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Mágicas e trevas

Por Paulo Roberto


Ele corre, se espreme, corre, sobe e desce. A rotina é louca, frenética. A sandália está gasta, mas está no pé, já não se conhece mais a fronteira entre o pé e o asfalto, entre a dor e as pedras pisadas no caminho, não se sabe, enfim, se o que parece estar, de fato, está. Assim é sua rotina, de segunda a sábado, e domingo até às 16:00.

As caras feias no caminho já não assustam mais, mas também não acolhem. Passa batido. O ritmo é frenético e o destino só Deus sabe. A camisa já está enrolada e presa ao redor da cintura. A bermuda surrada, guerreira, o segue fielmente apesar dos solavancos.

Suas mãos magrelas parecem ter cola, já que é possível suportar tudo ao mesmo tempo, caixas, notas, moedas e o próprio mundo.

O meio fio é seu companheiro de descanso e de consolo. Mais caras feias o atravessam. Só resta a ele a eterna companhia do meio fio. Ele olha as pessoas, os carros, os ônibus... o calor já não faz mais efeito... a grande cidade repentinamente se torna um lugar qualquer cheio de nada, cheio de quinquilharias, de pessoas invisíveis, que andam pra lá e pra cá, mas que não aparecem mais diante dos seus olhos pensativos. Pelo menos em um momento, nesse momento, ele finge que aquele lugar é sua casa, apesar de viver ali, ele finge ter pra onde ir, o que fazer, com quem falar e o que comer. O meio fio continua lá, junto com a raiz e a árvore que oferece sua escora. Sua vida navega nesse meio, nesse fio, em que ele, o equilibrista, ao invés de sombrinha, equilibra o peso que é a sua vida, tão ameaçada quando a árvore que o dá guarida.

Seu coração bate, mas bate forte. Está vivo, mas agora com outra cadência. A noite traz consigo as trevas, a incerteza, a luxúria e o castigo. A noite, aquela noite, desfibrila seu coração e o faz renascer. Suas costas ganham asas, seu corpo ganha plumas, suas mãos um elegante cetro que ele habilmente movimenta com suas mãos envoltas por uma luva brilhante e elegante. De repente, num picar de olhos, as ruas que o castiga durante o dia se tornam seu jardim, e esse é seu grande reino, que em poucos minutos ele irá viajar, voar, encantar os olhos cegos e medrosos que a luz do dia engana, como um mágico que ilude e inebria a plateia. Ele não tem medo, nunca teve, nem de dia e nem durante a noite, mas ali, naquele momento, a festa devolve a ele o posto que sempre teve, o lugar que nunca perdeu, o de rei, rei de tudo e de todos que ousam se encantar com seus movimentos fluidos e encantadores. A luz do dia não ousa aparecer enquanto seu sorriso ousa a rodopiar. O sol ameaça subir, mas não se atreve a disputar o brilho com o bravo cavalheiro que desfila toda a sua elegância pela avenida, diante de seus súditos, ávidos pelo seu ritual, que irradia luz onde quer que sua nobreza passe. Durante aqueles minutos ele caminha sob as águas, voa como um anjo, e lança feitiços por todos os lados.

Depois de tudo, depois que o portão fecha, que o sangue esfria, tudo desaparece, e ele é levado de novo ao mundo de mentira, esperando que o ano passe e o pecado devolva o seu título, seu nobre título de rei.

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