posso mostrar. Até porque ninguém daria conta, pois tem sua própria complexidade também.


Eu sou uma porrada de coisa. Mas, se eu não fosse nada disso, seria outro alguém, outro ser, outro papo, outro casulo, outro desabrochar. O que você vê é parte de mim, mas as coisas são menos simples do que imaginamos. Tive que me moldar, construir um ser que é aceitável para o padrão das coisas. Algumas partes de mim não podem ser expostas ao público de forma tão livre nesse grande teatro.

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O cansaço das máscaras e o desejo pelo silêncio


Ando meio cansado da performance social. Para Goffman, interagir exige esforço porque envolve administrar impressões, controlar gestos e palavras, evitar deslizes. Meu desejo por silêncio pode ser interpretado como uma busca por descanso desse teatro social, um momento em que eu não preciso representar nada para ninguém.


Talvez nem trancado dentro do quarto eu consiga fugir.


Tento, mas será que realmente existe alguma privacidade na vida em sociedade?


Não quero ser o diretor, muito menos o protagonista, nem o coadjuvante. Talvez um figurante, não recorrente, aquele que passa no vulto do movimento da câmera, camuflado na multidão. Sem nada eloquente para falar, talvez só umas onomatopeias, alguns ruídos, um riso ou um grito. Nem chorar quero. Não vou alimentar mais esse drama.


Cansaço dessa máscara branca, mas me questionando também sobre quem fez essa máscara preta. Entre a troca delas, me repenso sem máscara, nu, em volta de um mundo vestido, travestido. Enquanto me penso nu, tem gente que nunca se despiu totalmente.

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A rotulagem e a identidade pessoal


Se tudo isso não é só sobre nós, se já estou em caixas mesmo buscando a vida toda para não entrar em uma, como ter uma identidade minha nisso tudo? Como ser alheio a padrões, rótulos e estereótipos? Como ser mais eu, mesmo às vezes não sabendo quem sou?


Howard Becker, na teoria da rotulagem, propõe que a sociedade categoriza e define comportamentos e pessoas, e que esses rótulos influenciam a forma como alguém é visto e se vê. Os rótulos podem limitar as experiências e expectativas das pessoas.


Talvez eu nem saiba tanto assim o que quero. Provavelmente é fruto de um monte de coisa externa a mim. Becker argumenta que, uma vez que um rótulo é atribuído, ele pode se tornar central para a identidade da pessoa.


E eu quero algo sem necessariamente precisar nomeá-lo. Um desejo de vivência sem que um rótulo determine o que essa vivência deve ser.

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O desejo como construção social e resistência


Fanon também fala sobre o desejo como algo mediado por contextos históricos e sociais. Esse desejo de conexão, mas sem os moldes pré-definidos do que uma relação "deveria" ser. Uma busca por algo real, vivo, pulsante — que é justamente onde a resistência e a reexistência acontecem.


Acho que escrevo tanto pela falta de alguém para falar sobre tudo isso. Sei que é chato, profundo demais. Que bom que tenho a escrita, a revista, para isso. Para outros momentos, deixo só o banal, rotineiro, o engraçado, o curioso. Temos que saber qual papel adotar. Não podemos querer ser sempre o protagonista desse grande show.


E sobre o que eu quero? Eu não sei. Talvez saiba, mas ainda não pesquei.


Deixa ser, deixa rolar, naturalmente. Não queremos ver ninguém chorar.

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  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • 9 de mar.
  • 2 min de leitura

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Você já tentou resgatar memórias antigas de pessoas com quem você já se relacionou?


Sei lá: fazer uma retrospectiva mental, buscar aquelas memórias que a rotina deixou de lado, que você nem mais pesca nesse mar de coisas, na infinitude do horizonte.


Caminhamos rumo a uma vida em que tudo o que propomos é vivido de forma experiencial e empírica; afinal, a máxima de viver é estar vivo, é o movimento.


Alguns anos atrás, os movimentos eram outros; não era tão simples assim.

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Pode-se dizer que eu estava meio perdido, mas não acredito nisso, pois sempre segui a lógica de que estava me encontrando.


Fiz um curso de roteiro; na época, estava entre Catete, Belford Roxo e Niterói, na ONG de Betinho.


Eu me coloquei à disposição de aprender, de ter novas experiências que me auxiliassem a me localizar.


Não terminei, mas aprendi que não existe roteiro para um personagem totalmente passivo ao mundo.


Ele tem que agir, se mover, se frustrar, se alegrar, amar – ele tem que viver, mesmo que esteja morto.


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Quando resgato memórias antigas de amores do passado, percebo que, muitas vezes, o que vivi não foi necessariamente por mim – sou fruto do meio – e também me vejo, naquele momento, dependente do outro, tentando achar sentido naquilo, esquecendo que o sentido da vida é viver.


Simples e direto, como deve ser.


Já vi tanta gente perder nesse jogo; meus sentimentos aos amigos que não tiveram o privilégio de enfrentar, ao menos, uma dificuldade média.


Tudo é difícil – não há macete, pelo menos para nós – não há escapatória; as opções são simples de mencionar, mas é difícil compreender a dificuldade que é ter tão pouco.


Amor, olha ao redor: será que esse relacionamento é sobre você ou você está apenas vivendo uma idealização?


Sinta o material, o concreto; preste atenção nos detalhes que permeiam essa trama.

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Não necessariamente se conduza até o fim, mas questione-se, ao menos. Amor é tudo menos isso.


Volto ao passado e fico pensando: é domingo também, tudo facilita.


Amanhã vou dar uma aula linda sobre tudo isso; olhe pela janela e veja toda aquela teoria em ação.


Recentemente, perdi um pouco o ritual de escrita que, acho, me limitava – aquela coisa bem prosaica de ligar o computador, abrir o Word e escrever.


Simplifiquei.

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Agora, uso o bloco de notas do celular, onde as ideias fluem.


Virei um exímio digitador de textos no iPhone; me sinto moderno, tudo fica mais rápido, faço as artes no Canvas e sigo com fé.


Mas, voltando ao assunto, qual é a profundidade que conseguimos alcançar quando estamos sozinhos?

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Você consegue refletir sobre a vida que viveu até aqui sem se sentir mal ou frustrado, como se o passado fosse algo a ser constantemente apagado e negado?


Muitos de nós não conseguimos olhar de maneira tão romântica para um passado que, muitas vezes, foi marcado pela violência.


Mas, um dia, espero que consigam ver que somos o tempo – em sua primazia, veracidade e materialidade.


São quatorze horas da tarde e eu ainda nem almocei.


Escrevendo de barriga vazia.

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  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • 8 de mar.
  • 3 min de leitura

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Qual era o calibre da bala que atravessou o alvo?


Eu sou minha jornada. Pensando em tantos fatos e cotidianos, olha meu olho, sente esse líquido que me banha — tamanho o esforço.


Sinto o calibre da bala que atravessa o alvo. Mas quem é o alvo? O que ele sente quando o projétil o atravessa?


A linha do Equador é mais curta. Aqui não é suas eurocêntricas. Tem que ser cria para saber se criar.


Me formei na base de tudo que vi e ouvi. E tanto busquei ouvir, que não reproduzi. Rodeado por tanta coisa ruim, às vezes eu só quero me afastar. Mas, em outros momentos, me juntar.


São coisas que a gente tem para dizer por aí, mas se prende em não se expor. Muito se resume aos seus sentimentos. Eles não querem que a gente reflita. Viver no automático é mais lucrativo.


O lucro, a carne, o sangue que escorre e mancha a suposta democracia que esse país vive. Algo de poucos e tolos, que em seus privilégios afundam.

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Que cidade é essa?


Outro dia, eu estava caminhando por essa cidade — turva, como uma miragem no deserto. Calor intenso. Sensação infernal.


Outro dia, eu estava por aí. Nessas ruas, subindo morros, atravessando pontes, questionando tudo que acho que uma cidade deveria ter.


Parece impassível acreditar que ninguém sente nada sobre o fato incrível de que nossa espécie está a caminho da extinção iminente. Se não como espécie, pelo menos como sociedade. Como estrutura. Como organismo social.


Meus pés pisaram nessa cidade com passos duros. De quem sabe que, se não fincar o pé no chão, qualquer brisa mais pesada pode te levar.


Homens, velórios, carros, nascimentos, contratos, casamentos. E, no fim, tudo vai ser contínuo e gradual.


Árvores são inimigas da cidade. Pessoas de classes menos abastadas são algozes da cidade. Meus pés não pisaram fofos por aqui.

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O que significa ser decolonial?


Isso que sou: decolonial. Não louvo uma terra de sequestradores, estupradores e genocidas. Não sou fruto de colonizadores. Não me submeto a seus papos tortos. Sou maior que seu suposto protagonismo.


Essa terra é de todos nós, mas agora o protagonismo tem que ser nosso. Já que você pintou e bordou com a nossa pele, vendeu seu papo torto, mentiu, omitiu, inventou.


Siga os rastros. Que mesmo evitados, apagados, resistiram. Perpetuaram a pequena memória que deixaram sobre o que é ser nós, o que somos e qual é a verdadeira energia que move essa gente trabalhadora, incansável, esperançosa.


Não deixarei falsas retóricas me atingir. Seguirei como sempre segui. Sou a estrela de amanhã, o sol de hoje, a chuva de ontem. Sou algo diferente de você, mas cada vez mais igual aos meus.

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O que resta depois do suor?


Molhado de suor e sal. Crime e paixão. Feito um animal que quer fugir. Seja como for, é sempre igual.


Poucas coisas podem ser ditas de forma mais explícita. Se eu pudesse vestir o seu corpo e me agasalhar com suas entranhas, não seria tão explícito quanto beijar sua boca, dedilhar seu sexo, respirar seu ar.


Meu corpo se esfregando no seu, naquela simbiose. Você é tão gostosa de pegar. Minhas mãos te tateando. Aquele tesão que nos hipnotiza, faz sonhar acordado.


Seus olhos, seu cabelo, seus seios, suas coxas. São tantas coisas. Todas particularmente especiais e únicas.


Coisas lindas e brutas. Ruas vazias. Nós dois em bares que já estão para fechar. A arma do nosso olhar. Os gatilhos que apertamos por aí.


O gole da cerveja, o calor da fumaça da nicotina na minha garganta. A vida é farta. Não importa se hoje ou amanhã. Vou viver sempre por momentos como esse.


Você e eu. Nessa cama. Bendita cama. Benzida cama. Sua chama. Essa trama. Mil conversas.


Acho que vou terminar por aqui.


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