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A verdade é uma questão de imaginação

Atualizado: 7 de jan.

Por Carlos Douglas

Ficha técnica: A Mão Esquerda da Escuridão é um romance de ficção científica escrito por Úrsula Kroeber Le Guin que aborda os conflitos culturais, psicológicos e políticos devido a chegada de um humano diferente da espécie de humanos do planeta Gethen. Tudo começa quando o Ekumen, uma união de planetas humanos, manda Genly Ai como mensageiro, o propósito de sua viagem era convencer pacificamente as nações do planeta Gethen a se somarem como membros da coordenação. O livro foi lançado no Brasil em 2014 pela Editora Aleph e está na sua terceira edição (2019), com a tradução de Susana L. de Alexandria, a capa de Giovanna Cianelli, ilustração da capa de Marcela Cantuaria e um prefácio de Neil Gaiman.


Mini BIO: Ursula Kroeber Le Guin nasceu em 21 de outubro de 1929 e faleceu em 22 de janeiro de 2018. Foi uma escritora estadunidense conhecida por suas obras de ficção científica e fantasia. Le Guin publicou pela primeira vez em 1959 e sua carreira se estendeu por quase 60 anos, tendo produzindo mais de 20 romances e mais de 100 contos, além de poesias, crítica literária, traduções e literatura infantil. O pai de Úrsula, Alfred Louis Kroeber era antropólogo na Universidade da Califórnia, e sua mãe, Theodora Kroeber (nascida Theodora Covel Kracaw) era uma psicóloga que estabeleceu uma carreira de sucesso como autora e que escreveu, dentre outras obras, Ishi in Two Worlds (1961), uma biografia sobre Ishi, um nativo americano que se tornou o último membro conhecido da tribo Yahi.


A recepção

O romance foi publicado pela primeira vez em 1969 e hoje é um clássico com mais de 50 anos de existência. Uma história que envelheceu bem, continua atual e relevante. Na época, o livro foi muito bem recebido pela crítica, se tornou muito popular e foi reeditado mais de 30 vezes. Ganhou o Prêmio Nebula, concedido pela Science Fiction Writers of America, e o Prêmio Hugo, determinado pelos fãs de ficção científica. E, em 1987, a revista Locus classificou-o em segundo lugar na lista "Melhores Romances de Ficção Científica de Todos os Tempos". O sucesso do livro foi tão grande que o crítico literário Harold Bloom chegou a dizer que "Le Guin, mais do que Tolkien, levou a fantasia ao status de alta literatura no nosso tempo".

Além do sucesso editorial, o romance é considerado um marco na trajetória literária da autora. Apontado pelos críticos como sua "primeira contribuição ao feminismo", o romance foi realizado num contexto de efervescência política e cultural, onde as questões de gênero, desnaturalização e contracultura entraram com força no debate público. No campo literário americano os debates foram pautados pelas releituras de Simone de Beauvoir e publicações como A Mística Feminina, de Betty Fridman. O romance é marcado pela relação nós x eles, pelo encontro cultural com o outro, pela vivência de um estrangeiro, somadas as diferenças físicas virtuais entre tipos diferentes de humanos, sobretudo com relação ao sexo.

O livro transborda a mentalidade culturalista que hegemonizou o debate acadêmico nas ciências humanas, especialmente a partir dos estudos de Franz Boas, Margareth Mead e Ruth Benedict. No prefácio, Neil Gaiman diz acertadamente que "Le Guin tem um toque de poeta e um olho de antropóloga". Os editores da Aleph descrevem Úrsula como uma escritora de ficção pautada no debate das ciências humanas, como a sociologia e antropologia. Segundo a própria Úrsula, "o objetivo do experimento mental (...) não é prever o futuro (...), mas descrever a realidade, o mundo atual. (...) A ficção científica não prevê; descreve (...). Previsões são feitas por profetas". Nesse sentido, a autora redigiu a frase que titula esse artigo, pois quem descreve o faz a partir de seu próprio ponto de vista, ou seja, “a verdade é uma questão de imaginação”. Uma afirmação que se encaixa na metodologia e epistemologia típicas do campo das ciências humanas, onde o objeto e sujeito dos estudos coincidem.

O romance, assim que foi publicado, esteve no centro de um debate feminista. Alexei Panshin fez objeções ao uso de pronomes de gênero masculinos "ele/seu/dele" para descrever os personagens andróginos do romance. Também houveram críticas com relação a heteronormatividade durante o kemmer, o período do cio entre os gethenianos, pois a trama só apresenta arranjos de casais compostos por homem e mulher. Sarah LeFanu escreveu que Úrsula perdeu uma oportunidade de experimentação, pois os "heróis masculinos com suas crises de identidade, presos nas garras do individualismo liberal, servem de peso morto no centro do romance".

Em 1976, Úrsula responde às críticas em seu artigo Is Gender Necessary?''. Incialmente, argumenta que a questão de gênero era apenas um tema secundário em relação ao tema primário, lealdade e traição. Na versão revisada do artigo, publicada em 1987, Úrsula voltou atrás e afirma que a questão de gênero era central para o romance. Disse que havia descrito o gênero como tema periférico por que se sentia na defensiva sobre usar pronomes masculinos em seus personagens. Úrsula conclui sobre a recepção do romance: "homens estavam inclinados a ficarem satisfeitos com o livro, que permitia uma visita segura à androginia (...). Mas muitas mulheres queriam ir além, arriscar mais, explorar a androginia de um ponto de vista feminino". Ao final, Úrsula acaba fazendo uma autocrítica com relação a essa questão: "as mulheres estavam certas em pedir mais coragem da minha parte".

A narrativa

A história é instigante e tecnicamente muito bem executada por parte da autora. A narração conduz o leitor a um exercício constante de relativização e desnaturalização, fazendo Genly Ai, o principal narrador do romance, viver situações em que é necessário lidar com seus preconceitos com relação aos alienígenas. Genly Ai é o narrador principal e a voz que fala por "nós", que representa o leitor e se aproxima culturalmente dele no quadro da ficção. O romance conta a história de Ai, chamado de "mensageiro", um personagem que exerce papel diplomático ao buscar atrair as nações do mundo de Gethen para a aliança de planetas humanos, o Ekumen.

O "mensageiro" chega ao planeta e aterrissa sua nave no reino de Karhide. Vai sozinho propositalmente, para que seja visto com curiosidade e não com medo. Ai tem um protocolo de aproximação e um método de ação com os nativos definidos por regras coletivas estabelecidas num código de ética. Em muitos aspectos a história de Ai se assemelha a de um antropólogo introduzindo-se no campo de pesquisa. Inicialmente, Genly Ai não se adapta facilmente ao clima do planeta, extremamente frio, e aos costumes dos nativos, o conduzindo a constantes situações de desconforto, desentendimento e inadaptabilidade. Então, Ai busca um informante e, nesse contexto, encontra seu interlocutor, Therem Harth rem ir Estraven, conselheiro do monarca de Karhide.

No fim da primeira metade do livro, depois que sofre um grave revés em sua carreira política, Estraven surge como narrador secundário da trama, compondo um quadro narrativo onde só haviam a voz de Genly Ai e a "voz do mundo". A princípio não parece um narrador, mas apenas uma "voz do mundo", surgida para elucidar o leitor sobre a natureza peculiar do modo de vida e da mentalidade dos gethenianos. Entretanto, ao longo do romance percebemos que a narrativa de Estraven joga um papel muito mais importante ao acrescentar alteridade, questão que não está somente expressa no tema do enredo, mas na própria experiência narrativa construída pela autora.

Ao convidar o leitor a pensar como o nativo, Estraven o conduz a encarnar o alienígena e sofrer na pele seus dilemas peculiares, seus dramas pessoais e sua dificuldade na relação com o estrangeiro, Genly Ai. Assim, utilizando a analogia de Ruth Benedict, o romance proporciona a experiência de utilizar as lentes culturais gethenianos para ver gethenianos e terráqueos, e utilizar as lentes culturais terráqueas para ver terráqueos e gethenianos. Neste sentido, a experiência narrativa do livro proporciona uma reflexão de superação do binarismo nós x eles com relação a cultura, mas não apenas, também extrapola a oposição bem e mal, claro e escuro, macho e fêmea.

A sexualidade

O romance é um thriller de intrigas e disputas políticas cheios de revezes, fugas, prisões e reviravoltas surpreendentes, mas o pano de fundo da experiência do narrador com toda essa conjuntura é definido por sua relação conflitiva com a natureza cultural e biológica dos alienígenas. A condição sexual específica dos gethenianos é o centro da vazão de grande parte do estranhamento cultural de Genly Ai. Por alguma razão que a trama acaba por explicar, os gethenianos eram indubitavelmente humanos, mas diferente de todos os outros humanos que Genly Ai conhecia. Eram ambissexuais, permaneciam num estado de inatividade, somer, completamente andrógenos, até entrar no cio, kemmer, onde ao final do processo poderia assumir dependendo de circunstâncias específicas uma dominância masculina ou feminina. Um mesmo getheniano poderia ser pai de uma criança e mãe de outra, sem que haja dominância da parte desse indivíduo entre os comportamentos, assim como considerado por Aí e nós como masculinos ou femininos.

As implicações psicológicas da condição sexual getheniana não são desprezadas pela autora que, pela voz de Ai e outros estrangeiros, questiona a condição específica da formação da psique daquele tipo de humano. Uma questão levantada é que o complexo de Édipo não faz sentido entre os gethenianos, pois "não existe nenhuma divisão em metades forte e fraca (...), ativa e passiva", ou macho e fêmea como sexos permanentes. Neste sentido, não existe sexo sem consentimento, pois todos estão na mesma condição até definirem para o masculino ou feminino.

Neste sentido, a experiência do gênero não está mediada por relações de poder hierárquica, mas por uma estrutura equânime entre os indivíduos iguais do ponto de vista da sexualidade. Nas sociedades gethenianas, incesto entre irmão é permitido, vedado apenas o juramento de casamento monogâmico (kemmering), mas o incesto entre diferentes gerações da mesma família era expressamente proibido. A descendência dos indivíduos é matrilinear, reconhecida a partir da mãe, chamada de "genitor carnal" (amha). A apresentação desse estudo sobre o parentesco e a sexualidade dos gethenianos é conduzido pela autora como uma introdução em temas importantes de interseção entre a antropologia e a psicanálise.

O fato de Genly Ai ser um indivíduo permanentemente macho era ser visto como uma aberração, um "pervertido". A condição sexual permanente dos humanos não-gethenianos causavam desprezo e repulsa na maior parte dos gethenianos. Em diversos momentos da trama, Ai também expressa sua repulsa a condição sexual getheniana. Em um dos momentos chave de sua jornada, Ai assume abertamente seu preconceito para Estraven: "não queria oferecer minha confiança, minha amizade a um homem que era mulher, uma mulher que era homem". A jornada empática de Genly Ai é compreender o que é ser getheniano, ao passo que busca solucionar as questões políticas que envolvem a sua missão de aliar Gethen ao Ekumen.

Durante a jornada pelo gelo Ai obtém uma compreensão ampliada da cultura getheniana: o intenso convívio entre Ai e Estraven, inclusive durante o kemmer do último, faz com que eles consigam compartilhar um laço telepático (mindspeak), levando Ai a compreender e aceita a natureza dupla da sexualidade de Estraven. As sociedades gethenianas em seu funcionamento diário são assexuadas (somer), os indivíduos não são neutros, mas potencialidades integrais, macho-fêmea. Genly Ai gradualmente se afasta do comportamento "masculino" e, ao longo do romance, se torna mais integral ou andrógeno (somer), assumindo um comportamento menos racionalista, e mais paciente e afetivo.

Conclusão

O romance nos faz pensar muitas questões sobre o outro, a alteridade, as diferenças entre os gêneros e o persistente tema da dualidade na cultura ocidental. Assim como diz a canção getheniana: a "luz é a mão esquerda da escuridão e escuridão, a mão direita da luz". Uma temática que possibilita uma alusão ao yin e yang, onde a referência a cultura oriental apresenta uma solução para a perspectiva polarizada da cultura ocidental marcada pela dualidade de opostos. A condição de integralidade homem-mulher e o reflexo disso na cultura getheniana são expressões da crítica da autora com relação a as temáticas da cultura e do gênero.

Apesar do romance apresentar uma raça de humanos em que quase não há influência social sobre a sexualidade dos indivíduos, a trajetória de Ai demonstra que apenas o mergulho intensivo nos significados compartilhados, na linguagem e na cultura gethenianas que possibilitaram a superação da barreira entre ele e os alienígenas. A primazia do elemento cultural e não do biológico sobre o comportamento se confirma na transformação de Genly Ai, que mesmo sob a condição permanente de macho, consegue compreender a condição getheniana e modificar seu comportamento ao ponto de se tornar o mais próximo que um humano não-getheniano pode chegar de um nativo.


Revista Menó, nº. 3/2021 (out/nov/dez).

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