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A literatura como fuga do enclausuramento pandêmico

Atualizado: 4 de jan.

Por Lorena Izabele Lima de Almeida[1]


“Um leitor vive mil vidas antes de morrer. O homem que nunca lê vive apenas uma”. George R. R. Martin.

Inicio com esta epígrafe do George R. R. Martin que, apesar de clichê, traduz exatamente o que é ser um leitor. Além do mais, eu não conseguiria explicar tão perfeita e sucintamente o significado, então utilizar uma frase que adoro de um autor que gosto muito me pareceu uma boa maneira de começar esse ensaio.

Dito isso, como todos sabem, a pandemia que se deflagrou no Brasil no início de 2020 deu uma grande reviravolta nas nossas vidas e, assim como a muitos, ela me afetou bastante, mas, apesar de todas as adversidades, algo que se tornou muito especial na minha vida acabou (res)surgindo.

No entanto, vou recuar mais um pouco para falar sobre o tema deste artigo. No ano de 2016 se deu aquilo que podemos chamar entre os leitores de ressaca literária. Isto ocorreu após o processo do término do Ensino Médio e ENEM, quando fiquei extremamente sobrecarregada e acabei ficando saturada de ler qualquer coisa que não fosse necessária para minha formação acadêmica.

A ressaca literária é um período de hiato em que você não consegue ler nada. O termo faz total sentido quando relacionado a um dos significados para a palavra “ressaca” no dicionário: “indisposição sentida por quem para subitamente de consumir uma droga da qual é dependente”. Felizmente, o vício em leitura não tem nada a ver com dependência química, mas o termo pareceu adequado e acabou se popularizando entre os leitores.

Desde a minha pré-adolescência eu lia assiduamente e quando isso mudou achei que nunca mais fosse voltar a ler como antes e que a magia dos livros havia acabado para mim. Contudo, ainda bem que estava enganada, pois logo no início da quarentena, no mês de maio de 2020, para ser mais precisa, eu voltei a ler numa intensidade consideravelmente alta e há muito não vista.

A pandemia, apesar de tudo de ruim que trouxe consigo, conseguiu fazer com que eu resgatasse minha paixão pela leitura, a qual, sem dúvidas, teria continuado adormecida por um bom tempo, pois minha vida andava em um ritmo tão acelerado que voltar a ler não estava nos meus planos imediatos.

Quando a quarentena teve início, eu comecei a trabalhar no home office, mas tinha muito tempo livre, já que a Universidade havia suspendido as atividades em prol do isolamento social requerido pelo período atípico de pandemia. Diante dessa situação, me vi extremamente entediada ante a enorme quantidade de tempo ocioso que tinha à minha disposição.

Sendo assim, decidi que era um excelente momento para retomar o hábito de leitura e embora não tivesse nenhum livro em mente, sabia que deveria iniciar por um gênero que gosto e que, de forma geral, é de fácil compreensão e entretenimento. Portanto, escolhi um romance e logo me vi envolvida na trama e comecei a buscar histórias similares, depois passei para a leitura de livros do meu gênero favorito, que é fantasia. Após dado esse pontapé inicial as leituras começaram a fluir em um ritmo acelerado.

A retomada do hábito trouxe consigo uma enorme vontade de compartilhar minhas leituras. A ideia surgiu após ler um livro que me deixou ansiosa para recomendá-lo a outras pessoas. Sempre tive vontade de criar um blog e a ideia me parecia muito interessante, então acabei criando um blog literário e comecei a compartilhar conteúdos relacionados a livros e às minhas leituras.

Não houve um projeto prévio para que a ideia fosse posta em prática, tampouco um planejamento do que eu iria postar depois que começasse, qual seria a frequência e quais conteúdos eu gostaria de produzir, apenas criei o blog e comecei a compartilhar minhas experiências literárias.

Posteriormente, percebi que deveria ter planejado melhor a coisa, verificado se a plataforma seria interessante e viável para o fim que eu almejava, e se haveria um público interessado no que eu estava fazendo. Essa ausência de planejamento e o impulso de querer criar imediatamente o blog foi sentida pouco tempo depois do seu início, quando os acessos começaram a cair e a interação era quase nula, posto que a maioria das pessoas que acessava o blog eram meus amigos e nem eles se mantiveram interessados no que eu estava produzindo. Parecia mais que eu os estava forçando a consumir um conteúdo numa plataforma que eles não acessariam normalmente.

Eu fazia a divulgação das publicações do blog por meio do meu perfil pessoal do Instagram, plataforma que, atualmente, quase todo mundo usa e que é uma das melhores formas de compartilhar conteúdo. Devido a isso, acabei criando um perfil exclusivamente para fazer a divulgação das postagens.

Contudo, o Instagram só permitia o compartilhamento de links através dos stories se o usuário tivesse mais de 10 mil seguidores, de modo que, para redirecionar o público da plataforma para o blog, era necessário que eu inserisse o link na biografia do meu perfil para que o usuário pudesse acessá-lo através dele. Talvez percebendo o quanto os usuários estavam insatisfeitos com isso, a plataforma passou a fornecer uma ferramenta nos stories para que todos possam compartilhar links, sem a limitação de ter 10 mil seguidores para fazer isso.

Todavia, na época, exatamente por essa “dificuldade”, percebi que não estava sendo viável manter o blog, pois notei que havia uma indisposição geral para seguir todos esses passos e que as pessoas estão interessadas em conteúdos entregues “de bandeja”, algo rápido e fácil de ser consumido, coisas que não demandam qualquer tipo de esforço e sejam imediatas.

Com isso em mente, mas ainda muito ligada a ideia do blog, porém um pouco frustrada por não estar dando certo e relutante por abandonar algo que eu queria tanto manter, decidi compartilhar minhas leituras e outros conteúdos literários exclusivamente através do Instagram.

Entretanto, assim como no blog, não houve particularmente um planejamento da minha parte, apenas deixei o blog de lado e segui com o Instagram, postando como podia, ainda sem uma identidade visual definida, sem saber utilizar corretamente as ferramentas para criar os posts, sem uma frequência adequada e sem conseguir captar novos seguidores que se interessassem pelo conteúdo a ponto de interagirem com o perfil.

O início do meu bookgram [2] foi bem conturbado, eu não sabia o que estava fazendo direito, ainda estava bastante ligada ao blog e acabava por produzir um conteúdo que não era usualmente consumível pelo público do Instagram, já que tinha textos muito longos e a maioria das pessoas não tem interesse em algo tão extenso. Os usuários das redes sociais querem posts curtos e rápidos, com informações sucintas, fáceis de digerir e que sejam visualmente agradáveis.

A parte do visual foi uma das que mais me deram problema, juntamente com a extensão dos meus textos, pois sempre gostei de escrever muito e não conseguia resumir minha opinião sobre determinado livro em três ou quatro parágrafos, como também não tinha a menor ideia de como tirar fotos de livros que chamassem atenção.

Hoje eu sinto que evoluí bastante no visual do meu perfil, mas ainda preciso melhorar no que diz respeito à extensão dos posts. Consegui diminuir consideravelmente o tamanho das resenhas e repassar outros conteúdos de maneira mais eficiente, mas ainda sinto que não é o suficiente. Fui me aprimorando nisso através, principalmente, da observação de outros perfis do mesmo nicho para me inspirar, analisando o que parecia dar certo e o que não era tão interessante, e, da tentativa e erro, testando o que agradava mais ao meu público leitor.

Destarte, entendo que se adequar aos anseios do seu público alvo é de extrema importância para atingir um número maior de pessoas, mas, pessoalmente, não me agrada muito a ideia de mastigar tanto uma opinião ou comentário sobre algo a ponto de torná-los quase inexistente, motivo pelo qual embora eu tenha diminuído o tamanho das minhas resenhas sobre os livros que leio, procuro não deixar o texto tão diminuto que não expressará de fato o que penso sobre a obra.

Por outro lado, com exceção das resenhas, aprendi a entregar os demais conteúdos (indicações de livros e dicas relacionadas a leitura) de maneira mais rápida e concisa, bem como consegui me reinventar na forma de repassá-los, explorando as possibilidades que a plataforma oferece e buscando deixá-los o mais atraente possível, com a ajuda de aplicativos e sites voltados à produção de conteúdo.

Ainda estou lutando com a plataforma para conseguir me estabelecer de forma satisfatória, passei por diversos problemas relacionados a bugs e aos algoritmos do Instagram, os quais me desanimaram bastante e fizeram com que meu perfil não tivesse o crescimento que eu esperava, mas aprendi a criar estratégias para contornar alguns deles e sigo tentando fazer dar certo.

Uma das estratégias para contornar essas situações foi aumentar a quantidade de posts semanais, já que antes eu não tinha um planejamento e só postava quando dava. Assim, passei a tentar postar um dia sim e um dia não, alternando entre posts de resenhas, dicas sobre livros, indicações de leituras e reels cômicos sobre livros e leitores. Percebi que isso melhorou muito o engajamento do meu perfil, pois o que a rede social quer é usuários ativos e que se dediquem a ela, postando com frequência e utilizando todas as ferramentas que deixa à disposição deles.

Uma das coisas mais importantes que aprendi com toda essa experiência foi que o planejamento é algo fundamental quando se começa um novo projeto. Sem um planejamento adequado dificilmente algo que você pensou dará certo, por mais bacana que pareça ser na sua mente, até mesmo porque nem o planejamento garante o sucesso, mas é o primeiro passo para que você chegue lá.

Organização e a imposição de limites a si mesmo também é indispensável, já que não adianta fazer um planejamento que você não vai seguir no final porque não se organizou para colocá-lo em prática, ou porque está além do que você pode fazer no momento. Aprendi que o ideal é começar aos poucos e ser realista consigo mesma quanto ao que você pode fazer e o que você está disposto a fazer.

Produzir conteúdo para o Instagram tem me mostrado que, apesar de você amar o que faz, inevitavelmente você irá se estressar e terão momentos que vai pensar em jogar tudo pro alto e desistir daquilo. Porém, no final, você desiste de desistir, se é que isso faz qualquer sentido, e continua fazendo aquilo porque é algo tão gratificante que vale a pena enfrentar as adversidades para continuar fazendo.

Ler e falar sobre minhas leituras também tem me ajudado a encarar outros pontos de vista, entender outras realidades, refletir sobre temas que normalmente eu não refletiria e aprender coisas novas com cada personagem e cada história. É fundamental essa reflexividade acerca de ações literárias e suas relações com as ações do nosso cotidiano, pois a arte imita a vida tanto quanto a vida imita a arte e sempre temos algo a aprender com os livros. Por isso a frase do Martin faz tanto sentido para mim, de fato, você vive mil vidas na pele de outras pessoas, aprende com os erros e acertos de cada uma, passa por diversas situações, boas e más, que sempre tem algo a ensinar, tudo isso em lugares que você poderia jurar que já esteve, porque foi transportado para lá através da leitura.

São viagens curtas e longas que servem como um escape da realidade, ao mesmo tempo em que ajudam a encará-la de uma forma diferente, melhor, com mais indulgência e sensibilidade. Ler se tornou um hábito de puro prazer, é o momento no qual mergulho na história e realmente fujo um pouco da realidade, emergindo em outros universos a ponto de esquecer um pouco do meu, mas sempre voltando deles com múltiplos ensinamentos e contribuições.

De certa forma, estas atividades me deram o prazer de construir um espaço destinado aos livros e que vem se ampliando cada vez mais. Um espaço não só virtual, mas também físico, já que venho ampliando meu perfil literário tanto quanto a minha coleção de livros desde 2020. Confesso que este último tem sido um sonho meu desde a adolescência, e poder fazê-lo agora me deixa extremamente feliz.

Ademais, sinto que minha escrita melhorou bastante desde que passei a ler e escrever mais, meu vocabulário tem se ampliado e meus textos ganharam maior fluidez e coerência. Isso vem me ajudando profissionalmente no meu estágio, onde realizo a produção de peças jurídicas, já que a escrita é minha principal ferramenta de trabalho, e ver que ela está se aprimorando em decorrência de algo que adoro fazer me deixa muito feliz e me faz perceber o quão enriquecedora está sendo essa experiência.

Isto porque, quanto mais você lê, melhor, maior e mais rico vai ficando o seu vocabulário, deixando sua escrita mais coesa e clara. Adicione-se a isso que, como dito anteriormente, a leitura nos deixa sensíveis a outras realidades e é uma excelente forma de ter contato com culturas e pensamentos distintos dos nossos, para que possamos exercitar no senso crítico e sermos mais complacentes.

Para criar um hábito de leitura é importante começar aos poucos, levando em consideração sua rotina para que consiga estabelecer um momento adequado a ser dedicado a isso. Você pode começar separando 20 minutos do seu dia para ler, ou ler nos finais de semana, ler entre suas atividades diárias, como, por exemplo, durante o trajeto para a escola ou trabalho, o importante é começar de alguma forma e evitar distrações durante esse momento, principalmente o celular.

O ideal é iniciar com livros de gêneros que você acha que irá gostar, o que pode ser aferido através das suas preferências de filmes e séries, já que a maioria deles toma por base obras literárias. É interessante também estabelecer metas de leitura alcançáveis, tais como determinada quantidade de páginas ou capítulos a serem lidos. Contudo, nada de se pressionar para ler mais em vez de ler melhor, a leitura deverá ser prazerosa e não se transformar em uma obrigação, portanto, leia da maneira que é mais confortável para você.

Sou do tipo que acha que se alguém diz que não gosta de ler é só porque não achou o livro certo ainda. Eu acredito que todo mundo poderia gostar de ler se tentasse da maneira correta, e qual é essa maneira somente a pessoa poderá dizer, pois depende das peculiaridades de cada um, mas seguir as dicas que eu dei pode ser um bom caminho se você não faz ideia de como começar.

Voltar a ler representou um resgate de quem eu era, assim como me ajudou em momentos bem difíceis, levando-me a criar algo em torno disso que vem se tornando bastante especial na minha vida. Portanto, ter criado um ambiente voltado ao compartilhamento das minhas leituras está sendo uma experiência maravilhosa e, a despeito das dificuldades, é algo que me engrandece e que pretendo continuar fazendo. A leitura se tornou algo essencial na minha vida e não me vejo mais sem ela, tenho aprendido e crescido muito com os livros e espero que este ensaio inspire alguém a dar início a este hábito ou a retomá-lo, e que se torne tão especial para vocês quanto é para mim.

Quem quiser indicações de livros para ler e dicas relacionadas à leitura pode me seguir no meu bookgram @bookstanobcecada, lá vocês encontrarão diversos conteúdos bacanas relacionados a livros, em um espaço totalmente dedicado a essa minha paixão e criado especialmente para compartilhá-la.

[1] Criadora de conteúdo digital literário no Instagram @bookstanobcecada, graduanda em Direito pela UFERSA. [2] Termo utilizado no mundo literário para denominar um Instagram voltado à produção de conteúdo relacionado a livros. “Book” significa livro, em inglês, e “Gram” vem de Instagram.


Revista Menó, nº. 3/2021 (out/nov/dez).

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