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Atualizado: 29 de mar de 2022

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Album Imorrivel Imortal de Jamall DuBeco

A primeira vez que ouvi o álbum “Proibidão do Bairro 13” do Zero Dollar, em 2014, lembro de me sentir incluído em algo. Eu não me via nos livros que lia na biblioteca do brizolão que estudei em São João de Meriti, o saudoso Ciep 175 José Lins do Rego, e muito menos nas músicas que ouvia. Ouvir um álbum como aquele me fez sentir que eu poderia fazer algo falando sobre minha vivência, sobre o meu local, as violências promovidas pelo estado e pela polícia a meus pares.

Vilar dos Teles, mais conhecido como Vilar, é um bairro de São João de Meriti e era um dos maiores centros comerciais da cidade e do estado. Nos anos 80 era conhecida como a Capital do Jeans por conta de diversas lojas que vendiam esse material a preço de fábrica. Atualmente é o local onde se encontra a Prefeitura de SJM, com sua grande Praça dos Três Poderes que recebe a juventude. Vilar é o local de moradia do Jamall Dubeco e do Braw ZD e onde se encontra o Bairro 13.

É Proibidão do Bairro 13, por ser proibido mesmo! Na Baixada Fluminense, especificamente no Vilar, a censura nem é disfarçada de democracia. Os “quebras” quebram. Então imagina um grupo de jovens negros soltarem um álbum de protesto contra a violência sofrida pela juventude meritiense pela polícia, milícias e tráficos de drogas em uma cidade que corrobora arduamente com o genocídio da população negra?

Zero Dollar foi um grupo que teve a coragem de expor os covardes que trituram os pobres e negros da baixada fluminense há anos. Jamall DuBeco, Braw ZD através de suas letras representam uma geração de jovens meritienses que sofreram na mão do estado de inúmeras maneiras. Censurados, presos, agredidos e humilhados.

Todas as sete faixas do Proibidão do Bairro 13 foram mixadas por Big Smile, exceto a faixa 02 Gravada mixada e masterizada na ABA Produções por Hermes Filho. É recheado por uma diversidade de boombap’s, com uma faixa de raggamuffin e funk. Faz muito tempo que eu queria falar do Zero Dollar, já tinha até feito um vídeo há muito tempo atrás, mas o assunto principal aqui nem é sobre o grupo em si, é sobre um membro Jamall Dubeco e seu single "Imorrível Imortal”.

Karl Marx, mais conhecido por Jamall DuBeco, é um artista ímpar na cena da Baixada Fluminense, especificamente Vilar dos Teles. Não só por seu nome ser o mesmo do pensador alemão, mas por ser uma das vozes e mentes que lutaram pelo direito da juventude meritiense viver, ter acesso à cultura, educação e até fumar um baseadinho - na praça para quem curte e longe das crianças.

Conheci Jamall em uma manifestação que a UME (União Meritiense dos Estudantes), entidade estudantil que eu fazia parte, fez em 2013. Que colocou mais de 30 mil pessoas na rua dando um basta à corrupção e a violência. Jamall puxou o Hino do Brasil e palavras de ordem no único carro de som da manifestação. Só depois descobri que era uma das vozes do Zero Dollar, grupo que já curtia o single “Na mira dos Covardes”, lançado antes do álbum.

Depois do álbum Zero Dollar em 2016 lançou mais uma música “O Crime é Nada a Vida é Tudo” que é um retrato de um jovem que está no tráfico de drogas. Um relato triste e revoltante. Uma música linda que vale muito a pena ouvir. No mesmo ano entraram em Hiato com o grupo. Em 2021 Jamall Dubeco renasceu com "Imorrível e Imortal'', lançado pelo selo SdCria.ent, surgindo como uma fênix no beat de "Crunk Aint Dead" do Duke Deuce.

Com referências desde Wilson Simonal ao grupo maiosta peruano Sendero Luminoso. Imorrivel Imortal é uma resposta bem dada a quem não cansa de ver pretos desistindo de seus sonhos. Jamall ressurge não só como artista, mas como homem, não esquecendo de seus erros e seus acertos. Não ressurgindo como uma vítima, mas sim como o vilão. Um manifesto de um homem negro que reencontrou seu amor pela vida.

Tive o prazer de entrevistar mais um amigo aqui na resenha do pivete, quem fala comigo hoje é o Jamall Dubeco:


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Jamall em cena do clipe

Começo?

Tudo começou em 95 e 96, o Miami Bass estava forte aqui no Rio de Janeiro, e o pessoal explorou muito o som e criou várias paródias. Eu ”menorzão” ganhei uma fita da coleção “Rap Brasil”, desde então, eu quis começar a fazer música. Descobri um CD de rap americano em 2003. Em 2005, tive contato com SNJ, Racionais Mc 's e Rzo que faziam muito barulho na época. Resumindo, Rap e muito funk proibidão foram o que me inspiraram para fazer música. Dos 14 aos 17 anos comecei a compor as minhas músicas, aí que começou a nascer o Jamall DuBeco, quando comecei a criar minha própria identidade. Ficava assistindo o Funkeiro, Marechal, Mv Bill e a identidade deles. Geral naquela época gostava G - Unit - fundado pelo rapper 50 Cent -, Group Home, Rzo, Wu-Tang Clan, Black Star e diversos outros grupos. Comecei a pegar a visão e conheci os “menor” do Zero Dollar.


Zero Dollar

Começamos a nos apresentar nas festinhas de São João de Meriti, depois tivemos a oportunidade de abrir o show do Rapadura pelo P,10. Em 2014 veio o álbum Zero Dollar, eu e o Braw ZD, era para ser um ep. só, mas virou um álbum. Proibidão do Bairro 13, mixado e masterizado por Big Smile e Hermes Filho, tem o intuito de resgatar uma identidade Vilar dos Teles e ser underground. Dentro dele tem vários tipos de boombap e tem “Juventude Perdida pt 2” que tem raggamuffin e funk. O álbum tem o intuito de explanar a violência policial contra a juventude meritiense, no Vilar dos Teles, São João de Meriti, Baixada Fluminense.


Baixada Fluminense

É uma parada que teve muita influência no Sabotage, que sempre aparece em suas músicas falando da sua quebrada a Favela do Canão, Brooklin, zona sul de São Paulo. E a galera dos Estados Unidos também é assim, tu não vê o Kendrick Lamar não falando de Captom, Jay Z falando do Brooklin, Nas falando do Queens entre outros, tá ligado? E eu sou da Baixada mesmo.

Eu tinha necessidade de falar mais da minha área mesmo, meu medo em 2013 – 2014, se eu não falar de Vilar dos Teles, quem vai falar? Então tentamos colocar uma parada bem meritiense mesmo, falar da Automovel Club, dura no Prezunic, tá ligado? O sufoco que os amigos passam para fumar um baseado. Hoje em dia não é tanto a nossa realidade, mas antigamente para fumar um baseado você tinha risco de até morrer na mão dos “quebra”. Na mira dos covardes, Juventude Perdida Pt 1, Abordagem são todos sons que falam muito disso.


Vivências

Eu passei por uns momentos tensos em minha vida. Tive um princípio de overdose, eu não estava sentindo amor pela minha vida. Tendências suicidas e os “caralho”. Decidi parar por um tempo, principalmente por mim e pela galera que me acompanhava. Até hoje tem gente que forma a opinião a partir do que eu posto nas redes sociais, isso não é doideira? Tu que me viu começando na militância sem saber nada, falando até umas paradas pós modernas, imagina, uma galera que te orienta por uma parada que tu posta. Eu ouvi da boca dos outros, olha só a importância do bagulho. Agora eu estou blindado, mas antigamente não podia aguentar esse fardo. Minha mente não está de maneira autodestrutiva e me auto sabotando da maneira que eu fazia normalmente. É por isso que é Imorrível e Imortal.


Imorrível e Imortal

Eu renasci enquanto MC, enquanto homem negro. Várias vezes parei sozinho e pensei muito. Não quero fazer papel de vítima, a parada era eu fazer o papel de vilão mesmo. Que o sistema tenha medo e não pena de mim. Eu falo de sistema como sistema no geral mesmo, a sociedade mais racista do mundo. A elite vai ter que aturar um homem negro vivo, fazendo arte, sendo inteligente, sendo talentoso. Um homem negro em pé e vivo!


Funk

O funk carioca é um gênero de rap. Não sei tecnicamente, mas para mim ele é. Ele veio com a batida eletrônica e o verso em várias gerações.


Nova ou velha escola?

Estou no meio termo parceiro, ando com os coroas (Unir Versos Urbanos, Familia Al Capone, US NEGUIN Q Ñ SE CALA, Calote) e a minha tropa da Sd Cria que são mais novos (Gring, WL Vaz, Gandhi, Lil Dollyn, Brook), eu sou mais velho do que os “menor” que estão começando agora e mais novo do que os caras das antigas. Isso é foda, os caras da antiga me viram “bebel” emocionado atrás deles e agora já sou referência para os moleques mais novos. E não é que eu me intitulo, sai da boca dos caras e eu comecei a abraçar o papo.


Referência?

Os caras sempre me lembram disso e eu fico desesperado. Se eu não me importasse com o Rap, eu me acharia fodão. Mas como vejo o Rap como minha vida, fico desesperado e preocupado. Tem que levar no Blindão, saber o que falar e o que dizer. Muita responsabilidade. Eu achei que ia ser mais um cara do quadro, mas tu vê maior tropa te chamando de referência, não tem como ignorar.


E as Batalhas?

Nós começamos com a Batalha do Coreto em 2010, comecei a batalhar ali, eu não queria ser MC de Batalha, foi pressão de um amigo meu Wallace Miguel essa porra. Acabou que eu continuei, não ganhei nenhuma grande batalha do Rio, mas eu participei. Tive participações significativas, acredito que já ganhei mais de cem batalhas.


O som?

É muito importante dizer que tem o Duke Deuce "Crunk Aint Dead", da onde fiz o remix do som, que é muito foda e relíquia demais. Eu vim com a pegada do Imorrível e Imortal pela ideia de renascimento. Eu cito várias referências, como Di Melo* “Imorrivel”, Wilson Simonal*, minhas vivências e as coisas que eu leio, tipo, uma parte da letra “Eu sou Sendero Luminoso e vocês são PSL”, a galera pergunta o que é Sendero Luminoso, guerrilha rural, peruana, maioista. PSL é um partido de aluguel, antes do bolsonarismo, o PSL já era um partido de aluguel. Queria falar em 2018, mas não tive oportunidade, pois estava morrendo.


Projetos futuros?

Eu estou em um projeto muito foda com a produtora @filmejukebox de Coelho da Rocha em São João de Meriti, os caras lançaram Maverick, lançaram vários filmes underground da Baixada Fluminense. Nós fechamos uma colaboração para o meu próximo single, mas tem a Vale do Silício comigo e a WL Vaz, mas não sei qual vai sair primeiro. Para quem não tá ligado, nós temos o nosso selo a Sdcria.ent que fica em Vilar dos Teles e sempre lança uns clipes brabos. Então é certo que vai sair algo em 2022.


Wilson Simonal?

O racismo da esquerda mano, a esquerda é racista também, é um bando de branco que tem acesso ao conhecimento científico, mas tem medo de preto. Os pretos que os caras andam são tudo Carlton Banks da vida. Preto padrão, se tu não é, vão ter medo de você. Os caras são playboys, eu nasci em 92 e tu em 95, sabemos faz tempo que os caras não gostam de preto. Não é por que ele leu Karl Marx na adolescência que ele vai mudar, ele vai entender que temos uma mazela, tá ligado, mas é a luta material dentro do campo material, sou materialista, de luta de classe, entender que os negros estão incluídos nisso, não vão entender. Que somos parte da luta de classe, não só como massa, mas como liderança e disputa.


Glossário:

Di Melo é um músico, pintor, escultor, ator, escritor e poeta brasileiro. Seus álbuns são caracterizados pela variedade de gêneros musicais, incluindo a mistura de elementos da música soul e do funk com a psicodelia.

O Sendero Luminoso ("sendeiro luminoso" ou "caminho iluminado", em espanhol), oficialmente Partido Comunista del Perú (PCP), é uma organização de inspiração maoísta fundada na década de 1960 pelos corpos discentes e docentes de universidades do Peru (especialmente da província de Ayacucho).


Assista o clipe do Jamall Dubeco " Imorrível Imortal"









Revista Menó, nº.4/2022 (jan/fev/mar).

 
 
 

Atualizado: 4 de jan de 2022

Por Marcelo Sophos


"O patriarcado, um câncer que assola a sociedade há anos, é apresentado em sua forma mais brutal e impiedosa: homens que, sem medo, se sobrepõem aos demais e, principalmente, sobre as mulheres”. Margaret Atwood.

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Ficha técnica:

O Conto da Aia (2017).

Emissora original: Hulu

Adaptação de: O Conto da Aia, Margareth Atwood.

Prêmios: Prêmio Emmy do Primetime: Melhor Série Dramática, dentre outros.

Autores: Margaret Atwood, Bruce Miller, Yahlin Chang, dentre outros.

Gêneros: Distopia, Ficção utópica e distópica, Ficção científica, Tragédia.

1h/episódio.

Atualmente tem 4 temporadas.


Sinopse original: Depois que um atentado terrorista tira a vida do presidente dos Estados Unidos e de grande parte dos outros políticos eleitos, uma facção católica toma o poder com o intuito de restaurar a paz.

Descrição

A série O Conto da Aia é baseada no romance distópico da escritora canadense Margaret Atwood, publicado em 1985. Os eventos se passam num futuro próximo, após o golpe de estado de um grupo terrorista fundamentalista cristão no governo dos Estados Unidos. Chamada de Gilead, a nova Republica é um governo teocrático cujos fundamentos e leis se baseiam no antigo testamento bíblico.

Após o golpe, a personagem Offred, uma mulher bem sucedida, vê sua vida arruinada quando o governo toma todos os bens das mulheres e os transfere para seus maridos, e logo depois todas as mulheres são demitidas de seus empregos. Muitas são aprisionadas e enviadas para uma escola de reeducação, onde aprendem as funções de uma aia. A resistência a essa educação é punível com torturas e morte. Apesar de tudo, Offred luta como pode contra o sistema, de cabeça abaixada para o status quo, pois sempre sua vida está em risco, sendo estrategista e meticulosa em suas ações.

Análise

Diferente de distopias como 1984, Admirável Mundo Novo e Fahrenheit 451, que trazem apenas ideias para um futuro, antecipando eventos, O Conto da Aia traz ideias que já aconteciam nos EUA em seu passado, onde mulheres eram usadas para povoar o novo mundo com o dom da maternidade, usando a submissão feminina descrita nos textos bíblicos como argumento de superioridade da masculinidade.

É nesse cenário que a autora desenha as experiências reais vividas por muitas mulheres ao redor do mundo. Basta ficar atento aos noticiários, ao crescente número de feminicídios, ou refletir como nos lugares e nos transportes públicos, metrôs, ônibus e trens, essa realidade está presente em nosso dia a dia. A pouco, o lançamento de uma personagem da D.C. famosa, a Mulher-Maravilha, foi reinventada, numa leitura atual em prol da representatividade negra. A nova heroína, mulher negra e homoafetiva, pouco sensualizada, gerou o ódio daqueles que querem manter a ideia do patriarcalismo, erotizando e submetendo a mulher como algo que os homens possam opinar e avaliar seus corpos.

A protagonista da série e livro, é uma mulher forte, empoderada, astuta e sagaz, pronta para lutar pelos desafios contemporâneos. A história é um extremo do que pode acontecer caso fechemos os olhos e baixemos as bandeiras da luta por igualdade. É um alerta para os perigos de um estado fundamentalista, levantando o debate sobre o poder da religião sobre o Estado.


Revista Menó, nº. 3/2021 (out/nov/dez).

 
 
 

Atualizado: 7 de jan de 2022

Por Carlos Douglas

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Ficha técnica: A Mão Esquerda da Escuridão é um romance de ficção científica escrito por Úrsula Kroeber Le Guin que aborda os conflitos culturais, psicológicos e políticos devido a chegada de um humano diferente da espécie de humanos do planeta Gethen. Tudo começa quando o Ekumen, uma união de planetas humanos, manda Genly Ai como mensageiro, o propósito de sua viagem era convencer pacificamente as nações do planeta Gethen a se somarem como membros da coordenação. O livro foi lançado no Brasil em 2014 pela Editora Aleph e está na sua terceira edição (2019), com a tradução de Susana L. de Alexandria, a capa de Giovanna Cianelli, ilustração da capa de Marcela Cantuaria e um prefácio de Neil Gaiman.


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Mini BIO: Ursula Kroeber Le Guin nasceu em 21 de outubro de 1929 e faleceu em 22 de janeiro de 2018. Foi uma escritora estadunidense conhecida por suas obras de ficção científica e fantasia. Le Guin publicou pela primeira vez em 1959 e sua carreira se estendeu por quase 60 anos, tendo produzindo mais de 20 romances e mais de 100 contos, além de poesias, crítica literária, traduções e literatura infantil. O pai de Úrsula, Alfred Louis Kroeber era antropólogo na Universidade da Califórnia, e sua mãe, Theodora Kroeber (nascida Theodora Covel Kracaw) era uma psicóloga que estabeleceu uma carreira de sucesso como autora e que escreveu, dentre outras obras, Ishi in Two Worlds (1961), uma biografia sobre Ishi, um nativo americano que se tornou o último membro conhecido da tribo Yahi.


A recepção

O romance foi publicado pela primeira vez em 1969 e hoje é um clássico com mais de 50 anos de existência. Uma história que envelheceu bem, continua atual e relevante. Na época, o livro foi muito bem recebido pela crítica, se tornou muito popular e foi reeditado mais de 30 vezes. Ganhou o Prêmio Nebula, concedido pela Science Fiction Writers of America, e o Prêmio Hugo, determinado pelos fãs de ficção científica. E, em 1987, a revista Locus classificou-o em segundo lugar na lista "Melhores Romances de Ficção Científica de Todos os Tempos". O sucesso do livro foi tão grande que o crítico literário Harold Bloom chegou a dizer que "Le Guin, mais do que Tolkien, levou a fantasia ao status de alta literatura no nosso tempo".

Além do sucesso editorial, o romance é considerado um marco na trajetória literária da autora. Apontado pelos críticos como sua "primeira contribuição ao feminismo", o romance foi realizado num contexto de efervescência política e cultural, onde as questões de gênero, desnaturalização e contracultura entraram com força no debate público. No campo literário americano os debates foram pautados pelas releituras de Simone de Beauvoir e publicações como A Mística Feminina, de Betty Fridman. O romance é marcado pela relação nós x eles, pelo encontro cultural com o outro, pela vivência de um estrangeiro, somadas as diferenças físicas virtuais entre tipos diferentes de humanos, sobretudo com relação ao sexo.

O livro transborda a mentalidade culturalista que hegemonizou o debate acadêmico nas ciências humanas, especialmente a partir dos estudos de Franz Boas, Margareth Mead e Ruth Benedict. No prefácio, Neil Gaiman diz acertadamente que "Le Guin tem um toque de poeta e um olho de antropóloga". Os editores da Aleph descrevem Úrsula como uma escritora de ficção pautada no debate das ciências humanas, como a sociologia e antropologia. Segundo a própria Úrsula, "o objetivo do experimento mental (...) não é prever o futuro (...), mas descrever a realidade, o mundo atual. (...) A ficção científica não prevê; descreve (...). Previsões são feitas por profetas". Nesse sentido, a autora redigiu a frase que titula esse artigo, pois quem descreve o faz a partir de seu próprio ponto de vista, ou seja, “a verdade é uma questão de imaginação”. Uma afirmação que se encaixa na metodologia e epistemologia típicas do campo das ciências humanas, onde o objeto e sujeito dos estudos coincidem.

O romance, assim que foi publicado, esteve no centro de um debate feminista. Alexei Panshin fez objeções ao uso de pronomes de gênero masculinos "ele/seu/dele" para descrever os personagens andróginos do romance. Também houveram críticas com relação a heteronormatividade durante o kemmer, o período do cio entre os gethenianos, pois a trama só apresenta arranjos de casais compostos por homem e mulher. Sarah LeFanu escreveu que Úrsula perdeu uma oportunidade de experimentação, pois os "heróis masculinos com suas crises de identidade, presos nas garras do individualismo liberal, servem de peso morto no centro do romance".

Em 1976, Úrsula responde às críticas em seu artigo Is Gender Necessary?''. Incialmente, argumenta que a questão de gênero era apenas um tema secundário em relação ao tema primário, lealdade e traição. Na versão revisada do artigo, publicada em 1987, Úrsula voltou atrás e afirma que a questão de gênero era central para o romance. Disse que havia descrito o gênero como tema periférico por que se sentia na defensiva sobre usar pronomes masculinos em seus personagens. Úrsula conclui sobre a recepção do romance: "homens estavam inclinados a ficarem satisfeitos com o livro, que permitia uma visita segura à androginia (...). Mas muitas mulheres queriam ir além, arriscar mais, explorar a androginia de um ponto de vista feminino". Ao final, Úrsula acaba fazendo uma autocrítica com relação a essa questão: "as mulheres estavam certas em pedir mais coragem da minha parte".

A narrativa

A história é instigante e tecnicamente muito bem executada por parte da autora. A narração conduz o leitor a um exercício constante de relativização e desnaturalização, fazendo Genly Ai, o principal narrador do romance, viver situações em que é necessário lidar com seus preconceitos com relação aos alienígenas. Genly Ai é o narrador principal e a voz que fala por "nós", que representa o leitor e se aproxima culturalmente dele no quadro da ficção. O romance conta a história de Ai, chamado de "mensageiro", um personagem que exerce papel diplomático ao buscar atrair as nações do mundo de Gethen para a aliança de planetas humanos, o Ekumen.

O "mensageiro" chega ao planeta e aterrissa sua nave no reino de Karhide. Vai sozinho propositalmente, para que seja visto com curiosidade e não com medo. Ai tem um protocolo de aproximação e um método de ação com os nativos definidos por regras coletivas estabelecidas num código de ética. Em muitos aspectos a história de Ai se assemelha a de um antropólogo introduzindo-se no campo de pesquisa. Inicialmente, Genly Ai não se adapta facilmente ao clima do planeta, extremamente frio, e aos costumes dos nativos, o conduzindo a constantes situações de desconforto, desentendimento e inadaptabilidade. Então, Ai busca um informante e, nesse contexto, encontra seu interlocutor, Therem Harth rem ir Estraven, conselheiro do monarca de Karhide.

No fim da primeira metade do livro, depois que sofre um grave revés em sua carreira política, Estraven surge como narrador secundário da trama, compondo um quadro narrativo onde só haviam a voz de Genly Ai e a "voz do mundo". A princípio não parece um narrador, mas apenas uma "voz do mundo", surgida para elucidar o leitor sobre a natureza peculiar do modo de vida e da mentalidade dos gethenianos. Entretanto, ao longo do romance percebemos que a narrativa de Estraven joga um papel muito mais importante ao acrescentar alteridade, questão que não está somente expressa no tema do enredo, mas na própria experiência narrativa construída pela autora.

Ao convidar o leitor a pensar como o nativo, Estraven o conduz a encarnar o alienígena e sofrer na pele seus dilemas peculiares, seus dramas pessoais e sua dificuldade na relação com o estrangeiro, Genly Ai. Assim, utilizando a analogia de Ruth Benedict, o romance proporciona a experiência de utilizar as lentes culturais gethenianos para ver gethenianos e terráqueos, e utilizar as lentes culturais terráqueas para ver terráqueos e gethenianos. Neste sentido, a experiência narrativa do livro proporciona uma reflexão de superação do binarismo nós x eles com relação a cultura, mas não apenas, também extrapola a oposição bem e mal, claro e escuro, macho e fêmea.

A sexualidade

O romance é um thriller de intrigas e disputas políticas cheios de revezes, fugas, prisões e reviravoltas surpreendentes, mas o pano de fundo da experiência do narrador com toda essa conjuntura é definido por sua relação conflitiva com a natureza cultural e biológica dos alienígenas. A condição sexual específica dos gethenianos é o centro da vazão de grande parte do estranhamento cultural de Genly Ai. Por alguma razão que a trama acaba por explicar, os gethenianos eram indubitavelmente humanos, mas diferente de todos os outros humanos que Genly Ai conhecia. Eram ambissexuais, permaneciam num estado de inatividade, somer, completamente andrógenos, até entrar no cio, kemmer, onde ao final do processo poderia assumir dependendo de circunstâncias específicas uma dominância masculina ou feminina. Um mesmo getheniano poderia ser pai de uma criança e mãe de outra, sem que haja dominância da parte desse indivíduo entre os comportamentos, assim como considerado por Aí e nós como masculinos ou femininos.

As implicações psicológicas da condição sexual getheniana não são desprezadas pela autora que, pela voz de Ai e outros estrangeiros, questiona a condição específica da formação da psique daquele tipo de humano. Uma questão levantada é que o complexo de Édipo não faz sentido entre os gethenianos, pois "não existe nenhuma divisão em metades forte e fraca (...), ativa e passiva", ou macho e fêmea como sexos permanentes. Neste sentido, não existe sexo sem consentimento, pois todos estão na mesma condição até definirem para o masculino ou feminino.

Neste sentido, a experiência do gênero não está mediada por relações de poder hierárquica, mas por uma estrutura equânime entre os indivíduos iguais do ponto de vista da sexualidade. Nas sociedades gethenianas, incesto entre irmão é permitido, vedado apenas o juramento de casamento monogâmico (kemmering), mas o incesto entre diferentes gerações da mesma família era expressamente proibido. A descendência dos indivíduos é matrilinear, reconhecida a partir da mãe, chamada de "genitor carnal" (amha). A apresentação desse estudo sobre o parentesco e a sexualidade dos gethenianos é conduzido pela autora como uma introdução em temas importantes de interseção entre a antropologia e a psicanálise.

O fato de Genly Ai ser um indivíduo permanentemente macho era ser visto como uma aberração, um "pervertido". A condição sexual permanente dos humanos não-gethenianos causavam desprezo e repulsa na maior parte dos gethenianos. Em diversos momentos da trama, Ai também expressa sua repulsa a condição sexual getheniana. Em um dos momentos chave de sua jornada, Ai assume abertamente seu preconceito para Estraven: "não queria oferecer minha confiança, minha amizade a um homem que era mulher, uma mulher que era homem". A jornada empática de Genly Ai é compreender o que é ser getheniano, ao passo que busca solucionar as questões políticas que envolvem a sua missão de aliar Gethen ao Ekumen.

Durante a jornada pelo gelo Ai obtém uma compreensão ampliada da cultura getheniana: o intenso convívio entre Ai e Estraven, inclusive durante o kemmer do último, faz com que eles consigam compartilhar um laço telepático (mindspeak), levando Ai a compreender e aceita a natureza dupla da sexualidade de Estraven. As sociedades gethenianas em seu funcionamento diário são assexuadas (somer), os indivíduos não são neutros, mas potencialidades integrais, macho-fêmea. Genly Ai gradualmente se afasta do comportamento "masculino" e, ao longo do romance, se torna mais integral ou andrógeno (somer), assumindo um comportamento menos racionalista, e mais paciente e afetivo.

Conclusão

O romance nos faz pensar muitas questões sobre o outro, a alteridade, as diferenças entre os gêneros e o persistente tema da dualidade na cultura ocidental. Assim como diz a canção getheniana: a "luz é a mão esquerda da escuridão e escuridão, a mão direita da luz". Uma temática que possibilita uma alusão ao yin e yang, onde a referência a cultura oriental apresenta uma solução para a perspectiva polarizada da cultura ocidental marcada pela dualidade de opostos. A condição de integralidade homem-mulher e o reflexo disso na cultura getheniana são expressões da crítica da autora com relação a as temáticas da cultura e do gênero.

Apesar do romance apresentar uma raça de humanos em que quase não há influência social sobre a sexualidade dos indivíduos, a trajetória de Ai demonstra que apenas o mergulho intensivo nos significados compartilhados, na linguagem e na cultura gethenianas que possibilitaram a superação da barreira entre ele e os alienígenas. A primazia do elemento cultural e não do biológico sobre o comportamento se confirma na transformação de Genly Ai, que mesmo sob a condição permanente de macho, consegue compreender a condição getheniana e modificar seu comportamento ao ponto de se tornar o mais próximo que um humano não-getheniano pode chegar de um nativo.


Revista Menó, nº. 3/2021 (out/nov/dez).

 
 
 
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