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Suicídio em 1° de maio

Por Camila Lopes


Era apenas um homem comum quando levantou de manhã prestes a calçar seus sapatos quase não convencido de que suas horas eram melhor aproveitadas garantindo sorrisos preenchidos de prazer que o dinheiro jamais poderia comprar. Ao pensar nos seus chefes, pensou em seu emprego, lembrou do cansaço que sentia e do crescimento notável que os donos da empresa se vangloriam, como se fosse deles o trabalho empregado para gerar tanta riqueza. “Ivan, os ricos tiram seu mérito do gerenciamento da exploração, nada mais!”. Dizia o seu avô quando ainda estava vivo, depois de contar alguma história do antigo emprego em uma indústria têxtil, que se localizava no Barreto, Niterói. Grande Rio de Janeiro! Palco de grandes revoltas e lamentações, todo bom carioca gosta de contar história.

Recordando-se da frase de seu avô e dos motivos que o levaram a tal recordação, perguntou-se: mas e a crise? Em casa não entra mais carne (apenas nos churrascos de domingo) porém meus patrões se gabam do crescimento anual? Bom, a anunciação foi feita sob festa, bebida liberada, banda, a Patrícia e o Cláudio (que são do mesmo setor) se beijando escondido no jardim do salão e um breve entretenimento silenciador de questões principais. A amnésia alcoólica do dia seguinte serviria a um grande expurgo mental que coloca qualquer síndrome de Burnout no chinelo, as pélvis frementes, a agitação das palavras soltas pelo ar, pessoas loucas e felizes, espontâneas, relaxando os corpos cansados liberando fluidos, soltando suas articulações enferrujadas de rotina. Tudo imerso na mais barata distração. Após entreterem-se, os funcionários vão para casa assistir ao jornal ouvindo falar dos problemas diários como se fossem distantes, como se tivessem em outro país, nada demais ou até mesmo muito relevantes para gerar uma revolta aprisionada curada em terapia ou postagens fora do tom nas redes sociais.

Não só o entretenimento era silencioso, mas os gestos, as formas, as intenções por trás das relações daquelas pessoas dentro do prédio. Tudo era motivo para se desconfiar, qualquer deslize em ambientes de trabalho pode virar seu fim, as fofocas têm que ser planificadas, seus movimentos calculados.

No dia 1° de maio, Ivan suicidou-se. Mas não temos com o que nos preocupar, porque doeu um pouco. Antes o entretenimento adormeceu-lhe, as drogas anestesiaram-lhe, e a rotina esvaziou seu poder de criação, tornando Ivan mais um receptáculo da alienação.


Revista Menó, nº. 3/2021 (out/nov/dez).

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