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Desespero literário no apartamento em Botafogo

Por Roberto Brito


Havia nele uma vontade imensurável de escrever, mas faltava um detalhe importantíssimo: o que escrever. Certas vezes causava nele uma ânsia tão grande de escrever que isso dava-lhe dor de estômago e insônia. Difícil era para ele lidar com aquelas palavras que não lhe saltavam mais aos dedos. As palavras agora ficavam retidas em sua mente e pensamento.

Saía de casa para ver a vida acontecer e, por certa vez, pensou que saia de casa para lembrar de como se escrevia, mas sua atitude foi totalmente em vão. Quando saia com essa intenção e não a concluía, ocorria-lhe um coito muito constrangedor. As questões e os porquê rondavam sua mente, fazendo ele ficar ainda mais perturbado.

Pensava em seu passado recente, onde bastava uma fagulha, um centelho de ideia e as palavras pulavam, saltitavam de um dedo para o outro, formando assim belas frases de efeito que, a uma leitura desatenta, causava até certo furor filosófico. Percebia que, à medida que o tempo passava, seus dedos enferrujavam, as palavras perderam aquele óleo azeitado que só quem escreve tem: aquele manejo, aquele suingue das ideias.

Certo dia tentou: seus dedos tatearam as teclas de forma desajeitada, e na mesma proporção que errava as frases, onde percebia que tinham pouco ou quase nenhum sentido, seus dedos foram brochando. Olhou para aquele monte de linhas vermelhas do corretor de texto e foi tentando ler e achar sentido naquilo que recentemente havia escrito e seu coração começou a pesar. Pesou tanto que uma lágrima tangenciou o canto dos olhos; segurou-as como seguraria um cavalo de rodeio, mas a tristeza em perceber seus dedos murchos, foi o que mais o deixou triste.

Ficou parado por um instante, olhando a barra do redator de texto piscar, e a cada piscadela, seu coração palpitava. Questionava-se então se sua escrita era um regozijo de seu ego. Pensou também que seus devaneios literários, suas pretensões como escritor, que nunca haviam se concretizado, chegara ao fim, sem mesmo ter começado. Seu esforço em tentar era seu último esconderijo, seu último bastião moral. Dizia a si mesmo que era capaz, confortava-se dizendo que sua literatura era “marginal”, “inovadora”, “incompreendida”, mas quando se lembrava de que ninguém nunca lera seus esforços literários, uma ânsia ainda maior tomou seu coração num rumor nunca antes sentido por ele.

Nesse instante, convenceu-se de que era preciso chorar, era preciso deixar derramar o azeite antes eivado pelos dedos. Como bom intelectual burguês, pegou seu maço de cigarros, abriu a janela do quarto de empregada e começou a fumar consecutivos cigarros, observando atentamente sua culpa burguesa diante de um quarto menor do que um canil.

Num esforço totalmente desesperado, dialogava sozinho, queria convencer-se de que era apenas uma fase ruim, como um homem que tenta convencer sua parceira de que sua “brochada” fora a primeira. Sempre tivera a mania de escrever frases para si em cadernos baratos e nessa noite de uma indesejada improdutividade, rabiscou a seguinte frase: “Sou o que deveria ser do que fizeram de mim e pouco me satisfaço disso”.

Ao terminar de escrever, deu seu último trago e apagou o cigarro, deitou no colchonete da empregada – que havia saído para tomar uma cerveja com as amigas num sábado de chuva – e pensou que a vida burguesa é um fado teatralizado, pensou no livro de Goffman que havia resenhado, e culpou-se ainda mais.

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