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Um podcast para mim, um podcast para você, todos nós Perdidos na Paralaxe

Atualizado: 8 de mai.

Por Débora K. Fofano, Carlos Frederico Costa e Raquel R. Rocha


A maioria de nós descobriu os podcasts pela vontade de conhecer mais sobre um determinado assunto, de ouvir o que outras pessoas têm a dizer sobre algo, de distrair a cabeça com outros assuntos para além daqueles que povoam as mídias tradicionais. Muitos de nós também ouvimos porque queremos simplesmente estar mais informados, mas sem cair naquelas formas didáticas de aprender algo. O podcast se tornou uma companhia agradável e, especialmente durante a pandemia, criamos até um elo afetivo com os podcasters, além de uma rede de novas amizades a partir de grupos criados a partir dos podcasts. Além disso, é um formato que nos convida a simplesmente ouvir, algo que podemos fazer enquanto também executamos outras tarefas mecânicas, como caminhar, lavar louça, se deitar no sofá ou ficar apenas se balançando em uma rede.

Neste pequeno artigo partimos do princípio de que os leitores pelo menos já ouviram esse nome: podcast! Isso porque se você está em 2022, certamente já ouviu um, senão pelo menos sabe do que se trata e consegue conceber mais ou menos sua definição. Mas se não sabe, não tem problema, vem com a gente que te ensinamos e aí sim, seu 2022 vai começar de verdade!

De acordo com os números apresentados nas plataformas agregadoras de podcast, existe uma grande chance de muitos leitores terem um programa de podcast ou de pelo menos ter participado de um. A brincadeira na cena podcaster é de que todo ano é “o ano do podcast”, em especial após a inclusão desta mídia nas principais plataformas de áudio (como Spotify), que vem investindo pesado em programas exclusivos ou adquirindo direitos de exclusividade de programas de sucesso, sem falar nos podcasts de veículos da mídia tradicional como a Folha de São Paulo, Rádio CBN, dentre outras.

Independentemente do formato ou temática, o grande atrativo desta mídia é, sem dúvida, sua linguagem (com exceção dos programas de narração de histórias, de estilo próximo às radionovelas, por exemplo). E assim, pela paixão por esse formato de comunicação maravilhoso, que percebemos um potencial enorme de levar a filosofia (outra grande paixão nossa) de forma leve e descontraída pelos sete cantos da podosfera.

– Amo podcast, quero ter um, mas só sei falar de filosofia! – Disse a Débora para o Freddy no começo de 2020. A primeira preocupação que tivemos foi sobre como criar um programa para abordar filosofia de uma forma acessível, mas sem perder o rigor do pensamento, ou melhor: sem perder a profundidade da filosofia e sem perder o bom humor. É aí que entra a ideia de pensar um projeto que usasse a cultura pop como desculpa para falar de filosofia, que conseguisse ser mais profundo em suas análises do que trabalhar em cima de opiniões, mas sem criar uma sensação de aula. Por isso, a dinâmica de uma conversa aparentemente informal nos soou mais natural e atrativa, evocando mais à atmosfera dos bons encontros com amigos em torno do café ou de um barzinho para debater sobre as coisas que a gente gosta, como filmes, literatura, músicas e atravessar isso com filosofia de forma até despretensiosa. Assim surgiu o Perdidos na Paralaxe[1], cujo nome do programa já nos remete a um conceito filosófico (paralaxe) e a ideia de que perdidos nesse conceito podemos juntar a cultura pop, filosofia e outros temas aleatórios que fazem parte do nosso cotidiano.

Por falarmos sobre filosofia, é comum que, em um primeiro momento, associem o programa a um formato de programa que lembra a sala de aula. A ideia de um podcast ser a extensão da sala de aula existe e é até interessante, sendo aplicada muito bem em outros programas, mas não foi o nosso foco. Há uma dicotômica interessante que as artes em geral enfrentam, elas podem ensinar muito quando não pretendem fazer isso, uma vez que desconstroem os paradigmas didáticos e metodológicos que o rigor acadêmico exige. Aprendemos muito a partir das experiências estéticas, com filmes, séries, peças, músicas, assuntos debatidos nas redes sociais. No entanto, caso essas experiências tivessem a objetiva intenção de ensinar, talvez não nos apetecesse tanto.

É isso que muito pretensiosamente tentamos fazer nos nossos episódios: falar de coisas interessantes sem pretensão didáticas, porém, sem dúvida, trazemos muito conteúdo filosófico e aleatoriedades que nos fazem pensar e conhecer um bocado de coisas. Encontramos na podosfera a paralaxe ideal para nos perdemos com a filosofia, a cultura pop e os vários assuntos aleatórios que conversamos com nossos amigos. Nesse caso, adotamos a vontade de fazer um podcast que é a extensão de um encontro entre amigos.

Achamos interessante tensionar isso, para diferenciar o trabalho do podcaster do trabalho do professor. Porque fazer podcast é muito trabalhoso e não podemos exigir que agora o professor tenha mais essa prerrogativa como uma atribuição sua. Podcast e sala de aula são espaços diferentes, que podem, de fato, se somarem enquanto experiência estética-educativa, mas não podemos normatizar que um podcast se coloque lado a lado com o papel da sala de aula na vida das pessoas. Até porque assim como programas de rádio e televisão, o podcast está dentro de uma esfera do entretenimento que pode ou não alienar o seu público, pode ou não promover debates mais instrutivos, do ponto de vista educacional.

Todavia, não se engane! Embora não exista aparentemente uma proposta pedagógica em nosso programa, possuímos um método para construir os episódios, o que nos faz gastar muitas horas por semana em um trabalho, diga-se de passagem ainda incipiente, do ponto de vista da remuneração. Para produzir os episódios e nortear a discussão, precisamos elaborar uma pauta que é construída coletivamente entre o elenco fixo e convidados. A pauta normalmente inicia com a definição do tema, que pode ir de uma obra literária a um release de um filme ou ainda o contexto histórico do assunto a ser abordado. A partir daí, é preciso construir a imagem do assunto até para aqueles que não o conhecem, permitindo que todos possam ouvir o programa sem se sentir à parte na questão. Em seguida pesquisamos exaustivamente sobre o tema, marcamos o dia e nos encontramos virtualmente para gravar o episódio. Depois vem toda a parte de pós-produção, que inclui edição, revisão e distribuição. Procuramos divulgar bastante, na intenção de romper a nossa bolha meramente acadêmica, pois nosso grande objetivo é falar de filosofia de modo que a sociedade em geral compreenda e para isso, nada melhor que a cultura pop.

Nesse sentido, voltamos ao assunto da linguagem. Partindo do princípio de que somos escutados por um público heterogêneo, curioso e que não necessariamente possui conhecimento filosófico prévio, há uma preocupação sobre como explanar questões complexas e como quebrar algumas ideias preconcebidas de que a filosofia é assunto para poucos. A ideia é que os conceitos jogados ao ar sejam explicados pelos participantes e explorado durante o episódio ou caso algum passe algum conceito despercebido, inserimos o quadro “Qual é o conceito?” no momento da edição para que tudo fique explicadinho. Dúvidas ao fim do episódio são normais, mas não queremos que elas não sejam geradas por floreios conceituais confusos. Aliás, são as dúvidas e sugestões que fazem a gente pensar em mais episódios (e não é assim com a própria filosofia?!) e também despertam o interesse de quem está nos ouvindo.

Acreditamos que de fato, é possível aprender com podcasts, mas no nosso caso, este não necessariamente é o objetivo, tampouco o resultado. O principal e mais importante feedback que recebemos dos ouvintes é sobre quererem saber mais sobre os assuntos, a procura pelos textos, livros ou filmes que indicamos, tudo que complemente e enriqueça sobre os tópicos que levantamos. A consequência é o despertar do interesse filosófico, a geração de debates, o estímulo à leitura e à pesquisa e isso nos deixa muito satisfeitos. É assim, Perdidos na Paralaxe de temas, ideias, filosofias e cultura pop que nos encontramos na podosfera e procuramos nos conectar com quem nos ouve. Ao entrar na vida das pessoas através do podcast queremos que elas tenham a mesma satisfação e companhia afetiva que temos com os podcasts que aprendemos a amar.


[1] A nossa página no instagram é: @perdidosnaparalaxe

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