Por Gabrielle Venancio da Silva (Skia) Na obra intitulada “Borderlands/La Frontera: The New Mestiza”, no capítulo “La conciencia de la mestiza/rumo a uma nova consciência", a teórica cultural Gloria Anzaldúa apresenta seu conceito de consciência mestiça, trazendo em seu texto as problemáticas envolvendo questões históricas, culturais e políticas de sua vivência enquanto um corpo queer feminino, mestiço e chicano.
A autora apresenta suas considerações através de seus subtítulos, construindo uma narrativa através da estrutura de seu texto que, ora se inicia com poesias de sua própria autoria e ora com citações de suas referências bibliográficas, de forma um tanto quanto inédita, para um texto acadêmico.
Gloria nos traz a visão do lugar do mestiço, trazendo analogias em relação ao qual sua subjetividade enquanto mulher de origem mexicana e lésbica. Esses lugares pelo qual a autora perpassa são base para recurso argumentativo e ilustrativo de um não, e ao mesmo tempo, todos os lugares. Dessa forma, a autora faz com que o leitor reflita sobre todos os corpos que podem assumir esse local de mestiçagem, principalmente mulheres latino-americanas.
Como mestiça, eu não tenho país, minha terra natal me despejou; no entanto, todos os países são meus porque eu sou a irmã ou a amante em potencial de todas as mulheres. (Como uma lésbica não tenho raça, meu próprio povo me rejeita; mas sou de todas as raças porque a queer em mim existe em todas as raças.) Sou sem cultura porque, como uma feminista, desafio as crenças culturais/religiosas coletivas de origem masculina dos indo-hispânicos e anglos; entretanto, tenho cultura porque estou participando da criação de uma outra cultura, uma nova história para explicar o mundo e a nossa participação nele, um novo sistema de valores com imagens e símbolos que nos conectam um/a ao/à outro/a e ao planeta. Soy un amasamiento, sou um ato de juntar e unir que não apenas produz uma criatura tanto da luz como da escuridão, mas também uma criatura que questiona as definições de luz e de escuro e dá-lhes novos significados (ANZALDÚA, 2005. p. 707).
O resgate histórico da autora é preciso e detalhado, trazendo registros da dominação colonial e cristã para com os chicanos e a América latina em geral, apontando as raízes do machismo e homofobia através dos mesmos, Gloria faz um levantamento , através de uma reflexão, sobre o padrão de masculinidade tóxica antiga da atual. Também nos apresenta reflexões sobre conceitos e figuras epistêmicas negligenciadas e demonizadas pelos brancos/ cristões, cotidianamente e academicamente: A encruzilhada e Exu, pincelando, dessa forma a cultura Yorubá, a diáspora africana, os pretos e mestiços que são tocados por essa linguagem e representação.
É importante destacar também a importância da terra - direito negado a muitos latino americanos, desde os genocídios de vários povos indígenas pelo continente, à diáspora africana, até os dias de hoje- em “La conciencia de la mestiza/rumo a uma nova consciência". Através de suas memórias, ela articula com as demandas já narradas anteriormente, apresentando agora em uma visão territorial, a terra enquanto espaço físico, de onde se tira o alimento e a terra enquanto espaço político, de apagamento, de neocolônia.
Desse modo, polida, porém cativa, faz um apelo enquanto lança críticas e convida aos brancos para que reconheçam o seu local na luta pelos direitos, um local de assistência, sem protagonismo. Assim como convida a todos mestiços que reconheçam os locais e situações onde não possuem passibilidade para ocupar enquanto representação, de forma doce, original e única.
Referências:
ANZALDÚA, Gloria. “La conciencia de la mestiza/rumo a uma nova consciência". Florianópolis: Revista Estudos Feministas, 2005, p. 704-719.
Ficha técnica:Encontro com Rama é um romance de ficção científica escrito por Arthur Charles Clarke que aborda o encontro da humanidade com um misterioso artefato alienígena que entra no sistema solar. A princípio os cientistas pensam que o imenso objeto é um asteroide com potencial para extinguir toda vida na terra, mas a medida em que o objeto se aproxima, descobrem que é algo muito mais intrigante e surpreendente. O livro foi lançado no Brasil, em 2011, pela Editora Aleph, e está na sua terceira edição (2020), com a tradução de Susana L. de Alexandria, a capa de Mateus Acioli, revisão de Hebe Ester Lucas e Isabela Talarico.
Mini BIO
Arthur Charles Clarke nasceu na cidade de Minehead, na Inglaterra, em 16 de dezembro de 1917. Desde a infância se interessou por revistas de ficção científica, como a Amazing Stories, e durante a adolescência construir o seu próprio telescópio. Em 1934, aos 16 anos, associou-se a British Interplanetary Society (BIS), começou a escrever para o boletim informativo da BIS e ficção científica sob o pseudônimo "Ego", "Arthur Ego Clarke" ou "E.G.O’Brien". Durante a Segunda Guerra Mundial, como oficial da Força Aérea Real Inglesa (RAF), Clarke esteve encarregado da pesquisa do primeiro equipamento de controle de aproximação por radar.
Em 1946, após o fim da guerra, publicou um artigo científico na revista Wireless World intitulado Extra-terrestrial Relays, o qual estabelece os princípios da comunicação usando satélites em órbita geoestacionária. Ingressa no King’s College London para formar-se em física e matemática, graduando-se no ano 1948. No mesmo ano, escreve sua primeira novela de ficção científica, a Prelude to Space, baseada nos estudos de sua graduação, mas que só foi publicada em 1951.
Durante a década de 1950 publica dois livros: um livro de caráter técnico-científico, Interplanetary Flight: An Introduction to Astronautics, e uma ficção científica, "Fim da Infância". Este último, muito aclamado pela crítica, o torna autor famoso como escritor de ficção. Clarke era mergulhador e, em parceria com Mike Wilson and Rodney Jonklaas, realizou o documentário The Reefs of Taprobane, filmesobre suas explorações submarinas na costa do Sri Lanka, lugar onde residiu por cinco décadas. Também publicou o livro The Challenge of the Sea, que influenciou a NASA a introduzir o mergulho como parte do treinamento de seus astronautas. Em 1964, juntamente com Stanley Kubrick, começa a trabalhar em um filme de ficção científica que veio a se chamar "2001: Uma Odisseia no Espaço".
Em julho de 1969, junto com Walter Cronkite, cobriu ao vivo na televisão o primeiro pouso do homem na lua. Em 1973, publica "Encontro com Rama", romance que foi aclamado pela crítica e ganhou sete prêmios de ficção científica, dentre eles o Nebula Award. Sobre o livro, John Leonard, do jornal The New York Times, escreveu que embora achasse Clarke "positivamente indiferente às sutilezas da caracterização" dos personagens, seu romance era incrível por transmitir "aquele toque arrepiante do alienígena, do pouco conhecido, que distingue a ficção científica em sua forma mais técnica e imaginativa". Clarck publicou dezenas de outros títulos antes de falecer, em 2008, aos 90 anos, consagrado como um dos maiores escritores de ficção científica de todos os tempos.
Capa da 1ª edição britânica
A recepção
"Encontro com Rama" superou todas as expectativas e, logo após sua publicação, tornou-se um dos livros ficcionais mais importantes de Clarke, tendo chegado ao topo das maiores premiações para novelas do gênero. A sombra de "2001: Uma Odisseia no Espaço", considerado naquele momento uma história insuperável pelos críticos e leitores, houve certa cobrança sobre Clarke e especulações com relação a sua mais nova produção. Porém, em 1973, no ano de sua publicação, o livro ganhou o Nebula, um dos prêmios mais relevantes da ficção científica, e o prêmio da Associação Britânica de Ficção Científica.
Prêmio Nebula de Arthur C. Clarke
No ano seguinte, ganhou mais quatro prêmios de melhor novela de ficção científica: Hugo, Jupiter, Memorial de John W. Campbell e Locus. E, em 1980, recebeu o Seiun, prêmio da literatura japonesa para ficção científica, consagrando Clarke como escritor de relevância internacional. "Encontro com Rama" acumulou um total de sete prêmios como melhor novela de ficção científica e tornou-se o livro do escritor mais aclamado pela crítica.
No mês em que foi publicado nos EUA, em 22 de agosto de 1973, John Leonard, resenhista do New York Times, escreveu uma crítica sobre dois lançamentos de ficção: "Encontro com Rama" e Tima Enough for Love, de Robert Heinlein. Sobre o livro de Clarke, considerou que o autor não escreveu algo tão ambicioso quando seu primeiro grande romance, "O Fim da Infância", mas pegou um "problema formal na melhor tradição da ficção científica (...) e trabalhou como se fosse um acordeon, conseguindo uma bela melodia". Leonard destaca que Clarke é positivamente "indiferente às sutilezas da caracterização", deixando de lado os personagens para focar em uma ficção científica na sua forma imaginativa mais técnica.
Mark Wilson, colunista do About.com, destaca que o realismo da narrativa de Clarke sacrifica os personagens em prol de Rama: "a única entidade realmente interessante". Porém, a história "é infalível quando tomada como uma exploração inventiva de como um mundo interestelar artificial poderia funcionar e como seria tratado pela humanidade". Neste sentido, Leonard destaca uma das possíveis razões para o romance ter sido tão aclamado no meio da ficção científica: o realismo da narrativa faz parecer verossímil a história, oferecendo uma especulação para como é a vida lá fora e como ela pode ter colonizado a galáxia.
Durante a década de 1970, apesar da conjuntura de crise nos programas aeroespaciais das duas grandes potências mundiais, EUA e URSS, a humanidade permanecia assombrada com as descobertas sobre o universo das últimas década, especialmente as viagens espaciais e o pouso na Lua, narrado ao vivo pelo próprio Clarke na TV. Apesar disso, na década de 1970, Stephen Hawking desenvolveu suas teorias sobre os buracos negros, e Carl Sagan montou a primeira mensagem física enviada ao espaço fixada na sonda espacial Pioneer 10, lançada em 1972, e uma mensagem mais elaborada foi enviada nas sondas espaciais Voyager 1 e Voyager 2, em 1977.
Foi também nessa contexto, em 1972, que o então presidente estadunidense Richard Nixon e o primeiro-ministro soviético Alexei Kosygin assinaram um acordo convocando uma missão espacial conjunta e declarando a intenção de que todas as futuras naves espaciais tripuladas fossem capazes de acoplar umas às outras. A missão ocorreu em julho de 1975 e seria o último voo espacial humano dos Estados Unidos até o primeiro voo do ônibus espacial, em abril de 1981. Apesar da década não ter sido marcada por grandes avanços do homem na fronteira espacial, a curiosidade científica pelo o universo e, especialmente, pela possibilidade de vida em outros lugares da galáxia permaneciam pujantes.
O mistério de Rama
A história se passa no século XXII, período em que a humanidade já teria colonizado grande parte do sistema solar. A narrativa apresenta um fato que teria mudado a mentalidade da humanidade com relação a ela mesma e sua posição no universo: em 2077, um meteoro caiu na Europa matando 600 mil pessoas, destruindo as cidades de Pádua, Verona e Veneza, e causando um prejuízo estimado em 1 trilhão de dólares. A possibilidade de novas colisões teria unido a humanidade no projeto Spaceguard, que pretendia ser uma linha de defesa espacial contra a ameaça de outros asteroides.
Então, em 2130, os radares do Spaceguard posicionados em Marte descobrem um novo "asteroide", catalogado no banco de dados como 31/439, com um tamanho excepcional de 40 km. Bill Stenton, operador do sistema, só teria descoberto o objeto no dia seguinte ao analisar as informações armazenadas no banco de dados. Stenton batizou o objeto de Rama, um dos avatares de Vishnu, deus Hindu responsável pela conservação e sustentação da vida no mundo. Curiosamente, Rama parecia girar muito rápido, o que era bastante incomum para um objeto tão grande. A hipótese inicial era que Rama poderia ser parte de uma estrela implodida, um sol morto, mas nenhuma massa de dimensão estelar poderia penetrar tão fundo no sistema solar sem ser percebida a muito tempo.
Após a descoberta, o Conselho Consultivo Espacial se reuniu e decidiu lançar uma sonda espacial para mapear e identificar suposto asteroide. Nas primeiras imagens descobrem que Rama era um objeto cilíndrico uniforme de superfície cinza opaca e geometricamente perfeito. Outra conclusão era que Rama seria leve demais para ser sólido e, provavelmente, devia ser oco. Ou seja, era impossível que Rama fosse um objeto natural, como os cientistas haviam suposto anteriormente. "O encontro, tão esperado e tão temido, finalmente ocorrera. A humanidade estava prestes a receber seu primeiro visitante das estrelas".
Frente a conclusão de que Rama era um artefato alienígena, a humanidade decide enviar uma nave para pousar em sua superfície e investigar mais de perto. A Endeavour, nave do comandante Norton, é escolhida para realizar a aterrisagem mais importante da história da exploração espacial desde o pouso na Lua.
O interior de Rama
Após o pouso bem sucedido da Endeavour, um comitê científico formado na Terra decidiu por abrir o artefato, apesar da oposição de grupos alarmistas contrários. Assim, o comandante Norton e o tenente Karl Mercer formam a primeira equipe de atividade extraveicular com a missão de abrir uma escotilha para o interior de Rama. Ao entrar no artefato e se tornando o primeiro homem de toda a humanidade a contemplar as obras de uma civilização alienígena, Norton compara Rama a uma tumba, pois talvez fosse mais velho que a própria humanidade.
Rama desafiava dois dogmas da ciência: primeiro, que o universo era uma arena de forças titânicas e impessoais, como a gravitação, o magnetismo e a radiação; segundo, que era impossível para a vida atravessar o abismo interestelar. Porém, até aquele momento não haviam detectado vida em Rama, e o artefato mais parecia uma espécie de "arca espacial" (conceito que remota as ideias do cientista de foguetes russo Konstantin Tsiolkovski e do físico britânico J. D. Bernal).
A hipótese inicial dos cientistas era que Rama sustentaria uma ecologia para sobreviver no máximo 10 mil anos, tempo adequado ao transporte entre os sois apinhados no centro da galáxia, mas não num lugar como o sistema solar nos braços da espiral. Sendo assim, o artefato foi considerado um "navio abandonado", apesar de sua órbita estar apontada com precisão para o sistema solar.
O interior de Rama era como um pequeno mundo, com ar, clima, planícies, edificações e um mar que pareci ser composto de água em estado sólido, mas o local estava desabitado, tudo parecia novo e sem uso. Assim, a exploração do interior do artefato prosseguiu na medida em que este se aproximava cada vez mais a órbita do sol. Em sua aproximação o clima no interior de Rama começava a mudar, havia possibilidade de furações e o mar cilíndrico estava descongelando. Num dado momento, na parte sul do cilindro revelaram-se poderosos refletores que acenderam: "quem ou o que tinha acendido as luzes de Rama?".
Ovo cósmico
As mudanças no interior do artefato começavam a produzir novas hipóteses entre cientistas e exploradores. O historiador Lewis, membro do Comitê Científico de Rama, ao analisar o material enviado pelo comandante Norton e sua equipe, disse em tom conclusivo: "Rama é um ovo cósmico que está sendo chocado pelo calor do sol. A casca do ovo pode se romper a qualquer momento". O espaçonauta Rodrigo, da equipe do comandante Norton, crente da religião cosmo-cristeira, comparou Rama a Arca de Noé bíblica, enviada para salvar os que fossem dignos.
Com o degelo, perceberam que o mar cilíndrico não era feito de água, mas de uma espécie de sopa orgânica. Rama havia passado do estado anaeróbico para plantas fotossintéticas em 48h. A água estava viva: "cada colher de sopa continha milhares de microrganismos esféricos e unicelulares, semelhantes as primeiras formas de plâncton que existiram nos oceanos da terra". Em pouco tempo criaturas complexas começam a surgir, mas elas não eram semelhantes a vida terrestre, pareciam biômatos, um tipo de robô biológico.
Uma crise se instaura nos Planetas Unidos (Mercúrio, Terra, Lua, Marte, Ganimedes, Titã e Tritão) sobre o que fazer com o artefato, que parecia estar estabelecendo uma órbita no Sol. O embaixador de mercúrio assumiu um tom de alerta com relação a Rama, apresentando o artefato como um perigo iminente para a humanidade. Em meio à crise, antes de evacuar Rama, o capitão Norton abre um buraco nas construções hermeticamente fechadas e descobre o visual de objetos de um possível traje ramano, com três braços e três pernas.
Rama parecia acelerar, mas não havia qualquer propulsão visível, colocando em xeque a terceira lei de Newton. O artefato ia diretamente para o Sol, mas não era afetado pelo calor, envolto numa esfera perfeitamente refletora parecia apenas aproximar-se para aproveitar a energia da estrela. Ao atingir o periélio, ao contrário do que alguns acreditavam, Rama não estabeleceu órbita no Sol, mas lança-se em direção a Grande Nuvem de Magalhães.
Conclusão
Encontro com Rama é uma das obras primas de Arthur C. Clarke, não necessariamente pela excelência narrativa, em termos tradicionais, que segundo os críticos deixa a desejar na construção dos personagens, mas pela centralidade do objeto como personagem e elemento da trama. A narrativa do livro se desenrola análoga a pesquisa de um cientista sobre seu objeto de estudos, onde este lança perguntas e realiza descobertas graduais sem necessariamente chegar a conclusões definitivas, mas a perguntas cada vez mais complexas. Os personagens, como capitão Norton, os membros da sua equipe, os cientistas, diplomatas e políticos, são apenas coadjuvantes que instigam o olhar curioso do leitor sobre o artefato, o verdadeiro protagonista da novela.
Essa é uma das razões para Encontro com Rama ter tido uma recepção tão acalorada no meio literário da ficção científica, que durantes as décadas de 1960, 1970 e 1980, foi um espaço de vazão para especulações metafísicas que não cabiam no campo acadêmico-científico. A temática do livro atendia a uma curiosidade corrente dos cientistas e do público, intuindo a possibilidade de respostas para perguntas que que a humanidade estava se fazendo: existe vida fora da Terra? Como seria a vida fora da Terra? É possível a vida viajar pelo universo?
A novela consegue captar todo esse clima de expectativas gerados pelas recentes descobertas e conquistas da humanidade com relação a fronteira espacial. Também lança um olhar sobre a humanidade unificada em prol de um bem comum e razões maiores, o que traduz o desejo global de arrefecimento do clima beligerante estabelecido durante a guerra fria.
Revista Menó: Conte-nos um pouco da história da Livraria YorùBar: Como surgiu? Quem são as pessoas que trabalham no projeto? Como é dirigir uma livraria independente?
Livraria YorùBar: Bom, nós trabalhamos com livros há muito tempo… fundamos a Livraria Soletrando, que funciona até hoje no centro de Niterói. No entanto, constatamos a necessidade de um espaço que não seja só uma livraria, mas um espaço cultural, próximo a UFF. Um local que não seja uma mera livraria, mas sim um espaço de cultura, que seja referência a política cultural, resistência, debates, discussões, lançamentos de livros, e atividades culturais literárias de um modo geral. Essa demanda nos levou a tomar uma iniciativa.
Quanto às pessoas que trabalham no projeto, além de mim, José Cícero, que sou o idealizador e responsável pelo projeto, possuindo uma vasta experiência nesse ramo – mais de 40 anos trabalhando como livreiro – temos outros livreiros extremamente capacitados. Também contamos com a colaboração de alguns alunos da UFF, que a partir do retorno presencial, tentaremos firmar parcerias para construir uma relação conjunta, não só com a universidade, como com seu o corpo docente e discente, de um modo geral. Contamos muito com esse público – a comunidade acadêmica da UFF – para nos ajudar no sucesso do nosso projeto.
Dirigir uma livraria é difícil, obviamente, ainda mais por trabalhar especificamente com livros, em um país como o nosso, onde o hábito da leitura não é – infelizmente – incentivado, além da ausência de políticas públicas de incentivo à leitura e à cultura…, mas há um lado prazeroso: quem realmente gosta de livros passa a encarar essas dificuldades de forma serena, já que construímos relações, aprendemos e trabalhamos com que gostamos. No final, se torna uma atividade bastante prazerosa.
Revista Menó: Afinal, YorùBar é livraria, bar ou os dois? Como e por que dessa mistura?
Livraria YorùBar: Yorùbar é mais do que os dois. É mais que livraria e bar. A proposta é ser um espaço cultural, tendo a livraria com referência principal, mas que tem um serviço de bar, de café, onde as pessoas possam vir, tomar uma cerveja, um café, papear… E tem também as atividades, né? O espaço também está aberto para atividades culturais, como oficinas de dança afro e maracatu, iniciativas que visam incentivar a cultura afrobrasileira com parcerias que já iniciamos. Além disso, procuramos parcerias para eventos como: lançamentos de livros, palestras, debates e demais atividades literárias.
A mistura é extremamente necessária, né? Você agrega múltiplos valores e atividades em um único espaço… é uma boa mistura. Uma mistura de cultura e lazer, que é um caminho que várias livrarias hoje estão seguindo, e que tem dado certo. É um caminho que tende a fortalecer a livraria, se tornando multicultural.
Revista Menó: O local onde a loja física funciona, na Praça da Cantareira, ao lado da Universidade Federal Fluminense, é um local tradicional de cultura e resistência da cidade de Niterói/RJ. Nessa localidade, ao longo da história da cidade, foram realizadas várias iniciativas de eventos culturais, shows e manifestações. Como o projeto da Livraria YorùBar se encaixa nesse contexto?
Livraria YorùBar: Esse foi um dos motivos que escolhemos a praça Cantareira. É um local de efervescência cultural e política, devido à proximidade com a UFF e com essa juventude, representada pela maioria de seus alunos… Isso é fundamental. É importantíssimo, na nossa concepção, ter um espaço como esse aqui. Um espaço onde as pessoas possam compartilhar, participar, ter acesso a variados gêneros literários, possam tomar sua cerveja, possam discutir, possam se reunir…é um espaço participativo. Eu acho que ele só vem a complementar e fortalecer essa vocação da Cantareira, e só vem a somar e agregar mais valores a todas as atividades culturais e políticas que já acontecem aqui na cena local.
Revista Menó: Vocês consideram que as livrarias precisam integrar causas culturais e políticas ou o papel das livrarias é somente vender livros?
Livraria YorùBar: Não, nossa proposta inclusive é integrar. Acho que as livrarias devem ter uma função social, cultural e política. Nossa proposta é justamente não nos limitarmos a uma relação puramente comercial. Acho que as livrarias - respeitando o perfil de cada uma- devem ir muito além disso, elas têm uma contribuição cultural muito importante para dar.
Revista Menó: Como é ser uma livraria de rua nos dias de hoje? Vocês consideram que a concorrência da Amazon e outros sites de vendas online tem colaborado para a falência das livrarias físicas? Hoje é necessário também vender pela internet ou é possível sobreviver somente com vendas no local da loja física?
Livraria YorùBar: É difícil, mas se for uma livraria que tenha um atendimento personalizado, que tenha livreiros que de fato conheçam e que tenham uma relação mais orgânica com os livros e com as pessoas, dá certo. Nós somos, de certa forma, um exemplo disso. Conversamos com a clientela, indicamos títulos, temos amigos que frequentam o espaço, recebemos sugestões… então, penso que essa parceria entre o livreiro e o cliente é fundamental.
Quanto à questão das vendas online, infelizmente, não há a menor dúvida. A internet é um mercado muito amplo, oferecendo mais variedades, muitas vezes tendo ofertas melhores, o conforto do cliente não precisar sair de sua casa…O mercado virtual, de modo geral, é arrasador! E isso tem contribuído muito, tanto que, as grandes livrarias, como a saraiva; a cultura, a nobel e etc, passam por um momento muito difícil, quase em uma situação falimentar…, mas as livrarias de bairro têm ressurgido, exatamente por conta de seu caráter independente e mais personalizado. Elementos como a figura do livreiro presente – que as livrarias de grande porte, infelizmente, não têm – fazem com que as livrarias de rua ressurjam de uma forma mais autônoma, criativa e personalizada, se reconstruindo e redescobrindo o perfil das livrarias, voltando para o cenário cultural do mercado do livro.
Por outro lado, sem a internet, seria quase inviável a nossa sobrevivência. Do ponto de vista do lucro comercial, o que nos mantém hoje, são as vendas virtuais pelo site “estante virtual”.
Revista Menó: Como é ser uma livraria independente? Como as livrarias têm conseguido sobreviver nesse contexto desfavorável de ataques à cultura? Como a pandemia afetou a livraria?
Livraria YorùBar: Isso só aumenta o nosso compromisso, nossa responsabilidade. Sabemos que temos que trabalhar muito mais, que temos que ser muito mais. Ser mais atenciosos, mais conhecedor dos conteúdos dos livros, ter cuidado e respeito com o livro, e ter uma relação mais intrínseca com o público, para manter essa independência. Sem esses elementos, sem valorizar o livro e a figura do livreiro, essa independência fica bastante comprometida. Infelizmente, sobre o contexto político dos ataques à cultura, o país passa por um momento bastante tenebroso, digamos assim. A investida do governo federal contra a cultura, de forma geral, nos afeta e nos deixa receosos. Mas isso só fortalece o nosso espírito de resistência, pois faz com que lutemos muito mais para que esse estado das coisas mude, o mais breve o possível. Para que a cultura volte a ser respeitada e volte a ter seu espaço em relação a prática proposição de políticas públicas, como as de incentivo à leitura. Acho que essa fase obscura vai passar e a cultura vai voltar a ter seu local de destaque e a importância que lhe é devida.
A pandemia afetou drasticamente o cenário. Bastante. Muito. O que nos deu gás e manteve a nossa sobrevivência nesse período- e que ainda mantém, de certa forma- são as vendas virtuais. Se não fosse isso, dificilmente estaríamos com o espaço aberto.
Revista Menó: Qual o futuro das livrarias, na visão da Livraria YorùBar?
Livraria YorùBar: As livrarias terão que sempre se reinventar, terão sempre que criar outras atividades que venham de encontro ao livro. Não dá pra se limitar meramente a uma relação comercial. A figura do livreiro é importante, o estímulo a iniciativas e atividades culturais passam a ser fundamentais. As livrarias terão que se tornar ponto de encontro, ponto de referência cultural, para que possam agregar mais pessoas e sobreviver.
Revista Menó: Qual a mensagem que vocês deixam para todas as pessoas que amam os livros?
Livraria YorùBar: Parabéns! Só temos a agradecer a todos, porque são essas pessoas que nos fazem existir. E dizer, para todos que se interessarem, que o espaço Yorùbar está aberto, e que será um grande prazer contar com a presença delas aqui em nosso espaço.
Revista Menó: Na sua visão, o que é ser um livreiro?
Livraria YorùBar: Livreiro é ter uma relação orgânica e prazerosa com o livro. É procurar absorver, se não tudo, pelo menos fragmentos dos conhecimentos que você tem em torno de si – considerando que estamos rodeados de milhares de livros, lidamos com milhares de livros e com uma clientela mais sofisticada, no ponto de vista intelectual. Então, ser livreiro é você estar envolvido, de corpo e alma, nesse processo. É você não quer só vender o livro, é você conhecer o livro, conhecer o comprador do livro. Não se limitar a um mero decorador de títulos, é ter um conhecimento de conteúdo de livro.