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A análise revela uma obra profunda que captura o cotidiano da Baixada Fluminense através de uma estética crua e potente. A música e o clipe, repletos de simbolismo e metáforas, expressam a luta, a dor e a resiliência de um jovem artista que se recusa a ser definido pelas imposições do seu ambiente.





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Salve Melancólico Poeta!

O brado profundo de sua alma foi ouvido.

Tua voz ecoa nas entranhas desta cidade.

Eis-me aqui! ouço teu sombrio lamento!



O Vídeo-clipe de RARO, VINTE E CINCO (SCORSESE) lançado pelo selo CRIS Records, compõe a faixa de abertura do EP "Pivete", que é, sem dúvidas, uma preciosidade estética.



Em meio ao caos e a vida acelerada da metrópole maravilhosa, ouvir essa música foi uma cronoquebra.


O trabalho de vídeo de Guilherme Leopoldo é bastante marcante. Seus takes mostram cenas da vida cotidiana – lavar o rosto de manhã, fumar um cigarro, sentar-se na sala – em um cenário cotidiano – uma casa de família, a capa no sofá, o quadro na parede – da Baixada – muros pichados, arame farpado, becos, fiação exposta.


O preto e branco, característico de muitos artistas do Under, se faz presente, aprofundando o cotidiano ao mesmo tempo que o afasta. Talvez o cotidiano da Baixada seja surreal e esteja dado nesse limbo paradoxal, vívido, mas sem cor; potente, mas esvaziado.


Começando pelo beat de Delun4. A música se inicia com um som como um rádio sendo sintonizado até encontrar a frequência certa. O sample instrumental loopado que acompanhará toda a obra vem em um crescendo formando a base da música que faz imergir na atmosfera desta criação artística.


A voz do Poeta se manifesta, “RARO”, brada, e uma lírica pesada nos é apresentada na forma de imagens poéticas profundas que são ao mesmo tempo um lamento, um protesto e uma afirmação de si no mundo.

E a fama da área procede

Aqui, ele começa falando de onde é, São João de Meriti, Vila Norma, mas podendo ser estendido à Baixada Cruel como um todo. A fama procede mesmo, um espaço marcado pela violência e pelo subdesenvolvimento planejado pelo Estado, mas…

Fruto do meio fazendo mais do que deve Matando mais do que um leão por dia

As pessoas de lá lutam, e ele, o Poeta, também luta, com muita garra.


“PODER SCORSESE” é uma referência ao diretor de cinema, Martin Scorsese, que tem uma filmografia ímpar, mas uma história de vida que faz refletir: nasceu e cresceu em um bairro marcado pela violência e pela ascensão da máfia e que, mesmo diante dessas condições, virou um dos maiores diretores da história. Um elemento tanto anafórico quanto catafórico, afinal…

E o fardo de ser prodígio De onde nos chamam de bandido Roubo tua atenção sem vender pino

Ele é um prodígio e foge do que o meio o impõe, quebrando assim a lógica determinística do pensamento positivista; ele, um jovem negro da baixada, ganha a mídia (a atenção) não pela imagem que tanto é vendida sobre os corpos pretos e territorializados: favelado é traficante; mas pelo seu talento e suas potências.


Isso é tão normal pra mim quanto o ar que respiro

Aqui, dentre a arte e o engenho, ele demarca sua posição pelo gênio: é algo inato a ele, faz parte de seu ser, não poderia ser diferente.


Indício do vício Desde de menorzin’ exercendo meu ofício E eu sou muito mais que isso!

E reforça sua revindicação: dentre o vício, outro caminho imputado a ele pelo meio, ele exerce seu ofício e reivindica um futuro outro; ele é muito maior, ele tem o dom da criação; ele é capaz de fábricar uma nova realidade.


Sou o que cria não o que imita!

Este verso é quase como um mantra que reflete não só a visão do Poeta (que literalmente significa aquele que cria), mas a perspectiva do Under e sua luta contra a REprodução, marca de nossa era capitalista.


Me diz! Como falar que nunca parti Partido em tantos pedaços pra reconstruir Visando o melhor dos caminhos sem saber pra onde ir

O Eu fragmentado pela (Pós)Modernidade, com tamanho poder criativo, se encontra perdido numa encruzilhada das Moiras para reconstruir um futuro despedaçado.


Menor sonhador, acostumado com a dor Predestinado desde o berço a lidar com amor Fazer o que faz por amor Bem feito! Mal sabia que o mundo veio com defeito

Sonhar é mobilizado e se compõe com a Dor. Uma antítese que incorpora a rasteira do mundo defeituoso, uma vez que seu Destino é manejar o Amor, é Fazer o que Ama, mas muitas vezes isso escapa aos dedos pelas vicissitudes do Sistema Moedor de Sonhos.


Seu doutor, que mal tem sentir tudo o que eu sinto? Será que sou só um protótipo desse caos em que vivo? Nem sempre só tô bem, mas só tô sim Entre pensamentos e lamentos, sobrevivo em crise

Agora, o médico surge, tropo caro ao rap, o do papel catártico, disposto nessa estrofe, traz consigo a questão do sentimentos desse jovem com o dom da criação que se encontra refletindo sobre a vida em crise.


Sociedade nunca foi sinônimo de liberdade Predominantemente só maldade

O pessimismo toma conta, a liberdade não existe nesta sociedade que, traçando paralelos com Rousseau, corrompe as pessoas.


Saudade corrói mais do que criolina Na minha idade E olha que eu nem cheguei nos trinta Vida Maldita!

Saudade. Não é a falta do que se tinha e se perdeu (Nostalgia) mas o sentimento que se tem diante de um futuro não se pode mais realizar, é um sentimento comum  em terras fluminenses onde jovens negros são assassinados diariamente e ela corrói…


Só mais um dia Dia de vida, Mas que ironia

Tudo isso se passa só em um dia. São feixes que aparecem para logo após sumir. É um grande fluxo de consciência em que o Poeta apresenta um postura esperançosa e ao mesmo decai em pessimismo. São os pensamentos de anos de uma vida passados em um mísero dia.

Se, por um lado, a música faz parar e desacelera o mundo rápido, por outro, o conteúdo de sua letra é paradoxalmente apenas um dia de vida que poderia ser uma vida inteira.


PIVETE!


Nome do EP posto ao final da música fechando uma música que certamente não pode ser esgotada por essa breve análise. Uma riqueza de poesia.


2N



Han, RARO


E a fama da área procede

Fruto do meio fazendo mais do que deve

Matando mais do que um leão por dia

Só quem ‘tá de frente da linha


PODER SCORSESE


E o fardo de ser prodígio

De onde nos chamam de bandido

Roubo tua atenção sem vender pino

Foda-se teu hipe, teus kit

Isso é tão normal pra mim quanto o ar que respiro


Ei, indício do vício

Desde de menorzin’ exercendo meu ofício

E eu sou muito mais que isso!

han

Eu sou muito mais que isso!


Sou o que cria, não o que imita

Repita

Sou o que cria, não o que imita


Correndo na bota de todos, prejuízo

E não adianta temer pra matar ou pra morrer

han

Me diz! Como falar que nunca parti

Partido em tantos pedaços pra reconstruir

Visando o melhor dos caminhos sem saber pra onde ir


Han

Menor sonhador, acostumado com a dor

Predestinado desde o berço a lidar com amor

Fazer o que faz por amor

Bem feito! Mal sabia que o mundo veio com defeito


Han

Seu doutor, que mal tem sentir tudo o que eu sinto?

Será que sou só um protótipo desse caos em que vivo?

Nem sempre só tô bem, mas só tô sim

Entre pensamentos e lamentos, sobrevivo em crise


Han

Sociedade nunca foi sinônimo de liberdade

Predominantemente só maldade

Hey

Só maldade!


Saudade corrói mais do que criolina

Na minha idade

E olha que eu nem cheguei nos trinta

Vida maldita

Vários reflexo não de bolinha

Uma pra baixo, duas pra cima

Desci pra pista, só mais um dia

Dia de vida, mas que ironia

Hei

Han

Só mais um dia

Dia de vida,

Mas que ironia


Hey

Pivete!



 
 
 

Atualizado: 4 de set.

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De certo, cada folha que cai não só carrega impressões genéticas, mas também lembranças. Da terra de onde brotou a semente jaz agora quem serviu à própria respiração, logo a vida daquele ser.

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Dessa maneira, servindo novamente à manutenção da vida através da decomposição que gerará o adubo que nutre novas gerações. Nessa metáfora de retomada e familiaridade releio a obra Folhas de Wellerson Cesar, cria de Belford roxo que crescia e amadurecia sob as folhas da amendoeira de seu quintal, enquanto tijolo por tijolo o próprio pai construiu o castelo que abriga e protege toda a família, tal qual o tronco que permite a sustentação da planta.


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No mesmo quintal que brincava, também festejava com sua família.

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A Coleção folhas carrega gravuras, entrelaces e poesia de momentos e pessoas que marcaram o desenrolar familiar. Dessa vez, além de carregar a memória póstuma do que um dia foi da árvore, carrega também a memoria viva perpetuada pelo afeto do artista à sua família.


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Em folhas pintadas e costuradas Wellerson expõe mais do que pinturas envernizadas, trás à luz o amor e respeito por aqueles que contribuíram à construção de sua subjetividade.


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Assim como as folhas são essenciais à amendoeira, a família, afeto, arte e memória também são vitais para a produção artística.


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Folhas avança para além de tudo isso, é a expressão palpável do processo de realização afetiva da arte em si.


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A exposição esteve disponível fisicamente na Galeria Ocupá, no bairro da Gávea no Rio de Janeiro, do dia 28 de Julho ao dia 21 de agosto. Atualmente parte da obra se encontra em registro fotográfico no perfil do Instagram do artista; @wellersoncesar.

 
 
 

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Com sua precisão milimétrica, o estilo é a prova de que a periferia reelabora o externo e o devolve como arte e afirmação cultural, resistindo ao racismo e à marginalização. Uma estética que dita tendências e fala por si.



"Conselho dos parentes" 2022, por @explicito___
"Conselho dos parentes" 2022, por @explicito___

O ensaio destaca o "reflexo alinhado" como uma inovação capilar brasileira da periferia, que transcende a moda e se estabelece como um manifesto de identidade cultural e resistência ao racismo.


Entre a precisão da touca e a criatividade das ruas, o reflexo alinhado se afirma como estética própria: um gesto de identidade, pertencimento e afirmação cultural.


Eugène Schueller
Eugène Schueller

Em 1909, Eugène Schueller fundou a Société Française des Teintures Inoffensives pour Cheveux, batizando sua primeira fórmula de clareamento capilar de L’Auréale, nome que seria a semente da L’Oréal (L’Oréal, 2025). O que parecia apenas inovação química se tornaria, décadas depois, matéria-prima para transformações culturais em diferentes cantos do mundo.


Rodriguinho quando estava n'Os Travessos
Rodriguinho quando estava n'Os Travessos

Nos anos 1930, a descoloração já havia conquistado popularidade — mas restrita às mulheres. Apenas nos anos 1990, homens passaram a adotar o cabelo descolorido, primeiro fora do Brasil. Por aqui, a tendência entrou de vez no imaginário popular pelas mãos de músicos de pagode na década de 90, e nos anos 2000 se espalhou com atletas e artistas, consolidando um estilo cada vez mais presente.


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Foi no início dos anos 2000, no entanto, que a periferia brasileira batizou esse visual de “loiro pivete”. O nome traduzia mais do que estética: era identidade, era código cultural das quebradas, um símbolo de ousadia juvenil. Desse caldo criativo nasceria a técnica que hoje é talvez a mais brasileira das invenções capilares: o reflexo alinhado.


Descoloração Global, com Maxwell Alexandre, na Rocinha, foto por @amandabrauun
Descoloração Global, com Maxwell Alexandre, na Rocinha, foto por @amandabrauun
Descoloração Global, com Maxwell Alexandre, na Rocinha, foto por @amandabrauun
Descoloração Global, com Maxwell Alexandre, na Rocinha, foto por @amandabrauun

Mais do que moda, o reflexo alinhado é expressão máxima do suco periférico. Ele exige precisão milimétrica — pentes certos para o corte, posições da touca, fios puxados no ponto exato —, mas é a partir desse rigor que floresce a arte.

foto por @bidarra021
foto por @bidarra021
Poze do Rodo, foto por @dgbarbeiro
Poze do Rodo, foto por @dgbarbeiro

Baudrillard (1990) já lembrava que nenhum signo é consumido como tal, mas sempre absorvido e devolvido de forma distinta. É isso que a favela faz: reelabora o externo e o devolve como criação com identidade própria, ainda que sob o peso do racismo e da marginalização.


foto por @juandoarte
foto por @juandoarte
foto por @juandoarte
foto por @juandoarte


O racismo estrutural se infiltra sorrateiro, até naquilo que a gente acha que é só estilo. Demorei para entender que rejeitar aquele reflexo era, em parte, rejeitar a mim mesmo. Precisei viver, pesquisar e, sobretudo, trabalhar muito para decifrar o que aquele corte poderia significar. Descobri então que o reflexo alinhado é mais que vaidade: é protesto silencioso em corpos que a sociedade insiste em marginalizar.


High Tuco, por @bidarra021
High Tuco, por @bidarra021

Assim como a Semana de Arte Moderna de 1922 inaugurou uma estética brasileira, a barbearia periférica hoje se afirma como ateliê contemporâneo. Cada corte é gesto criativo, cada reflexo clareado é manifesto.


foto por @juandoarte
foto por @juandoarte
Como escreveu Mário de Andrade no Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924): “a contribuição milionária de todos os erros. Como nós somos. Como a nossa fala.”
foto por @juandoarte
foto por @juandoarte

O reflexo alinhado é isso: um ato artístico e político, prova de que a estética da periferia não apenas acompanha, mas dita tendências — e, sobretudo, resiste.




Referências:


BAUDRILLARD, J. A Transparência do Mal: Ensaio sobre os Fenômenos Extremos. Campinas: Papirus, 1990.


L’ORÉAL. Notre Histoire. Disponível em: https://www.loreal.com/fr/groupe/culture-et-patrimoine/notre-histoire/. Acesso em: 20 ago. 2025.


ANDRADE, Mário de. Manifesto da Poesia Pau-Brasil. Revista de Antropofagia, São Paulo, 1924.


SEMANA DE ARTE MODERNA. Catálogo da exposição, São Paulo, 1922


 
 
 
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