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Podcasts como instrumento educacional no contexto pandêmico



Ao iniciar o ano de 2020, fui contratado para atuar como docente da escola universitária Geraldo Reis, colégio de aplicação da Universidade Federal Fluminense (UFF), como professor substituto para ministrar a disciplina de História. Fui surpreendido, assim como todos, pela chegada da pandemia ao país e a decretação do estado de emergência. Essa experiência de escola “normal” durou apenas 31 dias, o resto foi distopia, desorientação e incerteza, até que... Novo normal.

No momento em que o Brasil começava a registrar os primeiros casos de Covid-19 e a presença física na escola era não somente evitada, mas desaconselhável. Desta forma, foi necessário organizar as atividades regulares da escola por meio de plataformas digitais no formato de ensino remoto emergencial (ERE).

Passado o susto inicial e a desorientação que a pandemia havia causado em todas as pessoas, provocando as primeiras mortes e desarticulando a economia, começamos como comunidade escolar a nos organizar para pensar o que fazer - se é que aquele era o momento de se fazer algo ou se fundamental não era esperar - e como o fazer. É preciso lembrar que, primeiramente, em diversas redes de ensino nos mais variados estados, ainda reinava a confusão, e mesmo os que começavam a se organizar para viabilizar algum tipo de retomada, as condições materiais das unidades e redes (recursos) era precária face ao tamanho do desafio. Posteriormente, cabe lembrar a primazia da direção da unidade ao ser propositiva quanto à retomada das atividades e fomentar as discussões acerca das ações a serem empreendidas e, principalmente, no colegiado, instância decisória máxima da unidade.

Uma das maiores preocupações, entre tantas, era a efetivação da inclusão dos estudantes que são público alvo da educação especial. As ações pedagógicas na educação presencial e regular de crianças neurotípicas por vezes já esbarram em obstáculos diversos, quanto mais a desses estudantes por suas características e que necessitam de atendimento especializado. Logo, todas as limitações do dia a dia foram amplificadas pelo distanciamento forçado causado pelo estado de emergência decretado em função da pandemia. Ainda nos primeiros instantes de recepção na unidade, fui informado que estaria em uma das turmas do Ensino Fundamental 1 (F1) com um estudante, que daqui em diante chamarei de “B”, com deficiência visual total, associada e em decorrência de seu quadro de síndrome de Dandy Walker, ou seja, uma má formação de estruturas cerebrais que tornou a instrução do estudante um desafio, porque já tendo nascido com a síndrome, possui déficit cognitivo, que lhe dificulta o raciocínio e a memória, e limitações motoras, que lhe dificultam a escrita e a mobilidade. E por outro lado, porque, ao ser submetido a um procedimento cirúrgico a fim de sanar acúmulo de líquido intracraniano - que é uma característica deste quadro -, como consequência do procedimento acometeu-lhe a perda gradativa de sua visão. Ou seja, para além das dificuldades já postas à educação do pequeno, sua cegueira na segunda infância, associada a todos os outros aspectos, tornou sua instrução na língua braille quase impossível.

Os desafios fazem parte da função docente e, apesar de tantas dificuldades, o estudante não sofreu nenhum dano aos seus canais auditivos e portanto, sua capacidade auditiva estava mantida. Estavam abertos os canais - desculpem o trocadilho - para viabilizar, dentro de todos os limites já expostos, sua educação. Agora era o caso de saber como. Por sorte, ao decidirmos (todo corpo docente) em consenso, ainda que não unânime, pelo retorno das atividades de maneira remota, foi decidido também retomarmos as atividades de pesquisa e extensão que são desenvolvidas na unidade, como os projetos de monitoria e pesquisa júnior (PIBIC Jr.), com a cessão de bolsas aos estudantes envolvidos. Vimos aí uma oportunidade de produzir material para utilização na educação deste sujeito, constituir uma “audioteca” com acervo mínimo para atender este objetivo, envolver os estudantes com a educação inclusiva e, por fim, tornar a inclusão uma prática efetiva da comunidade escolar, e não apenas um atributo da direção imposto por força de lei.

O formato escolhido para desenvolvimento dos materiais tanto para o estudante, assim como para os seus colegas que com ele viessem com ele interagir, foi o podcast.

Tal ferramenta se trata de uma mídia sonora, disponibilizada em formato digital que se assemelha ao mesmo tempo às músicas digitais presentes nos programas tocadores de celulares, nos tocadores dedicados de PCs e aos programas de rádio. Podemos tratar sobre assuntos variados como clima, cultura, culinária, esportes e até música. No entanto, o podcast se diferencia do rádio, digital ou não, pela sua assincronia, ou seja, não está sendo apresentado no momento em que o ouvinte o acessa via plataformas. Podem ser interrompidas e retomadas sua execução a qualquer momento e, em diversos casos, podem ser baixados e armazenados pelos usuários.

Para tal empreitada, duas colegas, Gisele dos Santos Miranda, Thayane Azevedo Pereira e eu nos articulamos e compusemos uma proposta de pesquisa, submetendo-a ao setor de pesquisa da referida unidade, sendo aprovada com a concessão de quatro bolsas. Contudo, nenhum de nós tinha larga experiência com essas mídias e apenas eu havia tido breves experiências com áudio, por ter integrado uma banda de igreja e uma única produção de conteúdo similar ao podcast produzido para uma disciplina de Divulgação Científica da faculdade de História. Foi nesta oportunidade que comecei a editar áudio com software open source (programas de código aberto) Audacity.

Ainda era pouco, e por isso fomos investigar como se faz podcasts. E depois, como profissionais da educação, refletimos como eles se inserem no meio pedagógico. Primeiramente, pensando esta estratégia com objetivo primeiro a viabilidade de seu emprego junto ao nosso estudante alvo, consultamos um “manual” para produção e distribuição destas mídias. Este material estava sendo distribuído gratuitamente em redes sociais, bastando para tanto cadastrar um endereço de e-mail válido.

Ao pesquisarmos o assunto na internet, encontramos um relato de experiência em uma escola em Manaus. Foi uma grata surpresa, pois estavam ali expostos técnicas e espaços que teríamos disponível para o uso, se o contexto da pandemia não atrapalhasse mais. De toda forma, o trabalho acima ainda trazia mais uma contribuição que era a referência a outro texto sobre produção de podcasts à distância, uma das primeiras no Brasil. Porquanto, estávamos munidos de certo material teórico/prático que ajudariam a nortear o trabalho. Era hora de fazer podcasts. Nascia assim o projeto Luz dos Olhos. Começamos, após a aprovação do projeto, lançando o edital, aplicando um questionário on-line e por fim realizando entrevistas individualizadas também de maneira remota e síncrona, foi por meio dessas três etapas inscrição, formulário digital e entrevista, que selecionamos os quatro estudantes que obtiveram a maior média de notas. A proposta do projeto era de constituir uma verdadeira oficina de produção de podcasts e, para tanto, estabelecemos 6 objetivos: 1) pesquisa de assuntos, conteúdos e colegas dispostos a orientar os estudantes em dúvidas em suas respectivas áreas. 2) produção de roteiros sob orientação docente. 3) gravação e conversão de formatos de áudio. 4) edição. 5) compartilhamento dos materiais confeccionados. 6) apresentar os resultados em evento específico dentro da agenda acadêmica da Universidade Federal Fluminense. Tudo isso imaginando que em breve retornaríamos às atividades presenciais. O projeto exigiu, para além da orientação aos bolsistas, a articulação remota de todo o projeto, pois, apesar de haver a esperança da retomada das atividades presenciais, a continuidade da pandemia e da política de afastamento social nos forçou a este contingenciamento. Para nosso contentamento, obtivemos a ajuda de quatro voluntários que se somaram às ações do projeto, sendo duas colegas da disciplina de Língua Portuguesa e dois mediadores, sendo o AEE que acompanha nosso estudante. Esses voluntários foram atraídos pela crença na viabilidade e importância do projeto para a inclusão dos estudantes portadores de deficiência que necessitam de necessidades educacionais específicas. Atraídos por esta mídia e pelo potencial de transmissão de conhecimento, vieram aprender a fazer juntos. Contudo, com a permanência do estado de quarentena, todas as etapas se deram ainda remotamente.

Era importante que, devido ao distanciamento, os estudantes tivessem alguns recursos para realizar em suas casas as tarefas, bem como para que conseguissem participar das reuniões. Começamos com as reuniões de trabalho utilizando o programa Meet, do Google, em que todos fomos apresentados, lembrando que o “elemento estranho” à comunidade escolar era eu, o recém-chegado. Apresentamos a proposta da “audioteca” e seu emprego preferencialmente com “B”, o que todos acharam ótima iniciativa pois ele é muito querido na escola. Depois disso, iniciamos nossa ação pedagógica com os estudantes, incentivando-os a gravar áudios curtos sobre temas/matérias que mais gostavam, realizando uma breve pesquisa prévia. A partir daí, apresentamos as ferramentas de gravação e edição de áudio, tendo uma troca profícua, já que esta geração é muito alinhada às inovações tecnológicas e apesar de, às vezes, não saber utilizar da melhor forma, é aprendendo e ensinando. Após essa etapa demonstramos a importância de redigir roteiros para embasar o conteúdo e dotar-lhes de maior confiança na hora de gravar. Os voluntários foram instados a também produzirem suas gravações, no que resultou em verdadeiras surpresas como, por exemplo, o áudio da mediadora de “B”, que teve um trecho extraído e transformado na vinheta do projeto e um podcast da colega de Língua Portuguesa explicando o que são podcasts e que fez o maior sucesso.

A parte de edição, cortes, supressão de ruídos, inserção de trilha sonora e vinhetas ficaram a meu encargo. Apesar de os estagiários terem a capacidade para tal, provando suas aptidões nas oficinas deste projeto, a referida etapa é muito demorada. Eles possuíam para além das tarefas do projeto, as atividades da escola e os serviços domésticos que, como todos sabemos, se multiplicaram com a pandemia. Na verdade, para ser bem sincero, eu adoro fazer as edições.

Dois grandes problemas que enfrentamos foram: a distribuição dos podcasts para “B” e para os demais estudantes; como também obter o envolvimento da família do pequeno nas tarefas cotidianas da escola, bem como em ofertar os materiais desenvolvidos no projeto como material alternativo e adicional para sua aprendizagem. Quanto à primeira dificuldade ocasionada pelo prolongamento do estado de pandemia, foi pela falta do uso dos espaços físicos escolares como a sala da rádio da escola, bem como a sala de recursos audiovisuais, uma vez que, no planejamento inicial, prevíamos utilizá-los. Contudo, com o passar do tempo, nosso problema físico se expressou no virtual, pois não havia naquele momento, dentro da plataforma Quarentuni, uma seção que pudesse receber e armazenar os arquivos de áudio, bem como conseguir disponibilizá-los para download para os estudantes. Mas, com o incentivo do grupo de trabalho (GT) que geria a plataforma, decidimos utilizar a tecnologia RSS de distribuição de arquivos, que é o método de distribuição padrão, e para isso fizemos uma conta em um ecossistema digital de produção de conteúdo (SoundCloud) e sincronizamos-no com o AVE Quarentuni em uma seção que foi criada posteriormente para a finalidade de reproduzir podcasts. Quanto ao segundo problema, não obtivemos o mesmo sucesso, pois a família resistia em aceitar a condição de “B”. Esse obstáculo se mostrou intransponível, ainda mais devido ao afastamento físico entre a criança e a escola. Mas, de qualquer forma, os materiais permanecem na internet e , estão disponíveis para “B” e quem mais se interessar e quiser utilizá-los.

Das demais etapas a cumprir que nos propusemos no início do projeto, tinha a apresentação dele e de seus respectivos na Semana Acadêmica da Universidade Federal Fluminense, Instituição da qual a escola está ligada. A apresentação se realizou com relativa tranquilidade, à exceção de dificuldades com as tecnologias de videoconferência e internet. Atualmente, todos nós estamos sujeitos a isso.

Para finalizar, cabe destacar que, tendo cumprido esta última etapa, as bolsas destinadas a essa iniciativa, permaneceram para serem utilizadas pela escola, porém, tiveram tempo reduzido devido ao período sem aulas, mas foram pagas até dezembro após a apresentação e enquanto duraram as atividades. Como frutos do projeto surgiram outras produções: o perfil do projeto Luz dos Olhos na plataforma que hospeda os podcasts continua ativo e disponível; tivemos uma publicação de breve relato da experiência para a revista da Universidade (Revista Pibiquinho UFF-2020), destinada a estes projetos; um capítulo de livro aprovado para publicação pelo Instituto Benjamin Constant (IBC) que ainda está no prelo; o minidoc “Difícil falar dela”, inspirado na experiência de educação inclusiva, que teve a minha sobrinha autista como protagonista; e por fim, o presente ensaio a que vocês acabaram de ler.


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