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O texto analisa como os filmes documentais pioneiros no cinema negro brasileiro, construíram um imaginário negro no audiovisual, abordando a história, a cultura e a luta antirracista no Brasil.



1 INTRODUÇÃO 

 

Em 1988, o ator e diretor Zózimo Bulbul lança "Abolição", um filme comentando os 100 anos da abolição da escravatura no Brasil. Um ano depois é lançado "OrÍ", filme de Raquel Gebler com Beatriz Nascimento, numa tentativa de principalmente trazer à tona uma ligação Brasil-África esquecida pelo tempo. Esses dois filmes instauraram o cinema documental com temática negra no Brasil. 


No ano de lançamento da obra, o cinema documental, apesar de ainda estar caminhando, já não era uma novidade no Brasil. Mas foi preciso 71 anos para que com o filme de Zózimo, os temas e problemas ligados ao povo afro-brasileiro pudessem ser não só discutidos em um filme do gênero, mas também ser produzido por uma equipe quase que inteiramente preta. Zózimo sempre foi um homem à frente do tempo.


Vindo de uma família de classe média do Rio de Janeiro e militante da causa negra no país, ele, pra além de sua carreira como ator, começou a dirigir seus próprios filmes em 1974, todos eles discutindo a temática racial no Brasil. Sendo assim considerado patrono do cinema negro brasileiro. 


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Seu projeto mais ambicioso talvez tenha sido Abolição, um documentário de 2h33min lançado no centenário da “abolição” pra comentar o que foi feito do negro após sua “libertação”. O filme perpassa por diversas situações e expressões culturais, sociais e religiosas bem como por entrevistas com intelectuais, personalidades e pessoas comuns pra criar um panorama das condições do negro na sociedade brasileira nesses 100 anos. 


Por sua vez, Orí segue um outro caminho. Através da figura e das ideias de Beatriz Nascimento, o filme segue dois objetivos: mostrar as articulações do movimento negro brasileiro nesse período e construir uma ligação África-Brasil a muito esquecida. 


Assim como Zózimo, Beatriz é figura importantíssima pra pensarmos a luta e o pensamento racial brasileiro, formada em História e tendo escrito diversos textos e criado muitos conceitos e ideias que são estudados até os dias de hoje. 


Orí é facilmente seu trabalho mais conhecido. Sendo construído quase que 100% por uma narração em off de fragmentos de textos da Beatriz, lidos por ela mesma, com imagens de fundo, entrevistas e outras falas que complementam e corroboram suas ideias. 


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Esses dois filmes, a sua maneira comentam muito da posição e das articulações do negro no período, um indo pra um caminho mais conceitual e filosófico, ligado a uma linha de pensamento mais específico e pessoal (Orí), e o outro segue mais enraizado na história, nos acontecimentos e fatos em uma proposta mais formulaica e didática (Abolição).


Juntos, com suas diferenças e similaridades, eles criam um retrato diverso e pensam as possibilidades do passado, presente e futuro da população preta no Brasil. 

 


2 A ABOLIÇÃO DE ZÓZIMO BULBUL 

 

Zózimo Bulbul e Spike Lee
Zózimo Bulbul e Spike Lee

Ao lançar Abolição em 1988, Zózimo Bulbul já era um famoso ator, tendo já atuado no teatro e em filmes e novelas. Começou a carreira de diretor em 1974 com "Alma no Olho", considerado o pontapé inicial do cinema negro brasileiro e antes do longa, dirigui mais dois curtas "Artesanato do Samba" com Vera de Figueiredo ainda em 1974, e "Aniceto em Dia de Alforria" de 1981. 


Sendo desde sempre ligado aos movimentos negros da época, seus filmes sempre estiveram alinhados com o pensamento dos intelectuais da época e com os demais cineastas negros interessados em discutir as mesmas temáticas. E é nessa ideia de uma revisão da história do negro que surge Abolição

 

“Aí eu pensei, não, quero voltar pro Brasil, quero fazer um filme discutindo o Brasil e que foi o último país a abolir a escravidão, e aboliu o quê? Pra mim não aboliu nada, então vou discutir por que não aboliu, que não tiveram coragem de abolir, e eu vou discutir isso num filme.” 

 

Oficialmente, Abolição começou a ser filmado no carnaval anterior ao lançamento do filme, mas ele vem de pesquisas feitas por Zózimo de muito antes. Em 1978, ele juntamente com o Instituto de Pesquisa da Cultura Negra (IPCN) idealizou e organizou a exposição "90 anos de Abolição" no Museu de Arte Moderna (MAM) com diversas ações voltados para a arte e cultura negra. E é a partir dele e de seu envolvimento com os diversos movimentos negros que, Zózimo começa sua pesquisa em torno do tema.  


Ou seja, o documentário Abolição é apenas o ponto final de anos de pesquisa e ativismo de Bulbul - até então - e também uma forma de expor tudo aquilo que coletou e guardou nesses anos. 

 


O filme segue uma estrutura mais concreta e mais fundamentada na história perpassando por diversos momentos, questões, espaços, pessoas e expressões culturais que comentam o negro brasileiro: a Revolta da Chibata, a divisão de terras e a luta rural, o seu Manoel e suas memórias da escravidão, o teatro de mamulengos e os emboladores, etc., criando assim um panorama amplo da situação negra em quase todo Brasil. 

 

Algumas coisas são interessantes de se notar nesse filme: 

 

1 - Em nenhum momento do filme aparecem letreiros indicando o nome das pessoas. Isso é interessante porque põe em pé de igualdade todas as pessoas do filme, seja ela quem for. Figuras públicas, intelectuais renomados, pessoas comuns, todos são necessários da mesma maneira pra se contar essa história, bem como pra falar que, pra além de toda questão individual, o que importa no final é o coletivo, a raça negra como um todo. 

 

2 – Pra além da comunicação direta, ou seja da informação que é dita e mostrada, o filme se comunica de uma outra maneira, através da montagem. Pela edição do filme, Zózimo e o montador do filme Severino Dadá também fazem diversos comentários sobre o que está sendo discutido.


Quero destacar aqui os dois mais interessantes. A primeira, está no começo do filme, após a princesa Isabel declarar a abolição, a cena dela de braços abertos é entrecortada com cenas de um desfile de carnaval. Para Isabel e parte do povo, parece ter sido isso como se tivessem instaurado o carnaval, sem entender que a abolição não tirou o negro da marginalidade.


Em outra interpretação pode se dizer que essa cena dá uma sensação de uma certa imobilidade branca e de mobilidade negra. Enquanto Isabel abole a escravatura e se mantem imóvel como se fizesse um grande feito, o povo negro dá a cara a tapa e vai fazer seu corre.


E a segunda, logo após os créditos iniciais, é o corte do Benedito: em uma cena do teatro de mamulengos, a personagem da princesa Isabel retruca a fala do outro personagem com nomes que ficam “melhores a um negro”, após uma breve discussão o personagem chama por Benedito “vem cá Benedito”, e o filme corta para uma cena do mar com um barco entrando no enquadramento lotado por pessoas na proa até ocupar toda a imagem.


Depois, de frente, vários homens comuns, esperam o barco parar pra saírem. Através desse simples corte, a fala do personagem e a imagem do barco com os homens dialogam, o conceito do Benedito falado por Isabel é concretizado nos homens no barco. 


3 – Em todo filme há cenas que mostram a equipe, montando e desmontando equipamentos e filmando. Isso serve justamente pra mostrar que não só o filme discute temáticas pretas mas como também é produzido e dirigido quase que inteiramente por pessoas que são perpassadas pelas temáticas que discute.


Que não há só ali a vontade de se fazer um filme em cima desse tema, como muitos outros lançados na época e que aproveitaram esses 100 anos pra se lançarem, mas a necessidade de se contar sua história. 

 

Zózimo Bulbul em Alma no Olho
Zózimo Bulbul em Alma no Olho

Passado tudo isso, é inegável pensar que, apesar do fracasso de público na época e de seu esquecimento nos dias de hoje em Abolição, Zózimo repete o que fez em Alma no Olho. Instaura um novo patamar das produções audiovisuais no Brasil, inaugurando assim um cinema documental negro em nosso país. 

 


3 O ORÍ DE BEATRIZ NASCIMENTO 

 

Beatriz Nascimento e Raquel Gerber
Beatriz Nascimento e Raquel Gerber

Um ano após Abolição, é lançado Orí, filme de Raquel Gerber que tem como fio condutor os pensamentos de Beatriz Nascimento. O filme se desenrola de maneira fluida, seguindo o fluxo das ideias de Beatriz.


Sendo assim, ele não se prende a uma fórmula, mas tem uma questão geral: reconstruir uma ponte entre Brasil e África que tinha sido deixada de lado e apagada. O que evidencia isso logo de cara alem da fala inicial de Beatriz, é a fala de Manuel Zapata Olivella que parece explicar a exata ideia do filme: 

 

“Da África chegaram ao nosso continente centenas, milhares de povos de culturas diferentes. Mas América por certo unificou estas famílias, unificou essas nações, ao dar-nos um só destino em torno a luta comum pela libertação de nossa raça.” 

 



Pensando essa ideia de retomar nossa conexão com a África, Beatriz cria (ou redescobre) alguns pensamos e dispositivos que podemos usar nessa trajetória, dois deles que eu destaco: 

 

1 - Pensar a África como a Atlântida e a América como transatlântica: pelas palavras de Beatriz, “A África ainda é um continente enterrado, é um continente que a gente não conhece muito. É um saber congelado, é um povo que está congelado, nas nossas relações, nas nossas comunicações, no nosso inconsciente”, e transatlântica pois é um tipo de cultura e atitude atravessou o atlântico e fincou morada aqui. 

 

2 - O conceito de quilombo, que passa a servir como uma ideia de qualquer ajuntamento negro de fortalecimento do próprio negro, tanto por uma questão de se relembrar essa tradição, quanto legitimar socialmente o presente ligando- o a tradição do passado.


No filme, Beatriz faz a seguinte conexão: Estruturas bantu – Quilombo - Escolas de samba, terreiros e outras manifestações. 

 

Pra além disso, o filme se esforça em também documentar as diversas ações do movimento negro na época, perpassando por vários encontros, simpósios e conferências, como a Mesa Redonda de Estudantes Afro-Brasileiros, a Conferência-Historiográfica do Quilombo e o FECONEZÚ, Festival Comunitário Negro Zumbi, mostrando não só que havia uma agitação política dentro do Brasil mas também como nos alinhavamos com as lutas que aconteciam em outros países e pessoas africanas e afrodiaspóricas. 

 

Por último é importante dizer que assim como Abolição, o filme de Gerber e Beatriz tenta passar por diversas manifestações de cultura negra na tentativa de abarcar o máximo possível de expressões desse povo. A diferença em relação ao longa de Zózimo pode ser vista em dois pontos: 

 

1 – A maneira como Orí abarca desde seu título, de forma bem mais profundas as religiões de matriz africana presentes no Brasil, e também, utilizando muitos de seus conceitos pra compor e explicar a tese de Beatriz. O filme de Zózimo apresenta entrevistas com algumas mães de santo, mas para por aí. Orí mostra os rituais e trabalhos e explica (ou não) a filosofia por trás delas. 

 

2 - Orí captura um pouco dos bailes black e sua essência de empoderamento, enquanto que Bulbul nem os cita em seu documentário. Nisso, o filme de Bulbul acaba sendo mais tradicionalista e fechado em suas ideias e propósitos enquanto que Beatriz e Raquel abraçam também os “modernismos”. 

 

Diferentemente de Abolição, Orí vive hoje um momento de redescoberta. Muitos artigos e pesquisas estão sendo feitas com base em seus 1h33min de duração. Seu estilo mais fluido e menos linear faz com que ele tenha um jeito muito mais próximo com a ideia que ele aborda, que é justamente discutir essa questão da cultura africana em nosso meio que muitas das vezes não pensa o mundo de maneira linear. 

 

 

4. CONCLUSÃO 

 

Abolição e Orí foram os dois primeiros filmes pensados por pessoas negras numa forma de contar histórias negras, sobre sua questão histórica e social em nosso país. E essa é justamente a importância do pioneirismo que tem que ser visto nesses filmes. 


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Através deles, a gente pode entender muito dos anseios e pensamentos dos intelectuais da época. Através também das diferenças deles, a gente pode perceber o quanto é amplo e diverso a ideia da cultura e da arte negra produzida no Brasil.


Até porque, por mais que os dois filmes estejam produzindo sobre o mesmo tópico, a visão e a maneira com que eles abordam e mostram esses temas, muitas vezes levam a possíveis e diferentes caminhos. 

E por eles terem todas essas diferenças, até na maneira de como eles contam essa história, de como eles pensam esses dispositivos presentes na cultura afro-brasileira, fazem que, em conjunto eles formem um mapa, a qual a gente pode usar para se guiar, para pensar um caminho para o negro no audiovisual documental brasileiro. 

 

REFERÊNCIAS 


CARVALHO, Noel dos Santos. O PRODUTOR E O CINEASTA ZÓZIMO BULBUL – O INVENTOR DO CINEMA NEGRO BRASILEIRO. Revista Crioula, [S. l.], n. 12, 2012. DOI: 10.11606/issn.1981-7169.crioula.2012.57858.Disponível em: https://revistas.usp.br/crioula/article/view/57858 

DAVID, Marcell Carrasco. Abolição: Escavações e memórias sobre o Cinema Negro. 2020. Dissertação (Mestrado em Comunicação). - Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, Rio de Janeiro, 2020 

NASCIMENTO, Beatriz. Quilombola e Intelectual: Possibilidades nos dias da Destruição. São Paulo: Editora Filhos da África, 2018 

SILVA, Felipe Macário. O Afrontamento de Zózimo Bulbul na Luta Antirracista. 2021. Dissertação (Mestrado em Relações Étnico-Raciais). - Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca, Rio de Janeiro, 2021 

SORANZ, Gustavo. (2007). Panorama do documentário no Brasil. Doc On-Line : Revista Digital de Cinema Documentário. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/237638962_Panorama_do_documentario_no_Brasil 

 


 
 
 
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O episódio marca a estreia da coluna "Relataria Rosola", onde a experiência é o principal, e os eventos são apenas um pedaço da visão dela. Com isso, os detalhes vão se encaixando conforme ela comenta sobre tudo. O relato é feito tal qual seria o de uma lente de uma câmera, como se pudéssemos estar onde ela estiver.

Cansada do adestramento autoimposto da minha psicomotricidade pela rotina acadêmica, circulo pelos stories do Instagram até encontrar uma série de textos meio duvidosos que interpreto como um convite. Trata-se de um print, uma conversa no WhatsApp. Um convite para o exato AGORA: agora mesmo, iria rolar um evento. É engraçado pensar um evento que só se avisa quando já está acontecendo, ainda que use o velho recurso dos stories do Instagram. "Happening" era a palavra que meu amigo Felipe Carnaúba usava para descrever o caráter do acontecimento.



"As ações não significarão nada claramente formulado até onde o artista tem conhecimento." - Allan Kaprow
"As ações não significarão nada claramente formulado até onde o artista tem conhecimento." - Allan Kaprow

Allan Kaprow usou o termo pela primeira vez nos anos 1950 para nomear ações híbridas envolvendo diferentes linguagens artísticas. Ele estava articulando som e artes visuais quando percebeu que nenhuma categoria poderia dar conta da forma artística que estava surgindo ali.


Na intenção política de fazer um comentário em relação ao sistema de arte dos salões e galerias, os happenings costumam convidar o público a participar do resultado final do trabalho, naturalmente introduzindo o elemento do experimental e da improvisação.


Me detive no story pela foto ser justamente de um local ao lado da minha casa, tenho passado por lá de bicicleta. Inusitado também, centro de Niterói não costuma rolar nada além dos bares meio pé sujos. O entorno de noite costuma ficar vazio, e era segunda ainda. 


O nome do evento parecia ser “Um Ensaio Gráfico Em Uma Gráfica”. "Se tiver com tempo de poeta, vem". Penso como nosso "tempo de poeta" já vem adestrado também pelos mesmos códigos de sempre: sair de noite, pagar uma entrada, couvert artístico, cerveja barata, cerveja cara, show sentado, show em pé, rodinha punk, ritual cultural tipo passar os olhos num museu.

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O máximo de diferente que vi esses dias nesse sentido foi o show do Crizin da ZO no Sesc Tijuca. Show dentro de teatro chique que não podia beber nem fumar, mas todo mundo em pé batendo o corpo loucamente, e quem tava sentado ficava pulando igual pulga sendo eletrocutada, sacudindo a cabeça.


Todas as suntuosas cadeiras vermelhas acolchoadas e de couro estavam lotadas. O acontecimento ali encontrava seu espaço no ambiente de um jeito novo, trazendo consciência sobre os códigos. Psicomotricidade total.


Me senti estranhamente confortável e livre, quando notei que não tinha nenhuma expectativa codificada de reação, porque a relação entre a reação que costumamos presenciar nos shows do Crizin da ZO e o local não fechava de alguma forma. O aspecto da contrariedade me interessa. Enfim, decidi ir, sem saber exatamente para o quê às 19h de uma segunda-feira (18/08).


Que coisa bonita, ir a pé para um lugar. Se locomover no Rio de Janeiro para ir atrás de cultura costuma ser um inferno. Rua vazia, a gráfica comercial aparentemente fechada. Meu amigo que convidei meio apreensivo, do tipo, "é ai mesmo"? Uma das portas comerciais entreaberta, luz e música no ar. Era ali. 



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Vocês já tiveram a oportunidade de visitar uma gráfica? Essa região do centro de Niterói realmente chama atenção pela quantidade de gráficas existentes. Na mesa da entrada tinham alguns livros produzidos lá. Aí que entendo que era uma atividade do artista Jarbas Lopes.


Aqui vale uma breve descrição pra falar quem é Jarbas Lopes aqui, pois é um dos artistas mais renomados quando o assunto é pintura e escultura. Ele possui obras no Inhotim (MG), no Museu de Arte Moderna (M.A.M. - RJ), no Museum Museum of Modern Art (MoMA - EUA), na Cisneros Fontanals Art Foundation (EUA) e no Victoria & Albert Museum (Inglaterra). O foco dele é a experimentação estética, o que justamente se trata desse happening.

Cheguei ali tão rápido e imediatamente que realmente não tinha conseguido captar onde estava indo. Psicomotricidade. Carnaúba fazia a discotecagem com vinil enquanto Jarbas usava as máquinas para tingir folhas em série e nós éramos seus convidados, fruto de uma coincidência. No chão, pilhas de papel, livros antigos desmembrados. 



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Curioso esse encontro justamente quando estou numa fase da vida que eu não imaginaria estar me reconectando com a leitura, criando novos sentidos para o hábito de ler. O lugar onde você está nunca mente, e é fonte eterna de autoconhecimento. Psicomotricidade. A tinta que Jarbas vai espalhando pela máquina é grossa e cheira forte, provavelmente imagino ser tinta de serigrafia.



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O lugar onde ele a coloca vai tingindo em série as folhas, lembrando tie-dye. Manualmente ele para a máquina, reposiciona, com a ajuda de outros, liga novamente.


Em determinado momento somos convidados a tocar em conjunto. Alguns objetos percussivos são dispostos, reco-recos, pandeiros, baquetas, e até dois pratos pendurados em um bastão. Nossas percussões se misturam com o barulho repetitivo da máquina. 


Entrei sem saber o nome técnico dessa máquina e depois fico sabendo que era uma Offset. Sou tocada pela magia de vê-la operando, ser usada para produzir belas imagens e sons; e não para cumprir a função pela qual ela tem verdadeira razão de existir.


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A gráfica em subversão, frequentada por interessados no encontro entre palavra, imagem e som. Parece maluquice, mas ainda dá pra fazer isso hoje em dia se você fica atento e aberto aos sinais. 


Jarbas coordena o encontro para seu ato final. Separamos as páginas tingidas em blocos, por turnos, de acordo com o que interessa à vista.


Essa hora parece um jogo, e alguém cita uma referência ao tarot. Parece que estamos selecionando cartas. Finalmente coloco as mãos no material que assisti e ouvi a produção, e percebo as páginas grossas e gordurosas de tinta. O cheiro de solvente a essa altura já era até agradável.



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Cada um finaliza dobrando ao meio, escolhendo a ordem de suas páginas, e compõe um caderninho para levar de recordação dessa experiência. Algumas anotações cotidianas figuram nas páginas, vestígios de um cotidiano, material gráfico do dia a dia. Me vejo nesse hábito de guardar vestígios.



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O “Ensaio Gráfico Em Uma Gráfica" foi sobre humanizar o ambiente fabril, descobrindo o experimentar como ação cultural de resistência; borrando as barreiras entre quem conduz um espetáculo e quem o aprecia. E por acaso, o Jarbas vai fazer outro happening, lá no Centro do Rio, na galeria Gentil Carioca. Ele será feito amanhã e a Menó convida todo mundo que leu aqui pra chegar lá e apreciar junto.



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Referências: 


 
 
 

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Quando Beatriz nos confiou o seu editorial, senti uma pressão em torno do tema, pois era uma questão de demonstrar na fotografia as expressões de um pessoal que carregava ali toda uma memória. A ancestralidade é o mote deste ensaio, e nada melhor do que falar de uma imagem que influencia tudo ao redor do urbano.


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Cada foto que observava eu perdia um tempo só para admirar, como se estivesse lá nos

bastidores vendo aquela juventude criar um projeto que trazia, ao meu ver, uma força através da suavidade nas poses. As roupas que remetem à cultura rastafari e ao reggae destacam os modelos porque se trata disso também.


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Lembrei de uma passagem de Stuart Hall (2016) sobre como as roupas, aqui no caso, funcionam como “significantes na produção de sentido, e se apresentam como signos. Elas constroem significados e carregam uma mensagem”. E aqui não posso negar que ao mostrar uma narrativa através dos quadros, a gente perceba que elas sozinhas não produzem sentido.


Os penteados, os acessórios, e o cenário são elementos que fazem parte e constroem essa mensagem a qual a fotógrafa consegue transmitir.
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O elenco foi responsável pela elaboração dela: jovens que podem mostrar com orgulho o fato de serem negros e que possuem não só um pedaço, mas toda uma Jamaica a qual foi incorporada no contexto das Américas Central e do Sul.


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A produção do vídeo também é uma forma de reforço da arte em volta do editorial. O filtro VHS faz todo o sentido — aqui entra uma viagem minha sobre a exposição das fotos porque só seria possível captar esse sentido pelo movimento — dando um tom vintage em meio a uma reinvenção.



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A identidade importa. E ela é tema tanto pelo que somos quanto pelo que representamos. Além disso, ela nos mostra “o que nos tornamos”, sendo futuro e passado quando nos lembramos de toda uma diáspora a qual rolou para que nós pudéssemos retratá-la das mais diversas maneiras. O dever de decolonialidade neste editorial é claro, e as pessoas envolvidas no projeto estavam dispostas a trazer essa história.


É um exemplo de que podemos ver e reconhecer as diferentes partes e histórias de nós próprios (Hall, 2006).

Diferente de São Luís, onde o reggae ressignificou sem interferir na lógica das práticas culturais locais e transformou a capital maranhense na “Jamaica brasileira”, no Rio de Janeiro, é vista com mais uma das facetas simbólicas e representativas, já que não é só uma, e sim várias manifestações artísticas/musicais que construíram o Rio que conhecemos; este que também foi afetado pelo branqueamento, porém com um movimento de resistência e reexistência.


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O mito, segundo Barthes, não se define pelo objeto da sua mensagem, mas pela maneira como ela profere, e é “[...] construído por um discurso que surgiu numa determinada época, contexto que foi apropriado por um grupo que lhe atribuiu determinado sentido” (Morais, 2018). Beatriz aumenta a escala, não fala apenas de uma Jamaica a nível nacional, e isso é o que dá a beleza no trabalho dela. 


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E se tem uma coisa que posso concordar com ela, é que a mesma traduz todas as suas intenções em seus trabalhos, como se as lentes fossem o cérebro dela, traduzido pelas fotos e pelos vídeos. Uma artista visual de mão cheia. A Menó tem o prazer de mostrar o que ela quis dizer pelas imagens descritas nesta resenha. É sempre bom ver pessoas com potência passando por aqui, e a revista é um lugar pra isso.






Referências bibliográficas:



HALL, Stuart. Cultura e representação. PUC-Rio: Apicuri, v. 10, p. 24, 2016.


HALL, Stuart. Identidade cultural e diáspora. Comunicação & Cultura, n. 1, p. 21-35, 2006.


MORAIS, Maria do Carmo Lima. A invenção da expressão “Jamaica brasileira”. Núcleo, v. 3, n. 3, 2022.


SANTOS, Gersiney; SANTOS, Daiane Silva. Epistemologias de reexistência: um diálogo teórico-metodológico entre interseccionalidade e aquilombagem crítica. Revista Brasileira de Educação, v. 27, p. e270028, 2022.

 
 
 
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Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

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