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Os MEIS caminhos que estão se abrindo…

Ser ou não ser empreendedor. Todo mundo que trabalha por conta própria é empreendedor? Todos podem ser empreendedores? Empreendedorismo é causa ou solução da desigualdade? Respostas que precisamos ter para enfrentar novos problemas contemporâneos.

Uma das palavras mais faladas nos últimos cinco anos é em-pre-en-de-do-ris-mo. Palavrão que às vezes até enrola na hora de falar.

Se falar a palavra já é complicado, imagina explicar seus significados.

Alguns acham que pode ser a capacidade de ter ideias inovadoras ou arriscadas, outros pensam que pode ser um jeito de ser ousado e visionário. Na verdade, pode ser tanta coisa…inclusive nada!

Se fala tanto nisso que somos levados a achar que todo mundo que se vira por conta própria é empreendedor, quando na prática às vezes é mais uma necessidade daqueles que não conseguem encontrar emprego, do que uma escolha. 

Pensando no público que eu tenho contato, comerciantes e prestadores de serviços em favelas cariocas. Há muito tempo eles são obrigados a trabalhar por conta própria, fazer seus “corres”, “seus bicos”, porque precisam gerar renda e não conseguem acessar o mercado de trabalho formal com facilidade. Por ter baixa escolaridade, pouca qualificação profissional comprovada, e em alguns casos pelo preconceito de morar em favelas.

Fui assistente na pesquisa da Dra. Anna Katharina Lenz (FGV), feita no Conjunto de Favelas da Maré, em 2016. Onde entrevistamos 1400 empreendedores e um dos principais motivos para abrir um negócio foi ter uma fonte de renda, depois buscar independência.

Poucos sabem, mas o Brasil aparece em terceiro lugar, depois da Tailândia e Uganda, como um dos mais empreendedores. Vale destacar que o empreendedorismo varia de país para país, nesse caso estamos olhando para os países subdesenvolvidos, a partir de uma ótica do empreendedorismo popular, que tem como ordem a necessidade. Inclusive é um dos caminhos de soluções para gerar renda, emprego e movimentar a economia local. 

Vale lembrar que 2020 foi a grande faísca para acelerar algumas mudanças e trazer de vez a cultura digital para todos. E com isso intensificou mais ainda essa cultura de “ser empreendedor”. 

Sei que só de pensar em 2020 já gera alguma sensação, boa ou ruim. Foi um ano que exigiu demais da gente. Um ano inesperado e um marco para uma nova fase humana. Querendo ou não já não somos mais os mesmos. Foi um ano que entendemos que as séries de ficção da Netflix podem sair diretamente da tela e virar realidade, e que esse negócio de apocalipse, inteligência artificial não está num futuro tão distante. Tivemos e estamos tendo muitas lições. A natureza agradeceu a diminuição de impactos. O brasileiro até mais, o carioca teve que ficar mais frio e parar com esse negócio de dar dois beijinhos. E agora é menos toque mais touch, máscara na cara e álcool no bolso. Não tem pra onde fugir e essa era pós-pandemia e mais digital veio pra ficar e alterar nossas interações.

Pena que não é assim para todos, em pesquisa sobre novos hábitos culturais na Pandemia feita pelo Itaú Cultural, 57% dos brasileiros passaram a usar mais internet, e 7% não tem acesso a internet, principalmente na região Norte do país.

Esse levantamento mostrou também que as pessoas passaram a ver shows, peças de teatro, visitas a museus no ambiente virtual, além de acessar mais cursos livres, jogos eletrônicos e ouvir podcasts. É tanta oferta de conteúdo que a gente volta na outra vida com vídeos pendentes para assistir. 

É interessante ver o poder digital, inclusive na maneira como o consumo de cultura foi afetado para manter o isolamento social. Mas vamos combinar que nada substitui a experiência presencial. Ao vivo e a cores. Inclusive dizem que só sobrevivemos como espécie porque vivemos em grupo, somos hiper-sociáveis e cooperativos. Então não podemos perder isso porque se não estamos ameaçados. 

Ah! mas algo de positivo temos que admitir que foi parar o piloto automático. Parar aquela rotina frenética de cidade grande, trânsito, comer rápido, dormir mal, ficar estressado, acordar no dia seguinte e fazer a mesma coisa. Eu confesso que não acho mais normal ficar uma hora e meia dentro de um ônibus para chegar no local de trabalho estressada e não ter tempo para o meu bem estar.

Imagino e respeito que cada um tem uma realidade e trajetória nessa Pandemia, mas seja qual for a sua, provavelmente alguma coisa mudou. Espero e torço muito que tenha sido para melhor. Sei que foi e está sendo um  C-A-O-S! Como diz aquela sábia figurinha do WhatsApp: “Loucura misturada com Doidera”. Mas temos que admitir que agora já falamos de vacina, antes não sabíamos nem qual nome dar ao vírus. Então agora podemos seguir um 1% otimistas com esse avanço. 

Nesse novo momento com novos hábitos e costumes, algo que sempre tá junto são as formas de gerar renda. Há mais de sete anos pesquiso a área de empreendedorismo e trabalhadores autônomos. Estou muito interessada em entender os novos jogos nesse campo de trabalhos modernos. Por isso estou aqui e dei esse pontapé inicial sobre o tópico. 

Quero lembrar que antes da Pandemia já estávamos com um pandemônio liderando novas políticas no país. Da noite para o dia aprovando a reforma trabalhista com o fim do Ministério do Trabalho, jornada de trabalho podendo ser negociada até 12 horas, férias fracionadas em três partes, extinção do contrato de trabalho que impede receber seguro-desemprego, entre outras perdas para o trabalhador.

Até suspeito que nós, aqui no Brasil, desde 2016 já estávamos nos preparando para o C-A-O-S. Nessa atualização da lei trabalhista um dos argumentos principais era gerar mais empregos. O prometido não se cumpriu, teve mais desemprego e ainda empurrou mais ainda as pessoas para a informalidade ou para a abertura desenfreada de CNPJs (identidade de empresa), via o Programa MicroEmpreendedor Individual (MEI). Para se ter uma ideia, hoje temos 14 milhões de desempregados, que independente da pandemia já estavam desocupados porque o país estava e está passando por uma recessão econômica. 

Somado a isso com o mundo digital novas profissões surgiram. Gerando um processo de substituição brutal para aqueles que não conseguirem acompanhar esse movimento. Um estudo que projeta o ano de 2030, feito com mais de 3.000 líderes de negócios, sobre os impactos dessa era, estimou que 85% dos trabalhos que existirão daqui a 8 anos serão novos. Isto quer dizer que terão novas profissões e poucos profissionais para os futuros empregos. 

Sim! Parece desesperador quando olhamos para um país que investe mal em ensino e educação digital. Já sabemos que o Brasil não é para qualquer um, então precisamos ficar mais atentos para dar os nossos “nós em pingo d’água”, se não a gente fica pra trás.

De fato, quem não quer independência? Ter tempo para aproveitar o lado bom da vida? Por isso essa cultura empreendedora tem um lado atraente. As pessoas se empolgam e isso é saudável porque assim estimula a criatividade, inovação, e a busca de soluções para velhos problemas. Sem contar que dá a chance para cada um escolher aquilo que gosta e acredita. Porém, como tudo na vida tem seu preço, ou você paga com dinheiro ou tempo. No caso do empreendedorismo não vai ser diferente. Por isso, todo cuidado é pouco para não entrar na lógica de ser escravo de si mesmo. Assunto para as próximas edições para falar do efeito uberização, que tem a ver com essa onda de trabalhadores de aplicativos e a sociedade MEI que está se formando.

Então te vejo na próxima edição, obrigada pelo seu tempo e mande algum sinal sobre o que achou dessa leitura. Um abraço virtual e tamo juntos!

Por Vivi Linares @vivilinaress

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